sábado, 23 de maio de 2009

AS ESTAÇÕES DO ANO

by: dv

Acordo e sinto um cheiro a vida. Existe um misto de quente e frio,

Um cheiro à frescura da terra e ao calor das flores.

É como se dentro de mim nasça uma vontade louca de me despir,

Me apeteça beber todo o odor que me banha.

É como se não conseguisse saciar toda a sede de calor

E sinto-me leve, sinto-me florida e fresca.

Mas nunca me vou cansar dessa frescura,

Porque quando ainda a desejo, vejo-a ir-se apagando ofuscada por um bafo quente.

Não sabe bem. Sinto-me abafar sem possibilidades naturais de quebrar esse calor.

É preciso muita força para não deixar de respirar.

E bebo, bebo com a sofreguidão de quem vai deixar de ter.

É um maldizer da vida. Sinto-me sem forças para me abanar.

Olhar parado, inquieto, procurando em vão qualquer movimento.

Alguém me tocou. Sinto-me despertar.

Mas não é possível... é tão pequenina. Mas foi ela.

Foi essa folha que se desprendeu para me salvar.

Pairou sobre mim, agitando de mansinho o ar inerte.

E veio outra e muitas outras se seguiram.

É como se tivessem combinado a hora de me salvar de tal calmaria.

Deu-me uma certa melancolia e pensei:

Para meu bem se viram vocês despojadas dos vossos bens e adornos.

Mas depressa me passou, pois tudo ficou sereno, calmo, cheio de uma beleza fresca e amarela.

Amarelo...dourado...pensei que aquela luz cansada de tanto calor se ia derretendo,

Deixando cair sobre mim um pouco dos seus braços,

Que de tão longa caminhada se tornaram frescos e protectores.

Fui deixando que me envolvessem.

Senti-me enleada de tal forma ao ponto de perder as forças.

Mas sentia-me bem. Tão bem que tudo parecia irreal.

Mas fui despertada por um gesto brusco. Porque teria eu feito isso?

Percebi! Os braços dessa luz já não me aqueciam, estavam muito frios.

O brilho amarelo foi desaparecendo e tudo se tornou escuro e gélido. Senti-me perdida, angustiada.

Tinha-me esquecido de tudo por tão bem estar.

E eis-me despertada para a vida de uma maneira tão cinzenta e fria.

Mas ainda bem que existiu esse cinzento, porque assim mais brancura os meus olhos viram.

Como se uma luz sobrenatural tivesse sido acesa e tudo passou a um branco resplandecente.

O frio tornou-se agradável, penetrando todo o meu ser. Senti-me novamente enleada.

Era lindo, tudo é lindo e pensei:

Sou viva e quatro são os cheiros que me ligam à terra!

(in: nas asas do vento encontrei orixá) - dina ventura





sexta-feira, 22 de maio de 2009

DESCODIFICAÇÃO DO TEMPO

O tempo não existe. Mas existe.

Acabei de o descodificar.

Ele é espaço. Espaço de algo a que se chama tempo.

Onde se albergam, coisas de nome sentimentos.

São pequenos tempos que preenchem o espaço onde o tempo vive.

Logo também são tempo e o Tempo é sentimento.

Angústias que apesar de tormentos individuais,

São inquietudes metafísicas, que promovem estreiteza

E quanto mais espaço têm mais se sente o aperto.

São ânsias provocadas por desejos ardentes

De alcançar o que não se tem,

Saber, o que não se sabe

Ou apenas a necessidade aflitiva de criar

De extorquir ao tempo, o que o tempo esconde no espaço que tem.

São insónias, para que a vigília se processe e permita, a não paragem.

É a inspiração, quer do ar que entra e permite sentir

Ou o entusiasmo criador pelo ter respirado.

É o instante, em que o tempo é reduzido a um lapso.

E é nesse momento único que o tempo, tem tempo e vive

Fazendo-nos esquecer que ele existe e é sonho.

Aí o tempo existe livre,

Sem ser necessário esconder-se ou descodificar-se

Ele apenas é, o que o sonho o deixa ser!

Dina Ventura - Maio de 2009

D A T A S...

by: dv

Contar os dias é dificultar a vida.

Importa é que se sinta o que o passar significa.

