quarta-feira, 30 de setembro de 2009

QUESTÕES DE UM SER - FORMA DO DISFORME

De grandeza desmarcada aponta o infinito.
Aprontada como horrível e monstruosa, porque indecifrável e desconhecida.
Não se sabe até onde vai o seu alcance.
Da configuração exterior, ostenta a disposição das partes…
Não passa de aparência, de contorno e do feitio de si mesma.
Pode ser, contudo, a forma graciosa no talhar das letras
Mostrando de maneira bela como tudo se manifesta.
O princípio substancial que anima a sua especificidade.
Molde que leva a alma a ser a forma do corpo vivo!

(Dina ventura - 30 de Setembro de 2009)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

MEU 2º LIVRO PUBLICADO



. SEBENTA SAGRADA
Nasceu, antes do primeiro estar terminado e foi publicado em Fevereiro de 2008:

Um dia Cília, em coma há dezassete anos, acorda, mas sem lembrança da sua vida anterior ao momento trágico. As suas memórias são agora as de outra mulher. Lucília, que morreu de acidente na mesma altura em que Cília acorda. Lucília faleceu triste, com muita mágoa e com a vida inacabada. Estas duas almas cruzam-se na vida e na morte e fazem cruzar as vidas das suas famílias, confusas com este acaso trágico e misterioso. Cília terá de encontrar os instantes perdidos da sua vida e Valéria, a narradora deste livro, será uma peça fundamental na descoberta da verdade. Com a sua profunda amizade por Cília e a preciosa ajuda de uma terceira pessoa que entrará nas suas vidas, acham as respostas para encontrar de novo o caminho certo.

A editora Caleidoscópio: Obra surpreendente e original retrata um acontecimento de transcendência espiritual sem respostas científicas. Repleta de energia positiva, ensina-nos a ter tolerâncias com o desconhecido, a encontrar respostas nos lugares menos prováveis e a desmistificá-los.

Não me julgava capaz de elaborar “um romance”. Mas insistiu em aparecer numa simples manhã ao acordar. Despertei com ele e não me largou mais até ser transposto para o papel. E assim foi, mais uma vez A CALEIDOSCÓPIO – Editora apostou em mim.
Para ser realmente sincera, não percebia porque uma editora conotada com arquitectura e toda a técnica que daí advém, estaria a apostar em alguém que não é nada na parte de literatura nem pretensões tem. Disseram-me que não podia pensar assim e que se a editora não acreditasse que não arriscaria! E pronto é esta a história, das minhas andanças na escrita! Fui-me convencendo aos poucos que “escrevia umas coisas” e isto é como tudo na vida: não se pode agradar a gregos e troianos, mas em primeiro lugar há que agradar a nós mesmos e respeitar os outros e é o que faço pois escrevo com o coração.
Mas isto tudo para agradecer, em primeiro lugar à editora e parece que estou a fazer publicidade, estou sim porque merece, se não o fizesse era ingratidão da minha parte e por outro lado faço-o porque apostou em mim mais uma vez. Até à data nunca tinha feito publicidade, anunciado de forma séria os meus livros, mas desta vez faço de forma clara. Porquê?
Porque sinceramente talvez incentive outros a fazê-lo e a que a CALEIDOSCÓPIO receba aplausos pelo que faz.
E porque mostrar os antigos??? Porque sem eles não teria chegado ao que em Outubro irá sair, mais precisamente no dia 28..

Dentro em breve o anunciarei.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

MEU 1º LIVRO PUBLICADO



. Nas asas do vento encontrei Orixá – Outubro de 2007
Os “criadores de algo, ao falarem do que elaboram têm sempre a tendência a dizer “o meu trabalho”, o meu livro, o meu quadro, a minha história. Sentem-se como os donos de”. Como não faço a excepção, tento reparar o meu erro dizendo: o nosso trabalho, o nosso livro, o nosso quadro, a nossa história, pois há aqui muito de outros para além de mim.
Contra capa: Este livro fala-nos dos Orixás – Energias da Natureza, das suas origens, características e da forma como as suas vivências nos ajudam a um maior conhecimento de nós mesmos e de um melhor relacionamento com os outros.
Mas é sobretudo a história de um percurso pessoal, facilitando a descoberta do Eu, para depois possibilitar a viagem de busca para a Essência.

