Quieta e silenciosa tento escutar o pensamento mas ele nada me diz. Sinto-o parado, adormecido, Não sei o que pensar. Mau sinal para começo de dia, ou sinal para um dia diferente. Não sei. Agitou-se e apenas me deu um mote: Agostinho da Silva. Tento recordar muitas das suas palavras e elas misturam-se num emaranhado de sensações que me provocam um sentimento de incapacidade, pois só consigo reconstituir, duplicidade. Não suporto não relembrar o que diz. Sem vergonha ou medo recorro a “Vida Conversável”:
“ (…) E isso imediatamente me levou à ideia de que o português é um ser complexo, do qual, para sermos simples, podemos dizer que é pelo menos um ser duplo, aplicando a palavra, que em português tem má nota, duplicidade ao nível de muito bom. Podemos dizer que uma das virtudes do português é a duplicidade, que geralmente é apontada como um defeito em toda a gente, porque se relaciona com a palavra hipócrita. Coisa curiosa também, porque em grego hipócrita quer dizer apenas o actor. O actor que não era sinceramente ele, pois claro, que era um hipócrita. Assim um hipócrita é um actor, que é actor na vida e que tomou um sentido completamente diferente depois, quando a vida começou a ser alguma coisa, muito mais atenta ao ganho, muito mais atenta à conquista de um objectivo do que ao desenvolvimento da personalidade. Se esta se pudesse desenvolver livremente, nós teríamos o actor na sua plenitude como o foi, por exemplo, Fernando Pessoa. Podíamos dizer que Fernando Pessoa é o hipócrita por excelência. Não sendo ele na sua vida actor, porque se o fosse, teria tido bons empregos, teria talvez entrado na política, teria talvez sido ministro e não foi nada disso, porque não era hipócrita, ele era apenas actor para fora, para dentro nunca o foi, isto é, (…), ele nunca cometeu o pecado contra o Espírito Santo, nunca foi ele próprio actor, ele era as personagens, mas não o actor em si mesmo” Agostinho da Silva
Pois é e só recorrendo a um filósofo que muito admiro, consegui dizer o que me vai na alma. Abriu um pouco de mim e agora duma forma muito primária, recupero as forças com algo de meu, mas reduzindo-me à minha insignificância perante tanta sabedoria.
“…nunca pensei que as coisas fossem assim...”
Frase que bem olhada mais me faz pensar. Quando se parte para algo tem de se ter em consideração as várias hipóteses não descorando, bem pelo contrário, as que se nos apresentam como descabidas.
Quando tal acontece, há que repensar e tentar reparar até com o mesmo método, mas já adequado à situação.
Todos temos um pouco de derrotistas. Mas admiro muito, aqueles que conseguem provar, demonstrar uma maior força vencendo. É assim que vejo. Imaginemos. A praia.
Um pouco à frente está uma criança perfeitamente convencida ter escolhido o local ideal para a sua construção. Trabalha com desenvoltura na edificação do seu lindo e tão idealizado castelo, mas esqueceu um pormenor tão importante: a maré vai subir e de certeza a água vai lá chegar. Que pena. Decidi então, de mansinho e um pouco a medo, quebrar o encantamento e dizer-lhe o que pensava. Que das minhas passagens por aquela praia tinha notado que a água chegava ali e ao passar levava consigo tudo ou quase tudo...
Olhando-me com um misto de surpresa e compreensão, não me deixou terminar e disse apenas:
- Mas agora não está aqui!
Continuou no seu trabalho, mandando-me de vez em quando um olhar como que para dizer que apesar de tudo sabia que eu estava ali, mas não “sabia” sobre o seu campo.
Fiquei apenas a olhá-lo, afastando-me um pouco para não perturbar a concentração do menino e decidi não falar mais, continuando a pensar o que iria naquela cabeça.
Permaneci ali bem quieta. Sentei-me e apoiando o queixo nos joelhos, fiquei a olhar, tentando imaginar o aspecto arquitectónico daquele castelo. Era realmente enorme tendo em consideração toda a área demarcada para a sua construção. Como iria conseguir? Sozinho?
Não me restava senão aguardar, continuando com os meus pensamentos. Havia várias hipóteses:
1- Que por milagre a maré não subisse, o que iria contra tudo o que era hábito. Mas nunca se sabe e assim o menino teria todo o tempo para acabar;
2- Que chamasse outros meninos para o ajudarem a acabar antes da maré subir. Mas aí tínhamos vários problemas: será que os outros tinham a mesma visão? Será que corresponderiam ao que o menino desejava? Ou será que o achariam pretensioso na sua ambição talvez por não pensarem como ele?
