quarta-feira, 6 de maio de 2009

NEURA-SENSIBILIDADE TRIPARTIDA

“Vazios”

Sinto a velocidade de rotação do mundo.

Faz-me entrar em vertigem e perder o rumo da translação.

Que fazer?

Depressa se faz noite que amanhece para o dia.

Mais depressa se escapa o dia que se perde na noite.

As angústias não dormem e anestesiam o mundo para a Vida.

Que fazer com as lágrimas que caem sem autorização?

Apenas deixá-las livres para que limpem a alma.

Entre lágrimas, sorrisos e lamentações,

Os rios caminham em busca da sua foz.

Sem vazios nada se procura.

Sem procurar nada se encontra.

O que se encontra é presente para o passado.

Então que nos reserva o futuro?


“O doer da alma”

A alma dói não pela sua própria dor

Mas pela dor que os outros têm.

Ou não será isso?

Ela dói porque tem vida, movimento e renasce a cada momento.

Esse processo é doloroso pois acaba no percorrer as veias,

Os recantos mais apertados, que nem ela consegue passar.

Mas passa. Tem de passar. E passa.

Quanto mais se embrenha mais aumenta a dificuldade da passagem.

Não quer usar termos, nem rumos, nem objectivos.

Quer apenas ser Alma.

Rodopia em movimentos compassados

Para não perder o ritmo.

Batidas. Sobressaltos com os pulsares acelerados,

Pelos sustos pressentidos.

Não pode parar. O movimento é a vida.

A vida tem o tempo vivido e por viver.

Sem ele nada feito, mesmo sem necessidade dele.


“Símbolos”

Não sei porque se escreve, não sei porque se fala.

Não sei para que se usam termos sem sentido.

Tudo parece ter perdido a validade

Tudo é desculpável pelo contexto.

Tudo se explica para que tenha explicação.

E o que não tem explicação como fica?

Deixa de existir? Perde a importância?

Sem sentido.

Que importa isto ou aquilo?

Não, tudo é importante, fala a aprendizagem!

Frases feitas que tanto se repetem mas que de nada servem,

Para nada servem, porque parece que nada se aprende.

Não me apetece escrever e escrevo!

Não me apetece pintar e pinto!

Não me apetece falar e falo!

Estou o oposto de mim!

Será para me rever? Para me reflectir?

Ou para me afastar do eu e me ver a mim?

Gosto de saber, de conversar comigo e não me estou perceber.

Há um silêncio inquietante, duma alma os gritos!

Linguagem nova, desconhecida sem tradução.

Há que esperar para descodificar os símbolos.

(dina ventura Maio.2009)

terça-feira, 5 de maio de 2009

AO SABOR DO VENTO

by: Dina V.

Esconderijos de refinado odor a Natureza.

Grutas de paredes bordadas a gotas cintilantes.

Ar tão puro e fresco que magoa quando respirado.

Transparência opaca num sabor a terra.

Horizontes distantes, mas claros e nítidos, que nos aproximam.

Imagem fantástica e irreal no que de real me rodeia.

Visão empolgante, do que é meu, sobre a Terra.

Eu confrontada com ela sem nos magoarmos.

Tudo o que de Natural existe se naturalizando em mim.

Viagem do pensamento.

Não terei obrigatoriamente de permanecer sempre dentro de mim.

Assim, coloco-me nos meus olhos e saio

Como um pássaro que se lança em voo aberto.

Há um limiar do qual me atiro sem medo,

Imaginação.

Sobrevoando assim oceanos e montanhas,

Liberto o meu físico da cola invisível que me agarra ao solo.

Liberdade, voo picado, em direcção à Luz.

Ressuscitar da Alma já incolor por falta de Sol.

Voo.

Sem asas, apenas pairando ao sabor do vento.

Nada me poderá deter porque, mesmo que pare, já voei.

Mas como posso pensar em parar com toda esta visão

Que me é permitido desfrutar.

Há que continuar... voar.