Não interessa o que fica para trás,

Conta é o que o hoje mostra com o passar do tempo.

Onde quer que estejamos há que sentir.

Depois, há que enfrentar os rios de palavras

Enquanto o são de verdade. Ou seja:

Declarações da alma através da escrita transformando-nos em meros leitos.

Enciclopédias de sabedoria simples que o passar do tempo nos sussurra.

Zumbidos leves de Saberes que devido à fragilidade humana se perdem.

Esboços torturados duma hipotética beleza rara.

Máximas inacabadas, não por falta de tempo mas sim de conhecimento.

Borbulhar de riachos com aspiração a rios, sem se encontrarem no que são:

Riachos. Águas pouco claras que ao longo do tempo se vão coando.

Olhares despreocupados nas margens lixentas disfarçadas pela verdura.

Despertar incerto numa manhã cinzenta, na foz já cansada.

Encontro de águas para um nascer de algo.

Mares. Remoinhos violentos num bater de ondas.

Incontrolável dimensão de profundidade desconhecida.

Lugares desejados, secretos, de conhecimento reduzido.

Navios procurados nas profundezas remotas

Oscilando em abismos de paradeiros inacessíveis.

Ventos. Agitando as bandeiras do que existirá

Enquanto a procura se torna dolorosa porque é procura.

Caminhando em esforço contra a força do vento

Esperando alcançar o que deveras procura.

Noite. Aparecendo, reporta ao que já passou,

Totalizante espera resultados palpáveis do que poderá ser.

Oculta, sem se esconder, passeia-se às claras.

Sai sem discussão, dando prazo sem dar e promete voltar.

Encontro. Já de saída cruza-se com o Sol.

Olham-se de costas seguindo direcções opostas.

Idos deixam-nos à mercê do que são:

Tempo. Esperas inúteis para os conhecer,

Encontros solenes de admiração e espanto.

Nada nos priva da sua companhia mesmo não estando connosco.

Trazem-nos o que são, pedindo em troca o que precisam:

Análise. Porquê de existirem por si e sem nós.

Espaço. Aberto sem no entanto nos ser permitido.

Seguem-se as vias da dedução e da lógica,

Encontram-se resultados questionando-os de dúvidas.

Incontroláveis procuras neste tempo que existe em nós.

Síntese: Dia – Noite – Tempo

O FILME DA VIDA

by: dv

Ontem.

Foi ontem, apenas revelando-se porque é passado.

Completamente preenchido, já não cabendo em si,

Vê-se obrigado a sobrar-se para o dia seguinte.

Hoje.

Novo começo para um ontem e começo para um novo amanhã.

Ambos novos começos.

Serão tão diferentes assim?

Amanhã.

Repleto no hoje e vazio no amanhã seguinte,

Mas incessante no seu começo e fim.

Dias após dias repetitivos reflectem-se nas águas que lhes dão vida.

Tal qual elas, o tempo em dias caminha...

Ora revolta, ora calma, sendo rios ou mares,

Azuis, verdes ou brancos.

Assim é por onde andamos!

Até observar nos poderemos, como num espelho,

Quando as condições a isso nos conduzam.

Somos esbatidos na superfície,

Sem possibilidade de fuga, antes de nos vermos.

Tomamos conhecimento de que estamos lá, só quando nos vemos.

Revoltos, como água em remoinho, puxando-nos para um centro.

Tudo se perdendo na não originalidade,

Apenas cópias da força da gravidade.

Forças apostas e opostas, em constantes mutações.

Revelações do amanhã anotadas num ontem distante.

Interligação de ontens e hojes, para amedrontarem amanhãs.

São unidos, mas sempre formam par para ludibriarem o que resta.

Perseguições inalteráveis que nos enganam,

Com o objectivo de não serem alterados.

Desgaste significante na marcação do tempo.

Escapes musicais para amelodiar o tempo,

Sinfonias hilariantes para nos prostrarem na recordação.

Recordação no hoje, para que o ontem não morra.

Amanhã ansioso para que a sinfonia não se perca.

Ciclo vicioso de um todo inacabado!

Inacabado em imagem, porque o Amanhã existe.

Reforços pedidos para entender o que É.