3- Que não se importava que a maré subisse, mesmo derrubando o que já tinha feito. Faria apenas até dar e depois iria embora e não ligava mais àquele castelo, pensando construir outro, noutro dia, noutro local qualquer.
4- Que o menino choraria porque a água era má, tinha realmente destruído o seu castelo e que a culpa era minha porque tinha sido eu, a adulta, a lembrar à água que o fosse destruir.
5- Que perante a destruição do seu sonho, os seus sonhos vingariam porque apesar da água lhe ter destruído aquele castelo que se via, não conseguiria destruir a imagem desse mesmo castelo dentro da sua cabeça. Tinha pena que os outros meninos não o vissem mas, talvez o conseguisse reconstruir noutro sítio ou naquele mesmo, mas noutra altura.
Despertei das minhas conjecturas, faltando-me a quinta, com a água molhando-me os pés. Lá se foi o castelo. Olhei o menino e constatei que o estado em que estava não fazia parte das hipóteses que eu havia formulado. O menino estava triste, estava meio perdido, de braços caídos, olhando apenas para a água e para os restos do castelo.
Aproximei-me mas nem deu pela minha presença. Recuei. Não quis contrariar mais o menino. Fiquei preocupada com ele. Olhei-o e vi que me lançou um leve sorriso como que para me descansar. Entendi, talvez aquela revolta e desanimo se devessem ao facto de, apesar de saber o que se iria passar, o menino querer acreditar que daquela vez iria ser diferente.
À medida que me afastava martelava-me na cabeça a hipótese que mais se adaptaria à da reacção do menino.
5- Que perante a destruição do seu sonho, os seus sonhos vingariam porque apesar da água lhe ter destruído aquele castelo que se via, não conseguiria destruir a imagem desse mesmo castelo dentro da sua cabeça. Tinha pena que os outros meninos não o vissem mas, talvez o conseguisse reconstruir noutro sítio ou naquele mesmo, mas noutra altura.
Não resisti à tentação de ver o que iria fazer e voltei àquela praia no dia seguinte. Fiquei contente, porque nas minhas hipóteses nem tudo tinha falhado, lá estava o menino novamente. Desta vez pareceu-me, apesar de o ver na mesma direcção, que estava um pouco mais afastado da água.
A areia era um pouco mais seca dificultando a tarefa ao menino que a ultrapassava molhando a areia com a água, que ia buscar num vaivém constante. Aproximei-me. Olhou-me e vi aquela tristeza lá no fundo, mas já ultrapassada por um certo brilho no olhar e com ar sério e sábio disse-me:
- Sabes...não faz mal, vou voltar a fazer de novo e desta vez ainda é mais bonito, pensei que foi melhor assim - e continuou sempre a falar exemplificando-me o que estava a dizer.
Reflecti. Tinha sido válida a invasão da água. O menino recomeçou, ponderando, ainda com mais coragem, ideias renovadas e um pouco mais cuidadoso. Voltei sempre, tentando ganhar aos poucos a confiança do menino, esforçando-me para que me deixasse ser sua amiga.