Subo. Não há plágio de gaivota

Há sim necessidade de conhecimento da Beleza,

Da urgência do encontro entre mim e o que sou.

É aí que encontro. É neste voo em que me lanço

Que poderei encontrar, libertando-me.

Voo até parada, mas ninguém me poderá alcançar.

Sei que na porta da gruta existe o limiar em que me apoio.

Olhando vejo-o lá em baixo e sinto-me segura

Aquele canto é meu, bem como os ares em que me esvoaço.

Sou eu que vou e não alguém que vai por mim.

Há a junção de mim comigo, plenamente.

Não há confusão no espírito, nem espírito confuso

Há sim, liberdade de Ser, dizendo.

Existe também cansaço de voo e consequentes paragens

Em nuvens suaves de abandono e reflexão.

Depósitos aéreos de energia sólida

Transformada em aragem, pela simples passagem.

Mutações constantes nos diferentes estados.

Apreensão sonora do evoluir no espaço.

Reparo em mim.

Sou eu. Que estou onde quero sem no entanto chegar,

Ao ponto que sei existir, para que eu exista.

É algo que se apresenta sem ocupar um espaço.

Propaga-se de um ponto. Nasce, sem jamais ter deixado de Existir.

Fonte inesgotável, precisando de alimento.

Paro, mantendo-me no espaço ao sabor do vento.

Leveza natural protegida da longínqua gravidade.

Olhando para baixo, sinto a responsabilidade do que tenho.

Tenho à minha frente uma dura batalha.

Vou lutar com todas as forças para manter o que tenho.

Dom Natural que possuindo-o me faz Viver.

Capacidade de Voar...

(in: nas asas do vento encontrei orixá?


LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA

by: dv


Estou cansada do cansaço que me embala.

Sinto-me estranhamente débil perante o que me rodeia.

Preciso recuperar as forças, reabastecer-me de Energia,

Qual máquina produtora que necessita de manutenção.

Onde está toda esta gente. Onde estão os peões. Alguéns.

Será que ninguém sabe onde estão as Oficinas?

Marcações. Falta de tempo. Pressas. Correrias loucas para nada.

Abasteço-me. Digo, falsifico-me. Será que nem eu me respeito?

Inversão. De marcha não, essa continua. De valores.

Silêncio de vozes agitadas, cortantes, agonizantes até.

Missa rezada, em graça a, para desgraça de.

Pouca-vergonha de Sorte na Vergonha da sorte que tem.

Fastio, tédio, nervos de aço nesta máquina desafinada.

Dureza mole, das fibras flexíveis aos pesos acumulados.

Jorrar de salpicos. Gotas gritantes na máquina parada.

Ferrugem. Imitação do Ser. Ranger de molas. Espera.

Doer violento.

Rompante de fúria que destrói o armário.

Casa singela de paredes forradas.

Papéis iguais em casas diversas.

Cobertas, taipais, montes de terra, lixos, miséria.

Revolta.

Luta. Dor sangrenta duma alma que sofre.

Luta interior dum ser que quer alcançar algo.

Falta de forças para forçar a saída.

Explosão interior que rebenta com a máquina.

Amargurada a Alma, senta-se e medita.

Vendo-se ao espelho, reflecte-se em si.

Quer ver para além mas precisa de espaço.

Que mal há em pedir o que de direito lhe pertence!

Apenas o ar que faz com que viva.

Ao ponto a que chegámos, que nem respirar se pode.

Contra natura. Improvável, quando logicamente pensado.

Mas é facto consumado. É difícil respirar aqui.

Deixem-me ao menos respirar. Porque eu sofro se não respirar.

É verdade.

Eu preciso de Ar.





domingo, 3 de maio de 2009

A TODAS AS MÃES O MEU PRESENTE


by: dv

As crianças são os Seres


Em resposta ao que um dia alguém me disse:

“...as crianças são os seres mais incríveis porque não têm maldade...”

gostava de vos mostrar algo que na altura não consegui desenvolver, não por não saber, ou talvez por não ter sido a altura ideal e que agora penso ser capaz por já ter conseguido algo mais mim.