Recursos apoiados no tudo que podem ser.

Conclusões gerais, duma lei que já foi.

Coisas completamente certas no começo do hoje,

Que poderão estar erradas quando sobrarem para amanhã!

Ilustrem-se as gentes para que se possam revelar.

Não nos fiquemos pelo filme que reteve a imagem.

Descodifiquemos o negativo e façamo-lo falar.

Que vida... tanto filme por revelar...

Ontem...hoje...amanhã.

(in: nas asas do vento encontrei) Dina Ventura



segunda-feira, 18 de maio de 2009

TESOUROS ESCONDIDOS

Adicionar imagemby dv

Que doces encantos na solidão amarga.

Que forças imensas no perder das forças.

Algo aparecendo no peito ardente.

Há um abalo no corpo dorido,

Há um ressuscitar na vontade forte,

Há um quebrar do refúgio secreto.

Ondas agitadas de um mar parado.

No fundo os navios afundados e perdidos.

Velas erguidas em direcção à luz.

Plantas regadas com lágrimas geladas,

Florescendo mortas num canteiro fechado.

Portas secretas que se abrem aos poucos

Para o campo perdido do Infinito.

Raízes mortas de plantas ressuscitadas,

Bocados secos de seivas brutas,

Passagem ao alimento duma seiva enganada.

Encontros de caules procurando alimentos

Num deserto seco de campo a florir.

Escolha de terra para além da que fica.

Criação de sonhos numa vida de palco,

Rasgos de véus com as forças do vento,

Procura sangrenta de olhos feridos.

Voltar à luta numa batalha perdida.

Encontrar forças num corpo não corpo.

Viagem no tempo do real sem fim!

(in: nas asas do vento encontrei orixá)





domingo, 17 de maio de 2009

NOSTALGIA - SENSIBILIDADE - AMIZADE

Externato de Santa Maria Maior

12.º CONVIVIO

Antigos Alunos do Externato de Santa Maria Maior de Tábua

Pedra da Sé - Tábua - 16 de Maio de 2009

Enquanto avançava para o local do encontro, sentia que recuava no tempo até à adolescência. Sensação normal para quem não via há muito tempo amigos e colegas, já consciente que alguns, poderia não encontrar. Apesar de preparada instalou-se uma nostalgia inexplicável. Ao chegar deparou-se-me um já bem composto grupo do que estava calculado. Próximo de sessenta pessoas, entre antigos alunos e professores. Na mente estava presente a imagem guardada ao longo dos tempos. Nada mais. Uns reconhecíveis outros já não tanto, mas foi ao primeiro abraço que a sensibilidade falou mais alto. Não aguentei e ao contrário do que podia pensar desatei num choro que já me tinha ameaçado de manhã (enquanto escrevia algo que pretendia ler), mas que ali não consegui conter. E pronto passado o primeiro impacto a dor apaziguou-se, apesar de se manter bem presentes os que já não poderei ver nunca mais nas nossas reuniões, mas que estarão sempre dentro do meu coração.

Após o almoço convívio, veio a caminha tão bem preparada, que deixou que a Natureza equilibrasse a mente, mais para o fim da tarde o lanche e a coragem para ler em voz alta o que tinha escrito de manhã. O sentimento era o mesmo com que tinha sido feito e que não me importava partilhar o receio era o desfecho.

“Encontro de amigos – Externato Santa Maria Maior - 16 de Maio de 2009

Recordações

Sem saber porque acontece ou como acontece

Dou por mim muitas vezes, a ver não com os meus olhos

Mas através de alguém que não sei quem é!

Pergunto se sou eu, que ainda não conheço

Ou alguém, que me quer dizer quem é ou quem sou.

Através do seu olhar vejo um mundo com gente,

Gente apenas. Um conjunto sem significado, sem sentido e um pouco desfocado.

Apenas observo, sem ainda entender nem conseguir descodificar.

Apenas fazem parte.

Parece algo neutro, sem cor, que mexe mas não tem vida, irreal.

Hoje esse alguém não está, ausentou-se.

Deixou-me, entregue a mim mesma, de visão clara

Para poder viver a realidade presente.

E agora neste momento, estou a olhar e a ver através de mim.

De forma clara e nítida.