Lutas internas. Esforços, gritos pesados. Gritos pesados de esforços, Esforços pesados de gritos. Cabeça cheia de pensamentos que não se vêem Mas sentem-se fisicamente, tal como a dor de um viver magoado. Vertigem, cansaço dum descanso activo. Criação interior de algo não transposto. Barreiras do espírito causadas por. Procura de “pures” sem nada alcançar. Será que existem ou apenas o serão por não existirem? Enganos, traições de pensamentos vivos. Vivos e mortos para...apenas por. Será que os dicionários acabaram? Criem-se, recriem-se, mas encontrem. É preciso encontrar a saída, numa explicação de saída. Com as canetas que são o quê? São “pures” ou são canetas? Que rasgam papéis, origem da fúria. É um caminhar correndo, alargando o passo pelas linhas que não existem, Mas que o são só porque não existem. Vou escrever em não linhas, vou não escrever. Porque: Se escrevo em linhas, não escrevo em não linhas. Não escrevendo paro a escrita do pensamento. Não, não paro Porque ele não pára – o pensamento escreve em não linhas. Assim não escrevo – penso escrevendo. Arranjei a saída. Vou continuar a subida. Subida imaginária, porque o não imaginário é descer. Descer ao profundo, ao algo que me ocupa em espaço. Espaço aberto porque fechado, espaço fechado em aberto. Agarro nele e crio em espaço. Vou, voltando, andando sem andar. Parece ser impossível. Mas que sei eu do impossível! Venham dicionários, correndo. Folhas ao vento espalhando palavras! Significados de palavras espalhadas. Restos de palavras, terminações, terminus. Estão alarmadas as palavras. Milhares de combinações de letras formam as palavras. Vamos então formar os milhares de milhões de palavras. Não há tempo para tanta letra, é o que dizem os dicionários. Então ficamos pelos sinónimos, antónimos... E esquecemos as palavras primeiras. Há que as encontrar. Venham dicionários! Moradias fechadas-abertas das palavras. Habitação provisória. As palavras acumulam-se, empurram-se, substituem-se sem dar cavaco E nós que não somos palavras que as procuremos. Não somos palavras ou seremos? Porque as criámos, devemos conhecê-las. Mas não, tornam-se independentes, livres e ausentes. Estamos sem palavras! Venham dicionários, casas pobres de ricas palavras Ou casas ricas de palavras pobres. Significados frios perdendo-se em páginas. Página voltada de mais um livro. Livros palavras, casas perdidas. E eu aqui perdida em casas, em palavras de mim. Ponto final. Não é uma palavra é um ponto, mas sendo ponto palavra Em que ponto ficamos? Venham dicionários por ponto final na palavra. Corram, acorram dicionários homens, Homens dicionários feitos de palavras. Discursem, orem, bem falem, digam de suas palavras. Que vos resta senão as palavras de acções, Acções de palavras que não têm tradução. Venham dicionários traduzir o significado das acções. Ninguém sabe, ninguém vos presta atenção. Velhos bocados de papel, bem encadernados, casaco fechado, Bem aprumados numa estante qualquer. Fiquem calados. Que vos servirá falar se não têm a dizer palavra das palavras que possuem!
“...as crianças são os seres mais incríveis porque não têm maldade...”
gostava de vos mostrar algo que na altura não consegui desenvolver, não por não saber, ou talvez por não ter sido a altura ideal e que agora penso ser capaz por já ter conseguido algo mais mim.
Não lembro o que pensava quando era ainda menina. Não lembro datas... apenas lembranças ténues...
Não me lembro de ter vivido pequena, daí a necessidade de manter sempre um pouco da criança que não fui.
Aos poucos vou lembrando, não de mim mas do que eu senti.
O que de mais nítido guardo na lembrança são cheiros...
Cheiros que nunca esqueço e que me agarram à infância.
Recordo o cheiro do pão quente, da lenha queimada, transformando-se aos poucos em cinza incandescente, levando ao rubro as pedras próximas daquele semicírculo.
O estalido de protesto de uma ramada ainda verde, como que para dizer às chamas que ainda não estava preparada.
O cheiro acre e adocicado da massa levedada, que aos poucos rasgava o aconchegante farelo.
Lá fora o vento forte levava até mim o cheiro da terra molhada!
E, lá longe, aquela barreira que me chamava...era um mundo de cheiro e vida onde sonhar era tão simples!
Apanhava um pouco daquela terra sedosa, apertava-a carinhosamente e deixava-a escorregar por entre os dedos. O barro que sobrava nas pequenas mãos era tão moldável...
Uma bola, mais um retoque e o sonho começava.
Do nada um Mundo se formava. Tudo à minha volta tinha vida e eu criava!
Não sentia o tempo passar. Apenas gostava daquele lugar e pensava...que tudo podia ser de barro, que o seu cheiro era intenso e o sabor?
Só teria de o provar!
Mas se eu gostava tanto daquele lugar, porque existiriam outros e como seriam?
Era fácil imaginar. Olhando ao longe, para além daquele monte, para mim o dorso de um cavalo a pastar, eu podia imaginar:
Cidades, casas, ruas...era tão fácil, bastava-me olhar e lá estavam, debaixo daquele tapete de ervas verdes. Tantas coisas que só os meus olhos podiam contemplar.
O movimento era enorme. Muita gente, embora parecida comigo, pareciam não ver. Seria que também me viam? Nunca cheguei a descobrir!
Após tanta observação o cansaço chegava e para deixar de ver aquela gente bastava pestanejar!