Não lembro o que pensava quando era ainda menina. Não lembro datas... apenas lembranças ténues...

Não me lembro de ter vivido pequena, daí a necessidade de manter sempre um pouco da criança que não fui.

Aos poucos vou lembrando, não de mim mas do que eu senti.

O que de mais nítido guardo na lembrança são cheiros...

Cheiros que nunca esqueço e que me agarram à infância.

Recordo o cheiro do pão quente, da lenha queimada, transformando-se aos poucos em cinza incandescente, levando ao rubro as pedras próximas daquele semicírculo.

O estalido de protesto de uma ramada ainda verde, como que para dizer às chamas que ainda não estava preparada.

O cheiro acre e adocicado da massa levedada, que aos poucos rasgava o aconchegante farelo.

Lá fora o vento forte levava até mim o cheiro da terra molhada!

E, lá longe, aquela barreira que me chamava...era um mundo de cheiro e vida onde sonhar era tão simples!

Apanhava um pouco daquela terra sedosa, apertava-a carinhosamente e deixava-a escorregar por entre os dedos. O barro que sobrava nas pequenas mãos era tão moldável...

Uma bola, mais um retoque e o sonho começava.

Do nada um Mundo se formava. Tudo à minha volta tinha vida e eu criava!

Não sentia o tempo passar. Apenas gostava daquele lugar e pensava...que tudo podia ser de barro, que o seu cheiro era intenso e o sabor?

Só teria de o provar!

Mas se eu gostava tanto daquele lugar, porque existiriam outros e como seriam?

Era fácil imaginar. Olhando ao longe, para além daquele monte, para mim o dorso de um cavalo a pastar, eu podia imaginar:

Cidades, casas, ruas...era tão fácil, bastava-me olhar e lá estavam, debaixo daquele tapete de ervas verdes. Tantas coisas que só os meus olhos podiam contemplar.

O movimento era enorme. Muita gente, embora parecida comigo, pareciam não ver. Seria que também me viam? Nunca cheguei a descobrir!

Após tanta observação o cansaço chegava e para deixar de ver aquela gente bastava pestanejar!

E outro cheiro me atraía, o da água fresca que brotava daquela bica. Era uma fonte, que sendo pública, só a mim pertencia. Porquê? Ninguém lhe ligava, passava despercebida. Mas para mim era muito importante. Corria até ela, sentava-me na beirinha e brincava com a água. Depois de joelhos e inclinando a cabeça deixava que me molhasse a cara. Estremecia, pensando ouvir passos...mas não, era uma pinha que caíra. Corria ao seu encontro e lá ficava sem saber o que fazer. Que poderia fazer com ela? Pegava-lhe, ficava muito quieta e lá continuava a sonhar!

Sentia a imensidão a rodear-me, eu era pequena mas sentia que algo me ligava a ela. Seria o que eu pensava? Se eu pensasse muito, tanto quanto conseguisse ver e depois cada um dos pensamentos desenvolver como sendo imensos, conseguiria aproximar-me mais do que me rodeava, ou seja, teria de desenvolver em profundidade cada pormenor das coisas e, só olhando para todas elas eu conseguiria aproximar-me do que me rodeava.

Era muito difícil e precisava de muito trabalho, porque ao mínimo descuido lá se escaparia um pormenor importante!

Pensava como seria um sábio, que para mim era quem tudo sabia. Como é que eu seria capaz? Nunca seria...e chorava. Mas pelo menos um bocadinho sábio eu podia tentar. E lá começava. Olhava para tudo o que me cercava, tentando entender o Porquê das coisas. E o porquê de serem o que eram e não outras! Ou será que seriam outras e não as que eu via? E lá recomeçava tudo de novo, com o máximo de hipóteses que eu conseguia, até esgotar todas as probabilidades.