Gente, mas não uma gente qualquer.

São pessoas que olho e sinto.

Umas mais, outras menos, mas todas me dizem algo.

Puxam-me para algo, que nunca esqueci

Nunca vou esquecer, pois faz parte de mim e ajudou-me a ser quem sou:

Externato Santa Maria Maior de Tábua.

Foram muitas dessas pessoas para quem estou agora a olhar

Que fizeram com que a minha alma nunca deixasse de Ver.

E hoje, essa a razão porque estou aqui.

Durante todos os anos em que não estive presente,

Sempre estiveram comigo, sempre fizeram parte de mim e sempre farão.

Muito grata por me aceitarem, me convidarem, por me chamarem e

Por não se terem esquecido de mim!

Por isso estou aqui. Vim não por obrigação mas porque senti que devia estar presente.

Vim porque a ausência, se tornou amargurada

E as memórias do que me fez ser assim me empurraram para aqui.

Há sempre uma razão de ser.

Não é sempre apenas porque se quer ou quando se quer

E sim porque, era agora e hoje que eu tinha de o dizer!

Mais uma vez grata de coração a todos vós.

Amigos de uma vida que me ajudaram a ser quem sou.

Um abraço especial ao meu director, professores, colegas de turma e amigos

Que se mantiveram ao longo dos anos!

Mesmo aos ausentes, a saudade ficou.

Aos que já não estão entre nós, um abraço e carinho muito especiais

Pois quem sabe não estarão a ouvir, a ver e a sorrir!

Quando é de alma, a alma não tem barreiras, não tem fronteiras

Nem distância, nem obrigações, apenas união de corações.

Bem hajam todos por me aceitarem aqui.

Obrigada Leonor pela tua “sempre presença” e pela tua insistência.

Sempre cito uma frase ‘é mais fácil desistir do que persistir’

Tu és a prova disso!

Tu és uma guerreira de alma que muito admiro!

Obrigada a todos e até para o ano. “

Após a leitura desmanchei-me em lágrimas outra vez e agradeço a todos que comigo se comoveram e me ajudaram a conter as lágrimas. Obrigada a ti mana por me teres acompanhado nesta aventura de sensibilidade e emoções.

Dina Ventura

quinta-feira, 14 de maio de 2009

P O E T A

by dv

Segundo a definição, poeta é aquele que se dedica à poesia

Que tem faculdades poéticas. Poeta é um idealista. Um sonhador.

Será mesmo?

Não sei se gostava de ser poeta. Mas sei que não sou.

Poeta é ser mágico.

É conseguir tirar do nada o que sempre lá existiu.

É tirar o vazio, do vazio que o preenche.

É sentir sem sentimentos, por não conseguir sentir

Naquilo que se transformou.

Por em dúvida se sente mesmo, ou se isso nele se esgotou.

É viver em função de algo que sabe não existir.

É não se entregar à dor por não a sentir.

É sentir nas amarras da vida, a liberdade do Ser.

É conseguir alcançar sem nada pretender.

É embrenhar-se no mundo para conseguir desaparecer.

É abdicar do que é, pelo que sente ser.

Dizem que tem elevação nas ideias, mas é engano.

São as ideias que o levantam e o elevam.

Consegue tirar água da fonte que já secou.

Consegue encontrar sem procurar, o que ninguém tentou.

Consegue sair de onde nunca entrou.

Poeta é apenas um Ser

Que hibernou.

Dina Ventura - Maio de 2009

quarta-feira, 13 de maio de 2009

PÁGINA EM BRANCO

by: dv


A página em branco é um desafio.

Olha-a e sinto que me vê de forma profunda.

É ela que arranca de mim tudo o que não sei dizer.

Quando lhe transmito o que vê, acho-me louca.

Ela sorri com ar concordante, mas não dá resposta.

Aguarda, apenas com o aceno da linha em branco,

Para que eu avance. Pergunto para onde e porquê?

Para que serve o que sai? Ninguém lê.

E se lê, fará sentido o que nem sentido tem para mim?

Sinto que amuou, a página em branco.

Talvez receosa por não ser preenchida

Ou talvez por me conhecer como ninguém.

Eu e ela somos uma.

Mas existem os computadores! Ela não quer.