E outro cheiro me atraía, o da água fresca que brotava daquela bica. Era uma fonte, que sendo pública, só a mim pertencia. Porquê? Ninguém lhe ligava, passava despercebida. Mas para mim era muito importante. Corria até ela, sentava-me na beirinha e brincava com a água. Depois de joelhos e inclinando a cabeça deixava que me molhasse a cara. Estremecia, pensando ouvir passos...mas não, era uma pinha que caíra. Corria ao seu encontro e lá ficava sem saber o que fazer. Que poderia fazer com ela? Pegava-lhe, ficava muito quieta e lá continuava a sonhar!
Sentia a imensidão a rodear-me, eu era pequena mas sentia que algo me ligava a ela. Seria o que eu pensava? Se eu pensasse muito, tanto quanto conseguisse ver e depois cada um dos pensamentos desenvolver como sendo imensos, conseguiria aproximar-me mais do que me rodeava, ou seja, teria de desenvolver em profundidade cada pormenor das coisas e, só olhando para todas elas eu conseguiria aproximar-me do que me rodeava.
Era muito difícil e precisava de muito trabalho, porque ao mínimo descuido lá se escaparia um pormenor importante!
Pensava como seria um sábio, que para mim era quem tudo sabia. Como é que eu seria capaz? Nunca seria...e chorava. Mas pelo menos um bocadinho sábio eu podia tentar. E lá começava. Olhava para tudo o que me cercava, tentando entender o Porquê das coisas. E o porquê de serem o que eram e não outras! Ou será que seriam outras e não as que eu via? E lá recomeçava tudo de novo, com o máximo de hipóteses que eu conseguia, até esgotar todas as probabilidades.
Sempre me encontrava numa encruzilhada, num ter a certeza sem certezas! Quanto mais perto parecia estar dum resultado absoluto, mais depressa concluía que ainda tinha muito e muito a concluir, acabando sempre na Procura...
Frase tão simples sem razão de existir, mas que existe. Porquê? Talvez por nem sempre haver palavras que consigam dar a definição mais correcta das coisas. Há sempre algo que nem sempre se sabe explicar. Apenas se sabe. Efémero. Tudo o é e nada quando é o parece vir a ser! Que Ser o consegue explicar? Ser, Humano...é o que na realidade todo o ser humano deverá ser.
Vida. Algo possibilitado mas por vezes não pensado! Olhando à minha volta e erguendo os olhos para o céu, sinto-me imensamente pequena e apenas penso, que só me resta desfrutar um pouco do muito que existe. É através de mim que o poderei sentir.
Sentidos!
São eles que me proporcionam o contacto com a existência, são eles que me mantêm viva, me deixam Ver que existo e que sem culpas, sou um ser humano com necessidade de Sentir.
Recordo algo que um dia escrevi e talvez consiga ilustrar um pouco o que por vezes parece não se conseguir, a que chamei há sempre...nem sempre.
Porque será que os sentimentos caíram em desuso E só as palavras ficaram? Será que a realidade é isto? Será que agora só resta O medo de ligar essas palavras aos sentimentos sentidos? Não os chamando pelos nomes ninguém os irá entender. Então o medo persiste: Ou se cai na vulgaridade Ou se arrisca a não ser percebido. Se opta pelos dois É-se apontado como dando o dito por não dito. Então que fazer? Será preciso deixar de sentir? Mas isso é impossível! Então deve-se esconder o que se sente. É o isolamento compreendido, Levado ao extremo pela incompreensão. Incompreensão superficial não, essa é fácil, A outra é aquela da qual não se foge, Contra a qual não se luta E a qual nós próprios não compreendemos E nunca esta leva a compreender a dos outros, São sempre diferentes e se leva Entra-se na superficial, acabando por cair No baptismo de sentimentos.
É uma forma de diálogo do mais caloroso ao mais gélido. Talvez o mais sincero e melhor seja o que é trocado mil vezes com os olhos antes de chegar à boca.
Armadilha de Eros
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Provocador da loucura é o amor enfeitiçado
Amantes e filósofos em rituais se lhe submetem
Filho da desordem sedutor desejo de atracção sensual
Coadjuvant...
A Big Question
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*Fotografia: Nuri Bilge Ceylan*
"Uma das questões primordiais da Humanidade é a de saber até que ponto o
homem é naturalmente bom ou naturalmente mau.
Se...
Não tenho muito a dizer, apenas sinto que estou por cá para evoluir como ser humano e que para isso terei a cada dia que passa ter uma maior capacidade de aceitação, com tranquilidade e muita paz.