Sempre me encontrava numa encruzilhada, num ter a certeza sem certezas! Quanto mais perto parecia estar dum resultado absoluto, mais depressa concluía que ainda tinha muito e muito a concluir, acabando sempre na Procura...


(in: nas asas do vento encontrei)











sábado, 2 de maio de 2009

NÃO SEI EXPLICAR...MAS TUDO TEM UMA RAZÃO DE SER

by: dv



Não sei explicar...

Frase tão simples sem razão de existir, mas que existe. Porquê? Talvez por nem sempre haver palavras que consigam dar a definição mais correcta das coisas. Há sempre algo que nem sempre se sabe explicar. Apenas se sabe. Efémero. Tudo o é e nada quando é o parece vir a ser! Que Ser o consegue explicar? Ser, Humano...é o que na realidade todo o ser humano deverá ser.

Vida. Algo possibilitado mas por vezes não pensado! Olhando à minha volta e erguendo os olhos para o céu, sinto-me imensamente pequena e apenas penso, que só me resta desfrutar um pouco do muito que existe. É através de mim que o poderei sentir.

Sentidos!

São eles que me proporcionam o contacto com a existência, são eles que me mantêm viva, me deixam Ver que existo e que sem culpas, sou um ser humano com necessidade de Sentir.

Recordo algo que um dia escrevi e talvez consiga ilustrar um pouco o que por vezes parece não se conseguir, a que chamei há sempre...nem sempre.

Há sempre uma canção a fazer,

Nem sempre voz para cantar.

Há sempre algo a dizer,

Nem sempre voz para falar.

Há sempre algo de novo,

Nem sempre quem o entenda.

Há sempre algo que acaba,

Nem sempre quem se arrependa.

Apesar das contradições

Tudo tem razão de ser

Por mais ilógico que seja

Tem mais é que se entender!

De tudo isto e muito mais,

Se alimentam gerações,

Sem nunca se preocuparem

Com o porquê das intenções.

Carregam o tempo de vida

Com cruzes bem pesadas,

Sem pensarem em saídas

Ou forma de serem ajudadas.

Há sempre quem não mereça,

Nem sempre quem queira dar.

Há sempre quem ofereça,

Nem sempre por querer dar.

Há sempre quem reconheça,

Nem sempre quem queira mostrar.

Há sempre orgulhos feridos,

Nem sempre quem possa curar.

Em resposta a tudo isto

Não há nada a explicar.

Estou farta de estar calada,

Vou começar a cantar!

(in: nas asa do vento encontrei)





HISTÓRIA DA CHUVA

by: dv

Capacidade de sonhar com as metáforas da vida

Chove! Apodera-se de mim uma tristeza real.

Algo parecido com paragem interior, insatisfação repousante.

Tudo me chama à meditação. É uma força urgente.

Gosto dessa chuva, mas neste momento desejava apenas ouvi-la, vê-la talvez, mas não a queria sentir.

Mas não! Ela cai sobre mim sem piedade.

Porque existes miséria!

Porque não tem o mundo conforto, para se poder sentir o que é belo!

Porque sendo a chuva bela, a não me deixam ver sem magoar?

Deito-me aconchegando contra mim a roupa molhada e fria.

Tenho de ser forte para conseguir.

Medito.

Mas que vejo? Já não há chuva, tudo se transformou!

Estou envolvida. Sinto-me leve como se voasse.

E é verdade, voo debaixo d’água.

Já não há chuva que me magoe. Estou protegida por todas as chuvas.

Sou acariciada por todas as plantas

E como são macias, tão macias que mal as sinto.

Agora apenas chovem bolhinhas d’ar. É engraçado,

Chove para cima... bolhinhas d’ar.

É chuva ao contrário, por isso é linda e não magoa.

Quando lhe toco desfaz-se para não me magoar.

Sinto-me feliz, porque a chuva já não me magoa nem é fria.

Sinto-me molhada, mas é um beijo acariciador das chuvas.

Sou feliz, porque acordei com a chuva a cair-me na cara.