Foi assim que foi apresentado este livro. Sentido é verdade, mas um pouco inseguro talvez, pois não tinha nascido para ser publicado. Estava a ser escrito há trinta anos e não sabia nem imaginava que fim teria, mas nunca pensou poder ser lido para além do círculo de amigos.
Foi aqui que entrou a responsável por tudo isto: A editora Caleidoscópio. Sem ela, sem a sua motivação eu nunca o teria feito. Porquê apostar em mim? Em algo que nem romance é, memórias pesadas, poesia desde a adolescência e história de deuses da mitologia? Mas a resposta que me deram foi clara:
- Mas faz algum sentido, tirar cópias e distribuir pelos amigos? Francamente!
Foi com esta pergunta e afirmação que me decidi. Porque não? Pelo menos os meus amigos vão ter algo meu “como um livro”. Sempre escrevi e nunca me “achei” escritora, nem sei porquê! Talvez porque nos recônditos da minha memória Escritor seja algo inalcançável para o comum dos mortais! É como pintor! Palavra imensa, intensa que apenas pensada me surge automaticamente: Dali, DaVinci, Picasso, Klimt e todos os que poderia enunciar, os grandes monstros sagrados. Pois é e que fazer?
Invejá-los? Não por certo não nutro em mim esse sentimento.
Imitá-los? Não porque não tenho o seu saber
Então só me resta ser, simplesmente eu. É com isso que me apresento. Não imito ninguém, nem quero, aos outros admiro pela beleza que me permitem vislumbrar. Grata CALEIDOSCÓPIO bem hajas e quem sabe muitas portas abrirás a muito mais gente. Que te ajudem a ajudar.

Próximo tema falará sobre o segundo livro publicado: Sebenta Sagrada.

POESIA PARA MUSICAR - FADO

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by: cb


Fado 1

Perseguir a minha alma

Enquanto a minha alma persigo
Ela abandonou-me para ir contigo!
Ouvi o teu chamado e corri
E no refugio da minha solidão
Nem ouvi o bater do coração.
Senti que me perdi para ti
Ouço a minha voz a implorar,
Não partas meu amor se eu ficar!
Respiro o ar que contigo levaste,
As lágrimas rolam sem permissão
Talvez para tentar limpar o coração.
Sinto na pele o cheiro que deixaste
E agora meu amor que partiste
Não quero saber mais do que existe.
Sinto que nunca mais te vou perder
Porque vou continuar a correr
E encontrar a alma que me levaste
Pois só me interessa reaver-te
Porque agora meu amor que partiste
Deixaste-me sem alma e sem querer
E a vida nada mais tem para Viver.


Fado 2

Deixa-me apenas não ser!

Choro e sofro sem e por querer
Porque sinto dentro de mim, o doer
Por não te ver e não estares ao meu lado.
Não sei o que dói mais, de tudo o que sinto
Se ouvir a tua voz a dizer, eu não minto
Mas não te quero mais, está acabado,
Ou fingir que estás ao meu lado sem te ter.
Não sei o que dói mais, do que este sofrer.
Olho para mim e sinto que não sou eu,
Há um esconder este amor profundo,
Infinito, sem retorno em qualquer mundo.
Sinto-me dentro de algo que já morreu.
Por ti, por nós, por nada que não tivemos,
Morri, sou um barco à toa, sem remos,
Sem rumo e nem se importa se é ruim.
Resta a dor de não ter escutado a razão,
Que gritava em surdina ao frágil coração
Não vás por aí, porque é o princípio do fim
Dum amor, que não passa dum eco sem regresso.
Por isso amor, amor da minha vida, eu te peço
Com a alma de quem ama e está a sofrer,
Não me deixes no mundo com este amor.
Eu já não sou nada e o que existe não tem valor
Por isso e por amor, deixa-me apenas não ser!