Diz simplesmente…isso é para depois.

Depois faz comigo que quiseres.

Mas agora sou eu e tu, cara a cara, com um elo de ligação;

A caneta. Cordão umbilical entre ti e mim, acresce um dedo.

Mais um…o do sexto sentido, que te permite falar comigo.

Assim, depois de cumprida a tarefa, podes passar-me a limpo.

Amarrotar, rasgar e destruir. Já fiz o meu papel.

Do branco de mim, tirar de ti a cor

Que jamais conseguirias sem mim!

Dina Ventura – Maio 2009




terça-feira, 12 de maio de 2009

PUBLICADO POR TER SIDO ACEITE - GRATA

Acrílico "O CORVO": Dina Ventura

Todo este conjunto "tela-poema" é espiritualmente de Alguém que sabe quem é.
PAZ e LUZ.

Nunca me sinto só mesmo quando estou.

Estou sempre com o pensamento que por vezes não me deixa descansar.

Irrita-me a sua insistência, a sua presença constante de incitamento.

Peço-lhe folga, um instante que seja, para me sentir só e ele reage

Pensando mais ainda.

Reflicto. Só o posso fazer, pois algo quererá.

Acordei já em continuidade de pensamento e ele segredou-me.

Como falas com alguém que não conheces?

Como estabeleces contacto com alguém que não sabes existir?

Não cheguei a conclusão alguma. Pois não existem definições para tais questões.

Embalo então na conversa com o pensamento

E deixo fluir, na loucura do permitir.

Permito que ele seja gente, que não se vê mas existe

Que não tem voz mas nunca está calado

Que não tem forma fixa e que muda a cada instante.

Surge de rompante.

E é na ponta da caneta que se exorciza, que o combato.

É algo mais forte que tudo.

Como se pensará sem pensar?

Onde estará o pensamento quando não se manifesta?

Agora está em diálogo com alguém que não conheço.

Mas reconheço. E fala e diz-me que nos conhecemos, sem conhecer.

Que não nos iremos ver e sim e apenas encontrar.

Há um pensamento comum.

Uma força de mistério que desaproxima quem está próximo

Pela admiração e pela distancia do espírito.

Mas existem são reais, são humanos e parciais.

Nada mais há a acrescentar.

Apenas agradecer a alguém que admiro, a inspiração que me deu

Para concretizar a minha última, melhor penúltima tela.

Que se chama O Corvo!

Dedico-a a si, não pelo que ela representa mas pelo oposto dela mesma.

Dina Ventura Maio/2009



segunda-feira, 11 de maio de 2009

TEXTO DE APRESENTAÇÃO DO CARTAZ

Texto elaborado por César (Mutes pintor) e por Ana Lebreiro.


"Graças às novas tecnologias, foi possível juntar 4 amigos sem nunca se terem cruzado até há um dia atrás...

Não escolhemos o assunto pois o segredo das obras está aí, na concordância do assunto e do temperamento do autor. Na nossa arte, procurar nada significa, o que importa é encontrá-la no seu lugar de liberdade entre o pintor e a tela, sua confidente... A arte não teria lugar na história se os limites do mundo conhecido não tivessem recuado, e os meios de o conhecer alargado à medida das suas transformações e das suas necessidades, numa tentativa de reconciliar a existência do sentimento de cada pintor, com visão dos seus medos, alegrias, tristezas, loucuras e outros estados de espírito. Esta é a arte de Ana Gonçalves, Ana Lebreiro, César Amorim (mutes) e Dina Ventura, numa tentativa de racionalizar um conflito de emoções existente dentro de cada um. Mas… mais importante do que a obra propriamente dita, é o que ela vai gerar na visão do espectador.

As artes não são concebidas como acções historicamente invariáveis do género humano, nem como arsenal de “bens culturais” que vivem uma existência sem tempo, mas como um processo que avança sem cessar, como um (work in progress) do qual toda a obra participa, porque pintar é fácil quando não se sabe… quando souberes deixa de o ser."


A exposição terá lugar no Instituto Politécnico de Viseu, onde também estarei presente sentindo-me uma privilegiada no meio dos "profissionais".


Obrigada a todos eles e ao trabalho activo do César.