Já me senti triste por isso acontecer, mas agora é diferente

Porque a chuva não é má,

Foi ela que me mostrou as outras chuvas

Que me protegeram e fizeram feliz.

Foi ela que me mostrou que não existe só miséria

E que pelo menos em sonhos tenho o direito a ser feliz!

(in: nas asas do vento encontrei)



A ESSÊNCIA


óleo: Dina V.


Dentro de nós algo que nos preenche quando descoberto e nos faz ver a centelha de divino que todos possuímos.


Gosto de começar a escrever com Há.

Sei que se torna cada vez mais difícil fazê-lo,

Mas é preciso insistir na luta.

Não pode deixar de Haver. Seria o fim.

O fim de algo que nunca começa.

É pouco esclarecedor mas é o que sinto.

É para mim que escrevo e que digo que Existe.

Tenho direito a ouvir-me, a deixar-me encorajar.

Tenho de juntar as forças repartidas e tomá-las como ponto de partida.

Estamos num mundo de lutas individuais

E é preciso que o seja,

Para que se consiga a comunhão.

Temos de nos esclarecer, temos de nos encontrar.

Só assim poderemos mostrar ao que nos rodeia

Que a nossa verdade existe

Que é real e que nos encaminha

Para a Verdade de todos!

(in: nas asas do vento encontrei)





sexta-feira, 1 de maio de 2009

SENTIMENTOS BAPTIZADOS

Porque será que os sentimentos caíram em desuso
E só as palavras ficaram?
Será que a realidade é isto?
Será que agora só resta
O medo de ligar essas palavras aos sentimentos sentidos?
Não os chamando pelos nomes ninguém os irá entender.
Então o medo persiste:
Ou se cai na vulgaridade
Ou se arrisca a não ser percebido.
Se opta pelos dois
É-se apontado como dando o dito por não dito.
Então que fazer? Será preciso deixar de sentir?
Mas isso é impossível!
Então deve-se esconder o que se sente.
É o isolamento compreendido,
Levado ao extremo pela incompreensão.
Incompreensão superficial não, essa é fácil,
A outra é aquela da qual não se foge,
Contra a qual não se luta
E a qual nós próprios não compreendemos
E nunca esta leva a compreender a dos outros,
São sempre diferentes e se leva
Entra-se na superficial, acabando por cair
No baptismo de sentimentos.
(in: nas asas do vento encontrei)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

IMAGINANDO

Já pensaste no quanto é difícil imaginar

A forma como se imagina?

É o que sinto: Turbilhões, avalanches de pensamentos,

Sem no entanto lhes conseguir dar o tom colorido da imaginação.

Mas sinto que possuo dentro de mim o segredo,

Que me porá nas mãos essa possibilidade.

É como o nevoeiro: cor cinza que ofusca os tons reais

Mas que no entanto, atravessado pela luz reflecte uma infinidade de cores...

...que apenas existem, porque ele existe.

E assim será com a imaginação:

Ela existe em mim porque eu dou por falta dela.

Sai correndo. Pára.

São nestes contrastes, que ela poderá estar escondida

Até imaginando que já ninguém a procura.

E com medo de deixar de ser, ela esconde-se da sua própria imaginação...

Imaginando, que mesmo deixando de ser ela, será sempre a imagem de si

Na própria imaginação.

(in: nas asas do vento encontrei orixá)

O BEIJO

óleo: dina V.

É uma forma de diálogo do mais caloroso ao mais gélido. Talvez o mais sincero e melhor seja o que é trocado mil vezes com os olhos antes de chegar à boca.


UM BEIJO COR DE ROSA PARA TODOS OS AMIGOS




MERGULHO EM MIM

Vou escrever para que todas as letras se escrevam.

É uma conversa rasgada,

Uma vontade louca de ser diferente,

Uma diferença louca de não ser capaz.

Esforços em vão para tirar o ardor

Deste interior que não conheço, conhecendo.