Dina Ventura 28 de Junho de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

VALE RECONHECIDO

Um vazio sereno invade-me.
Não quero regressar ao preenchimento usual.
Não há esforço! Apenas existe o estar.
Nada se move, no andamento do descanso.
Regresso a mim e sinto-me lá.
Embalo nas ondas do abandono.
Não ondulam, não enjoam, não provocam vertigem.
Sinto o deslizar profundo da vida,
O filão, o veio que sei existir mas não é visível no real.
Confunde-se comigo, encosta-se a mim
E vai em frente sem ir, sem pressa de ficar.
Anda apenas porque vai.
Solta as asas do alcance e aterra.
Nada passou, nada está e o tempo não existe por isso.
Não se expressa, não tem verbos, nem adjectivos, apenas ecos.
Tudo e nada se encontram, permanecem e falecem
No vale profundo que as ondas formaram,
Marcando a sua presença porque ausentes
Para que o eco se propague ao vale reconhecido.
Dina Ventura 25 de Agosto de 2009

NÃO SER

Percorro o deserto a passo largo e lento.
Enfrento o calor do que arrecadou
E sinto que queima, transfere e reclama.
Nada o detém, é interminável e avassalador.
Ergue-se directo ao Sol, reclamando o que é seu.
Depósitos camuflados de energia e chama
Dispersos por raios, sem dar conta do que perdeu.
O Sol repõe-se, sacode-se e refresca-se
Numa nuvem passageira!
Reergue-se e enfrenta-a com determinação.
São osmoses de poderes e de transferências visíveis.
Poderosas energias que a Natureza recicla a cada momento.
Nela se refazem e desfazem em realidades comuns.
Não as entendem, apenas se surpreendem e lhes dão nomes.
Quem sabe equinócios, auroras boreais ou relâmpagos.
Mas são eles que nos alimentam, que nos incutem
Toda uma sensação de vida devida, ao que não sabemos ser.
Porque nos transformamos em algo que não éramos,
Não seremos e apenas somos caminhos, para voltarmos a ser.
É a esperança de finalmente encontrar o que somos,
Não o reflexo do que parecemos ser ao viver o que não somos.
Dina Ventura 25 de Agosto de 2009

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

IMAGINAÇÃO



Reflexos - óleo by:dv


Paro o olhar e movimento a mente.
Recuo no tempo avançando a saudade.
Busco corajosamente os recantos da mente.
Surgem-me ideias não novas que vagueiam
Nos espaços, porventura desertos,
Que ansiosos aguardam pela imaginação fertilizada pelo novo.
Tenho a fórmula para a criação metafórica,
Apenas aguarda a aplicação.
Ingredientes:
Recorro ao fluir de imagens, ao acelerar do passo.
É um passo mental, crescente em vontade, para a liberdade.
Há o conceito, há a liberdade e há o possuir a Liberdade.
Mente livre. Pensamento realizado na imaginação.
Requerimentos audaciosos aguardando o deferimento.
Esperas.
(in nas asas do vento encontrei - Dina Ventura)

CONTRADIÇÕES


by: Augusto Pombo

Texto dedicado a um amigo FSF.