EXPOSIÇÃO DE PINTURA EM VISEU DIA 1 DE JUNHO 2009

domingo, 10 de maio de 2009

TRISCAR CONSIGO MESMO

by: dv


I

Pergunto a mim mesma porque se dizem determinadas coisas?

Que necessidade haverá?

Sinceramente. Juro. Prometo. É verdade. Acredita. Sério. Sem dúvida.

Quantas palavras atiradas, lançadas para alguém sem direcção certa.

Desacerto de alvos. Setas atiradas para sítios incertos, por isso ferem.

Dói a dor ou o não fazer sentido?

Que sentido se dá ao que dói? Ao que magoa e rasga a alma?

Acresce…a alma expande-se por se libertar do que a rasgou.

Passa, transparente e sem dificuldade ao que se lhe opôs.

Ninguém consegue apagar a luz de uma alma.

A luz é imensa, intensa, inesgotável e invisível.

É suave e agreste na sua condição humana,

Mas nunca perde o sentido do caminho de volta.

Ela é que tem os significados que as palavras desconhecem.

Ela tem os segredos que por vezes desaparecem.

Ela tem o remédio para todos os males.

Ela tem o que muitas vezes não se sente,

Alma!


II

Para que se corre? Talvez para fugirmos de nós mesmos.

Tenho pressa em aprender, será porque não o quero fazer?

Ou por ter perdido tempo a não entender?

São, a cada momento, questões mentais,

Desacertos com o exterior em serena harmonia,

Mas que vai despoletar a vontade da conversa íntima.

De questionar o porquê de mim e dos outros

E o que os outros pensam e eu não

E se serei capaz para além do que penso.

É a guerra entre o pensamento que não controlo

E a vontade que tenho de o controlar.

Ele escapa-se, não há possibilidade de o acompanhar.

Já escrevi muitas vezes sobre isto.

Da minha incapacidade de acompanhar o meu pensamento.

Sinto-o.

Vejo interiormente o que diz e depois não permite que o exponha.

Diz não existirem palavras no meu dicionário, que eu sou uma aprendiza.

Aceito.

Por isso me esforço por aprender.

Porque não deixa então que eu o faça?

Porque não me ensina quando o diz?

Será para me pôr à prova?

É essa a forma como ensina?

Não me sinto escritora nem poeta, então porque tenho de escrever?

Porquê sem pensar sai a escrita certa que me soa a cântico.

Paro de pensar.

É esquisito como ele desencadeia esta amálgama de palavras

Que sem sentido revelam o verdadeiro sentido do que sinto.

Paro, olho-me e acho-me complicada. Rebuscada.

Mas não é isso que sou, nem o que quero ser. Quero apenas comunicar.

Mas como se comunica com palavras sem sentido?

Sem forma correcta, parece um castigo:

Escrever mil vezes a mesma frase para nunca mais esquecer o erro cometido.

Hoje sinto-me diferente. Sinto-me envolta em tintas e palavras. Nada condiz e tudo acelera nesse sentido. A chuva cai. Talvez lave a tinta!

Dina Ventura – Maio 2009


sexta-feira, 8 de maio de 2009

ERRAR É NÃO ASSUMIR O ERRO

Quieta e silenciosa tento escutar o pensamento mas ele nada me diz. Sinto-o parado, adormecido, Não sei o que pensar. Mau sinal para começo de dia, ou sinal para um dia diferente. Não sei. Agitou-se e apenas me deu um mote: Agostinho da Silva. Tento recordar muitas das suas palavras e elas misturam-se num emaranhado de sensações que me provocam um sentimento de incapacidade, pois só consigo reconstituir, duplicidade. Não suporto não relembrar o que diz. Sem vergonha ou medo recorro a “Vida Conversável”:

“ (…) E isso imediatamente me levou à ideia de que o português é um ser complexo, do qual, para sermos simples, podemos dizer que é pelo menos um ser duplo, aplicando a palavra, que em português tem má nota, duplicidade ao nível de muito bom. Podemos dizer que uma das virtudes do português é a duplicidade, que geralmente é apontada como um defeito em toda a gente, porque se relaciona com a palavra hipócrita. Coisa curiosa também, porque em grego hipócrita quer dizer apenas o actor. O actor que não era sinceramente ele, pois claro, que era um hipócrita. Assim um hipócrita é um actor, que é actor na vida e que tomou um sentido completamente diferente depois, quando a vida começou a ser alguma coisa, muito mais atenta ao ganho, muito mais atenta à conquista de um objectivo do que ao desenvolvimento da personalidade. Se esta se pudesse desenvolver livremente, nós teríamos o actor na sua plenitude como o foi, por exemplo, Fernando Pessoa. Podíamos dizer que Fernando Pessoa é o hipócrita por excelência. Não sendo ele na sua vida actor, porque se o fosse, teria tido bons empregos, teria talvez entrado na política, teria talvez sido ministro e não foi nada disso, porque não era hipócrita, ele era apenas actor para fora, para dentro nunca o foi, isto é, (…), ele nunca cometeu o pecado contra o Espírito Santo, nunca foi ele próprio actor, ele era as personagens, mas não o actor em si mesmo” Agostinho da Silva


Pois é e só recorrendo a um filósofo que muito admiro, consegui dizer o que me vai na alma. Abriu um pouco de mim e agora duma forma muito primária, recupero as forças com algo de meu, mas reduzindo-me à minha insignificância perante tanta sabedoria.

“…nunca pensei que as coisas fossem assim...”

Frase que bem olhada mais me faz pensar. Quando se parte para algo tem de se ter em consideração as várias hipóteses não descorando, bem pelo contrário, as que se nos apresentam como descabidas.

Quando tal acontece, há que repensar e tentar reparar até com o mesmo método, mas já adequado à situação.

Todos temos um pouco de derrotistas. Mas admiro muito, aqueles que conseguem provar, demonstrar uma maior força vencendo. É assim que vejo. Imaginemos. A praia.

Um pouco à frente está uma criança perfeitamente convencida ter escolhido o local ideal para a sua construção. Trabalha com desenvoltura na edificação do seu lindo e tão idealizado castelo, mas esqueceu um pormenor tão importante: a maré vai subir e de certeza a água vai lá chegar. Que pena. Decidi então, de mansinho e um pouco a medo, quebrar o encantamento e dizer-lhe o que pensava. Que das minhas passagens por aquela praia tinha notado que a água chegava ali e ao passar levava consigo tudo ou quase tudo...

Olhando-me com um misto de surpresa e compreensão, não me deixou terminar e disse apenas:

- Mas agora não está aqui!

Continuou no seu trabalho, mandando-me de vez em quando um olhar como que para dizer que apesar de tudo sabia que eu estava ali, mas não “sabia” sobre o seu campo.

Fiquei apenas a olhá-lo, afastando-me um pouco para não perturbar a concentração do menino e decidi não falar mais, continuando a pensar o que iria naquela cabeça.

Permaneci ali bem quieta. Sentei-me e apoiando o queixo nos joelhos, fiquei a olhar, tentando imaginar o aspecto arquitectónico daquele castelo. Era realmente enorme tendo em consideração toda a área demarcada para a sua construção. Como iria conseguir? Sozinho?

Não me restava senão aguardar, continuando com os meus pensamentos. Havia várias hipóteses:

1- Que por milagre a maré não subisse, o que iria contra tudo o que era hábito. Mas nunca se sabe e assim o menino teria todo o tempo para acabar;

2- Que chamasse outros meninos para o ajudarem a acabar antes da maré subir. Mas aí tínhamos vários problemas: será que os outros tinham a mesma visão? Será que corresponderiam ao que o menino desejava? Ou será que o achariam pretensioso na sua ambição talvez por não pensarem como ele?

3- Que não se importava que a maré subisse, mesmo derrubando o que já tinha feito. Faria apenas até dar e depois iria embora e não ligava mais àquele castelo, pensando construir outro, noutro dia, noutro local qualquer.

4- Que o menino choraria porque a água era má, tinha realmente destruído o seu castelo e que a culpa era minha porque tinha sido eu, a adulta, a lembrar à água que o fosse destruir.