É como o mar que na sua imensidão

Por mais que se mergulhe nunca se encontra o fim.

E por maiores dúvidas que se tenham, ele existe!

Onde estará o fundo desse mar desconhecido?

Onde estará o fundo de nós mesmos?

Mergulho em mim.

Sinto-me perder na imensidão do Ser.

Sinto-me, sem sentir a responsabilidade desse mergulho.

É o afastar de um material real,

Caminhando para um real desejado do real material.

Mais uma vez digo que não são jogos de palavras,

Mas sim tentativas para encontrar

Neste complexo Mundo de mim,

O que todas as combinações de palavras significam

E para isso, para a possível descoberta, mergulho em mim!

(in: nas asa do vento encontrei)

CIÊNCIA DE SER

Apetece-me que me apeteça algo,

Nem que seja apenas apetecer que algo me aconteça.

Parecem frases loucas, de quem nada quer nem tem para dizer.

Mas não é o caso. Têm muito que se lhes diga.

E senão vejamos o que haverá que não se vê.

É como um campo vasto que se perde ao fundo,

Que nos transmite a liberdade da imensidão,

Mas nos faz sentir presos à sua própria dimensão.

Transmite-nos sem no entanto deixar que se usufrua.

Faz com que nos sintamos presos da nossa própria liberdade.

Há que tomar a liberdade, liberta de si

Sem no entanto deixar de ser.

Recorramos ao mundo. Deixemos a ciência.

Tem que chegue...

Apossa-se de mim o sexto sentido, a insignificância.

Recorro a ele para ver o que me rodeia.

Nada consigo ver para além da grandeza do que me envolve.

Estou farta destas palavras. Têm de existir outras...

Como definir tudo com o que possuo, se já estão gastas as definições.

Não quero definir. Não posso, não quero definições.

Vou deixar que as coisas se definam por si.

Mas sem mim como será que serão?

Posso questionar mas serei sempre eu.

Estou farta de mim, de questões de mim. Como poderei saber sem mim?

Tem de haver forma de eu saber.

Recorro à Ciência. Embalo na ânsia de saber. Recorro às fórmulas

Feitas por outros que não eu. Aplico-as em mim, porque não...

Eu saberei por mim como se não o fosse.

Há que refazer tudo de novo. Assim nos ordena a Ciência.

Como poderá ser que sendo eu sem ser e sendo ela o que é, o resultado se alterou.

Algo funcionou de forma deficiente. A experiência falhou.

Vamos começar de novo. E se eu alterar?

Não posso a ciência o ordenou.

Começo a ficar enervada, mas chega. Não tenho nervos.

Sou um, como tantos outros, igual.

Deixámos de ver. Cegueira colectiva. Estou farta da ciência material.

Vou novamente para a rua, quero ver a imensidão sem pormenor.

Perdida por perdida deixem-me sonhar.

Não vou ser mais um que a ciência vai sacrificar.

Que se danem as experiências para o bem comunal.

Não quero mais aparato. Quero viver sem edital,

Mesmo farta de não conseguir ver sem mim.

Mas quanto a isso nada posso fazer. É predestinação do Ser.

Nasci comigo, tem de ser. Tenho de me conformar.

Não vai ser possível encontrar sem mim, mas vou tentar.

Quando conseguir, afasto-me de mim e vou pensar.

Tenho de tentar. Experiência. Voltamos à ciência.

Mas desta vez é diferente, tentarei outro caminho:

Vou, sem que eu vá. Não quero a Lei de mim.

Quero apenas que me apeteça tentar, com e sem mim,

Apenas como Ciência de Ser.

(in: nas asas do vento encontrei)

terça-feira, 28 de abril de 2009

R E S P I R A R

Respiro.

Já alguém pensou, no que e como respira?

Pois se não, que o faça urgentemente.

Não faltando o que se chama de ar

Há possibilidade de pensar.

Penso.

Em que pensarei após respirar, perguntarão

Essas sábias cabeças, que por certo também o farão.

Como devem saber, penso que respirando posso pensar.