É uma ânsia.
É um viver de ansiedade e esperas.
São renúncias. São buscas vãs num frenesim doentio.
São brilhos, são reflexos, são sombras.
Angústias.
São alentos tentadores crentes na desmistificação.
São avanços e recuos. São cortes. São pequenos nadas.
São esperas.
Não sei definir que forças me regem.
São reacções em cadeia, que põem e dispõem sem aviso prévio.
Não há registos, há apenas lembranças.
Cansaços.
Na serenidade do cansaço repousa apenas a dor.
As esperanças não morrem, o que morre é a vontade de as ter.
Não resisto às contradições. São impulsos que me fazem pensar,
Dolorosamente sentir o pensamento já magoado,
Mas teimando em se magoar.
(in nas asas do vento - Dina Ventura)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

DIFERENTE



BV: DV


Algo de diferente sinto em mim.
É, talvez, a força de vontade para querer ser diferente.
Não ouso sequer dizer que o sou,
Apenas luto para o conseguir ser.
Qual a diferença entre mim e outros
Senão o ter consciência de que sou igual,
Mas que não deixo de acreditar que poderei ser diferente.
(in nas asas do vento - Dina Ventura)

sábado, 8 de agosto de 2009

O PODER DA MENTE


bv: BC


Do entendimento do espírito
Ao decifrar da Vida e do Eu.
Revelado na imaginação através do que se cria!
Transforma os medos em Força,
A força em transcendente
E o transcendente em real!
O real da essência e da alma...
Aproximando-nos do Divino...
O Poder da Mente!

Dina Ventura 8 de Agosto de 2009

Texto dedicado a um grande amigo a quem chamo merecidamente "O poeta das Telas", o grande pintor surrealista Bernardino Costa, bem hajas amigo por tanta beleza criares e partilhares connosco!

A VISÃO


bv: jp

Existem várias coisas, entre elas as que não existem, existindo.
São essas na verdade onde tudo recomeça.
São estradas calcetadas de cubos multifacetados,
Onde não se consegue andar. Mas anda-se, porque é uma estrada.
E acontece o inevitável, a paragem,
Com medo dos ferimentos provocados pelas quinas afiadas.
Mas é um parar fictício porque o andamento continua.
As arestas vão sendo limadas,
Limadas de mansinho pelo pensamento.
Mas é preciso andar, andar, andar até que tudo
Esteja colorido pelo pó das arestas.
Cubos imaginários,
Formas disformes dum mundo uniforme em cubo.
Cubos solitários pelas arestas vazias.
(in: nas asas do vento encontrei - Dina Ventura)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