5- Que perante a destruição do seu sonho, os seus sonhos vingariam porque apesar da água lhe ter destruído aquele castelo que se via, não conseguiria destruir a imagem desse mesmo castelo dentro da sua cabeça. Tinha pena que os outros meninos não o vissem mas, talvez o conseguisse reconstruir noutro sítio ou naquele mesmo, mas noutra altura.

Despertei das minhas conjecturas, faltando-me a quinta, com a água molhando-me os pés. Lá se foi o castelo. Olhei o menino e constatei que o estado em que estava não fazia parte das hipóteses que eu havia formulado. O menino estava triste, estava meio perdido, de braços caídos, olhando apenas para a água e para os restos do castelo.

Aproximei-me mas nem deu pela minha presença. Recuei. Não quis contrariar mais o menino. Fiquei preocupada com ele. Olhei-o e vi que me lançou um leve sorriso como que para me descansar. Entendi, talvez aquela revolta e desanimo se devessem ao facto de, apesar de saber o que se iria passar, o menino querer acreditar que daquela vez iria ser diferente.

À medida que me afastava martelava-me na cabeça a hipótese que mais se adaptaria à da reacção do menino.

5- Que perante a destruição do seu sonho, os seus sonhos vingariam porque apesar da água lhe ter destruído aquele castelo que se via, não conseguiria destruir a imagem desse mesmo castelo dentro da sua cabeça. Tinha pena que os outros meninos não o vissem mas, talvez o conseguisse reconstruir noutro sítio ou naquele mesmo, mas noutra altura.

Não resisti à tentação de ver o que iria fazer e voltei àquela praia no dia seguinte. Fiquei contente, porque nas minhas hipóteses nem tudo tinha falhado, lá estava o menino novamente. Desta vez pareceu-me, apesar de o ver na mesma direcção, que estava um pouco mais afastado da água.

A areia era um pouco mais seca dificultando a tarefa ao menino que a ultrapassava molhando a areia com a água, que ia buscar num vaivém constante. Aproximei-me. Olhou-me e vi aquela tristeza lá no fundo, mas já ultrapassada por um certo brilho no olhar e com ar sério e sábio disse-me:

- Sabes...não faz mal, vou voltar a fazer de novo e desta vez ainda é mais bonito, pensei que foi melhor assim - e continuou sempre a falar exemplificando-me o que estava a dizer.

Reflecti. Tinha sido válida a invasão da água. O menino recomeçou, ponderando, ainda com mais coragem, ideias renovadas e um pouco mais cuidadoso. Voltei sempre, tentando ganhar aos poucos a confiança do menino, esforçando-me para que me deixasse ser sua amiga.

“Nem tudo é o que parece”

Enquanto procuro respostas

No regresso ao meu hangar

Voo nas asas do vento

Sem as conseguir encontrar.

Correm velozes e matreiras

Confundindo-me a memória

Disfarçam-se de novas ligeiras

Fugindo do que será história.

Entram fugazes e deslizam

Brincando às escondidas comigo

Ora se esquecem ora me lembram

Apenas fixo o que consigo.

E neste vaivém desmedido

Tento desbravar a mente

Encontro sempre algo perdido

Esquecendo o que está na frente.

E assim brincam comigo

As respostas aos porquês

E a mais uma vez me obrigo

A começar tudo outra vez!

(in: nas asas do vento encontrei)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

DESACERTO

by dv

Numa investida sem rumo tudo é desconhecido.

Qualquer coisa que nada valha é avaliada pelo seu mais alto valor.

Controversas são as coisas que se nos apresentam simplificadas.

Algo se passa com o procedimento.

A resposta é algo esperado, para questões já postas.

Resoluções inacabadas por desgastes do Tempo.

Enquadramentos forçados na vontade já cansada.

Albergues da vontade, repletos e com filas de espera.

Anseios rasgados em tiras, procurando a cola específica.

Fitas que esvoaçam e se perdem no tempo.

Acertos.

Contabilidades efémeras sempre encaminhadas para o desconto.

Faltas sempre cada vez maiores, que nos conduzem ao vazio,

Fugaz talvez, mas cada vez mais frequente.

Em ritmo de compasso, atirando-nos para a espera involuntária

Do que não se deseja.

São engrenagens circulares, já calcinados pelo tempo.

Rompantes de Energia acumulada, libertando-se para...

(in: nas asas do vento encontrei)