E vou fazê-lo. Quero muito ar. Quero imensidão.

Sinto:

Tão profundamente quão profundo é o meu pensamento.

Mas se ele só chega aos sítios mais longínquos dissolvido no ar,

Pensamento mais ar dão-me a sensibilidade.

Espaço.

Sinto-me flutuar. Já imaginaram quanto pensamento e ar?

Sinto-me livre, com vontade de pensar,

Porque tenho o elemento primordial.

Mundo.

Tudo gira. Tudo é de tudo sem pertencer a.

Apenas estamos ligados pelo que me faz viver.

Ar.

Tenho-o não o posso perder de novo, há que respirar.

É isso. É impossível perder o respirar, respirando.

Mas não. Eu sei que é possível, por isso vou ter cuidado.

Não posso parar e tal como ele tenho de girar.

É a força do pensamento que me faz movimentar.

Penso.

Vivo.

Agarro-me à vida.

Respiro.

(in: nas asas do vento encontrei Orixá)

PERCEPÇÃO

by dv

Em que penso?

Em nada, ou melhor, sinto o pensamento angustiado.

Numa angústia pesada

Tapado por estorvos turvos

Obstáculos de difícil transposição.

Paredes, portas, madeiras, metais, são terríveis!

É preciso transpô-los mas...

Acabo no nada, como defesa talvez e cansaço.

Mas na defesa está tu,

Que és um mar, uma praia,

Uma rocha, uma pedrinha, uma areia,

Uma ave e contigo vou saindo...

Agora é mais fácil, já cá estamos e sabes?

É muito bonito. É a liberdade.

É uma fuga, para não fugir à realidade.

É uma realidade da fuga,

Fuga que não está só.

Está tão repleta de realidade

Que nos faz não sonhar, a sonhar!

Agora tudo é mais bonito, bonito de esforço, claro!

Esforço para conseguir ver o que é feio e escuro,

Sem acabar no nada! Ver tudo, sem esse tudo,

Para conseguir arranjar da melhor maneira,

Coragem para enfrentar tudo!

(in: nas asas do vento encontrei)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

TRANSLÚCIDO

by dv


Levanta-se um véu.
Descobre-se então algo de maravilhoso
Que se julgava para sempre perdido.
Intacto, sem marcas de tempo, ressurge.
Ressonâncias ou apenas ecos longínquos.
Bloqueio. Mensagens apenas audíveis na imaginação...
Recursos não humanos num Mundo desconhecido.
Refracção de luz que provoca a cor onde não existe.
Leve sussurrar de águas, que apenas deslizam por deslizar,
Cansadas do seu leito em círculo, que une nascente e foz.
Castigo desumano à visão humana no limite de Ver.
Deturpação da realidade global através de análise minuciosa.
Desconhecimento do Todo por não se conhecer cada pormenor.
Impossibilidade pelo Tempo/Espaço/Ser, que nos leva à desistência.
Rebates de consciência de Almas fossilizadas lutando pela Liberdade.
Corpos inertes.
Arqueologia esperançosa no apuro da Verdade.
Réstia de esperança de quem se dedica à Procura.
Resvalar de uma pedra que desencadeia a avalanche.
Coragem de recomeço.
Golpeios incertos nesta floresta oculta.
Desbravar de terras através da Terra.
Reabastecimento das forças para a conquista do Mundo.
Perguntas lançadas para o que não se aceita.
Não resignação perante o ser-se minúsculo para abarcar o Mundo.
Volteios desesperados em busca da saída.
Regressos avessos do que se pretende duma chegada.
Fúrias descontidas num abrir de olhos fechados.
Sussurros, talvez murmúrios, dessa água em circulo,
Ou quem sabe, resumos do que a imaginação Ouve.
Há a fuga para o voo nas asas dum suspiro profundo,
Abrir da porta para o que à razão se esconde.
É ver fluir uma imensidão de acordes,
Que nos transportam para um ritual sôfrego de realização.
São chamamentos ressonantes,
Como trompetes, que tocando em uníssono nos despertam para...
(in: nas das do vento encontrei)

domingo, 26 de abril de 2009

A CRUZ DA VIDA .........................................FÉ


Foto by Dina V.