EPISÓDIOS III

“…nunca pensei que as coisas fossem assim...”
Frase que bem olhada mais me faz pensar. Quando se parte para algo tem de se ter em consideração as várias hipóteses não descorando, bem pelo contrário, as que se nos apresentam como descabidas.
Quando tal acontece, há que repensar e tentar reparar até com o mesmo método, mas já adequado à situação.
Todos temos um pouco de derrotistas. Mas admiro muito, aqueles que conseguem provar, demonstrar uma maior força vencendo. É assim que vejo. Imaginemos. A praia.
Um pouco à frente está uma criança perfeitamente convencida ter escolhido o local ideal para a sua construção. Trabalha com desenvoltura na edificação do seu lindo e tão idealizado castelo, mas esqueceu um pormenor tão importante: a maré vai subir e de certeza a água vai lá chegar. Que pena. Decidi então, de mansinho e um pouco a medo, quebrar o encantamento e dizer-lhe o que pensava. Que das minhas passagens por aquela praia tinha notado que a água chegava ali e ao passar levava consigo tudo ou quase tudo...
Olhando-me com um misto de surpresa e compreensão, não me deixou terminar e disse apenas:
- Mas agora não está aqui!
Continuou no seu trabalho, mandando-me de vez em quando um olhar como que para dizer que apesar de tudo sabia que eu estava ali, mas não “sabia” sobre o seu campo.
Fiquei apenas a olhá-lo, afastando-me um pouco para não perturbar a concentração do menino e decidi não falar mais, continuando a pensar o que iria naquela cabeça.
Permaneci ali bem quieta. Sentei-me e apoiando o queixo nos joelhos, fiquei a olhar, tentando imaginar o aspecto arquitectónico daquele castelo. Era realmente enorme tendo em consideração toda a área demarcada para a sua construção. Como iria conseguir? Sozinho?
Não me restava senão aguardar, continuando com os meus pensamentos. Havia várias hipóteses:
1- Que por milagre a maré não subisse, o que iria contra tudo o que era hábito. Mas nunca se sabe e assim o menino teria todo o tempo para acabar;
2- Que chamasse outros meninos para o ajudarem a acabar antes da maré subir. Mas aí tínhamos vários problemas: será que os outros tinham a mesma visão? Será que corresponderiam ao que o menino desejava? Ou será que o achariam pretensioso na sua ambição talvez por não pensarem como ele?
3- Que não se importava que a maré subisse, mesmo derrubando o que já tinha feito. Faria apenas até dar e depois iria embora e não ligava mais àquele castelo, pensando construir outro, noutro dia, noutro local qualquer.
4- Que o menino choraria porque a água era má, tinha realmente destruído o seu castelo e que a culpa era minha porque tinha sido eu, a adulta, a lembrar à água que o fosse destruir.
5- Que perante a destruição do seu sonho, os seus sonhos vingariam porque apesar da água lhe ter destruído aquele castelo que se via, não conseguiria destruir a imagem desse mesmo castelo dentro da sua cabeça. Tinha pena que os outros meninos não o vissem mas, talvez o conseguisse reconstruir noutro sítio ou naquele mesmo, mas noutra altura.
Despertei das minhas conjecturas, faltando-me a quinta, com a água molhando-me os pés. Lá se foi o castelo. Olhei o menino e constatei que o estado em que estava não fazia parte das hipóteses que eu havia formulado. O menino estava triste, estava meio perdido, de braços caídos, olhando apenas para a água e para os restos do castelo.
Aproximei-me mas nem deu pela minha presença. Recuei. Não quis contrariar mais o menino. Fiquei preocupada com ele. Olhei-o e vi que me lançou um leve sorriso como que para me descansar. Entendi, talvez aquela revolta e desanimo se devessem ao facto de, apesar de saber o que se iria passar, o menino querer acreditar que daquela vez iria ser diferente.
À medida que me afastava martelava-me na cabeça a hipótese que mais se adaptaria à da reacção do menino.
5- Que perante a destruição do seu sonho, os seus sonhos vingariam porque apesar da água lhe ter destruído aquele castelo que se via, não conseguiria destruir a imagem desse mesmo castelo dentro da sua cabeça. Tinha pena que os outros meninos não o vissem mas, talvez o conseguisse reconstruir noutro sítio ou naquele mesmo, mas noutra altura.
Não resisti à tentação de ver o que iria fazer e voltei àquela praia no dia seguinte. Fiquei contente, porque nas minhas hipóteses nem tudo tinha falhado, lá estava o menino novamente. Desta vez pareceu-me, apesar de o ver na mesma direcção, que estava um pouco mais afastado da água.
A areia era um pouco mais seca dificultando a tarefa ao menino que a ultrapassava molhando a areia com a água, que ia buscar num vaivém constante. Aproximei-me. Olhou-me e vi aquela tristeza lá no fundo, mas já ultrapassada por um certo brilho no olhar e com ar sério e sábio disse-me:
- Sabes...não faz mal, vou voltar a fazer de novo e desta vez ainda é mais bonito, pensei que foi melhor assim - e continuou sempre a falar exemplificando-me o que estava a dizer.
Reflecti. Tinha sido válida a invasão da água. O menino recomeçou, ponderando, ainda com mais coragem, ideias renovadas e um pouco mais cuidadoso. Voltei sempre, tentando ganhar aos poucos a confiança do menino, esforçando-me para que me deixasse ser sua amiga.
(in: nas asas do vento encontrei orixá - Dina Ventura)