Como me sinto calma depois de uma tão grande guerra.
Agora espero o amanhã.
Mas sinto no fundo da alma uma voz que me diz,
Fazes falta na Terra!
Eu nasci para morrer, sim é essa a verdade.
Mas não. Agora quero viver.
Quero sentir a felicidade.
Porque não hei-de vencer se me sinto amparada?
Tudo se torna mais leve, preciso é viver!
Mesmo se estiver desamparada vou lutar com ardor
E a cruz é menos pesada.
Todos temos uma cruz na vida e sem ela não haveria vontade(...)


Ficou a saudade
Perdida!
Nua rua vazia
Árida
Das lágrimas evaporadas
Quente!
Do esforço da saída.
Paredes ruíram, tectos ficaram
Apoiados nas paredes de um tecto qualquer.
Há que galgar as janelas fingidas
Desse quarto alugado, numa rua deserta.
Construir portas nas paredes caídas,
Assentar tectos nas paredes sem força.
Há que, erguer dentro, os pontos de apoio,
Chamar Operários de força Suprema
Que entrem, bem dentro
E ergam de novo a casa afundada!
(in: nas asas do vento encontrei Orixá)


GAIVOTA





Foto by Dina V.

Pairando no ar desliza com o vento.
Observa o mundo do alto e vê,
A gente que passa alheia ao Mundo.
Olha triste e quer contactar.
Cansada sobrevoa sem nada alcançar.
Ergue-se num voo, descendo a seguir
Rasando as cabeças sem lhes tocar.
Olhos perdidos num encontro falhado.
Mar de gente, sem rumo nem rota.
Um dia viu que alguém a notou,
Mas teve medo do ser diferente e voou.
Houve um contacto de olhos nos olhos,
Houve o mútuo chorar, o mundo da gente.
Houve o pavor do encontro falhado.
Ficou a saudade de nunca mais encontrar,
A gaivota perdida no no fundo do olhar!

(in: nas asa do vento encontrei Orixá?

domingo, 19 de abril de 2009

M Ú S I C A


A música cria-nos um passado que ignorávamos e desperta em nós tristezas que tinham sido dissimuladas pelas nossas lágrimas. No entanto limpa a alma do pó da nossa vida diária. Depois do silêncio é a música que melhor exprime o inexprimível.





Óleo: Dina V.


Gosto de música.
Gosto de ter o gosto pelo gosto. De ter o gosto pelo riso.
Gosto de gostar.
Gosto de ser simplesmente o que sou. Gosto de procurar e de saber onde estou.
Gosto de encontrar. Gosto de ter o que tenho, que é o gosto pela procura do para além.
Gosto de existir. Gosto de pôr à prova a questão se existo.
Se serei como sou, se saberei mesmo o que penso e porque penso no que sou.
Gosto de pensar. Gosto de me cansar a pensar.
Gosto do jogo da mente, gosto de enrolar o pensamento e de gastar as palavras.
Gosto de girar.
Gosto de repetir o que sinto, de sentir por dentro e por fora.
Gosto que uma ferida doa. Gosto do prazer da cura.
Gosto de dar liberdade, deixar fluir as palavras.
Correr pelas estradas, subir aos montes, gosto de cantar.
Cantar canções de palavras. Palavras cantadas sem voz.
Gosto de canetas. Gosto de tudo o que é louco, perguntar o que louco quer dizer.
Sinto prazer quando sei e não se consegue explicar.
Gosto do fácil que é perceber e que exista claridade, para que se possa entender.
Gosto dos olhos. Gosto de quem não tem olhos e Vê.
Gosto de gostar de gostar, porque simplesmente gosto, no simples acto de dar!
(in: nas asas do vento encontrei de Dina V.)