EPISÓDIOS II

Algo se estava a passar.
Era como se uma força centrípeta insistisse em empurrar-me para um ponto que se chamava passado. Não oferecia muita resistência, embora não percebesse qual o objectivo.
Algo se passou.
Dei por mim, num lugar que não me era totalmente estranho, mas que naquele momento me pareceu um pouco distante e onde me sentia deslocada. Não conseguia reagir.
Tudo se processava fora do meu alcance, do meu entendimento, surgindo-me apenas uma explicação lógica para tudo aquilo: estava possivelmente numa das alturas em que confundia real e imaginário.
Mas nenhuma das explicações me parecia correcta. Eliminada uma a uma, cheguei à conclusão que apenas estava a fazer o balanço de trinta e cinco anos, num local que não sabia definir de presente, passado ou futuro.
Em catadupa, perseguindo-se, atropelando-se, as questões surgiam dificultando ainda mais aquela árdua tarefa de retrocesso. Porquê nesta altura? Por onde começar?
Era como um puzzle de milhares de peças, completamente misturadas, que ansiavam que alguém, cheio de coragem e paciência as colocasse no lugar certo.
Que difícil tarefa mesmo para um profissional. As referências confundiam-se esbatidas no tempo esquecidas, pensando até serem obsoletas. Tinha de começar por algo. Tentei por ponto final na minha confusão e esquecer, por momentos, tudo aquilo.
Decidi descansar, deixar que as coisas acontecessem ao acaso.
Estava em casa há já algum tempo, tentando que alguma coisa diferente acontecesse, mas vendo que tudo se mantinha na mesma, resolvi-me pelo movimento exterior. Saí.
O meu cansaço enfastiou-se ainda mais. Tudo se mantinha igual. Nada, nem uma leve brisa de novidade! Tento recriar, através de escrita enrolada, o enrolo em que me encontrava. É desgastante sentir um não se sabe o quê, por mais que se tente explicar.
Invejo os momentos de um filme em que me sinto lá. É um espaço de tempo curto mas chego a pensar ou melhor, a sentir que é possível estar-se. Mas tudo não passa de ficção. A realidade do nosso verdadeiro filme é mais difícil, mas não impossível!
Porque não utilizar a imaginação, para atingir de forma mais real o filme que nos pertence e onde nos propomos desempenhar da melhor forma possível o nosso papel. Cabe-nos algum de certeza e por menor que seja, nunca será o de espectadores passivos do nosso próprio desempenho. Meros espectadores para melhor apreciarmos, até devemos ser, mas de uma forma activa. Passaríamos à fase do pensar sobre a nossa representação, o nosso desempenho. Aí teríamos de conseguir o desdobramento, o que não sendo fácil, seria no entanto a mostra de toda uma vida cheia de Vida e de papéis desempenhados de Verdade.
(in nas asas do vento encontrei orixá - Dina Ventura)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

EPISÓDIOS I


Lápis: by dv

Não sei ao certo quantos já foram feitos. O que realmente sei é que vou voltar a fazer não sendo provavelmente a última vez.
Já lhe chamei balanço, mas desta vez será ponto da situação.
Lendo ou relendo alguns autores, sinto vontade de o ser, não por mera vontade física e material, mas sim por necessidade interior.
Apesar de haver momentos em que não consigo reflexões profundas, tento pelo menos não deixar escapar a possibilidade de me questionar sobre a razão de tal letargia.
Já escrevi sobre tantas coisas. Foram postas em causa tantas outras, que chego a pensar que o stock de palavras se esgotou.
A produção é escassa para a procura a que me obrigo. Não me posso acomodar a essa ideia, seria uma forma muito fácil de nada fazer.
Mas tal como tudo na vida, é um pouco doloroso começar...recomeçar.
As coisas não são tão lineares como já o foram. Há uma certa dificuldade em transmitir o que pretendo, que vendo bem não sei ao certo o que será.
Ainda não consegui engrenar, não cheguei àquele ponto de paragem do olhar para o exterior. Rodar o olhar 180 graus e recomeçar a ver!
É tudo uma questão de concentração. É um pouco caricato, mas para o conseguir tenho de deixar de pensar e apenas começar a sentir o pensamento. Há um desdobramento, passando a ser uma mera leitora do meu pensamento.
Parafraseando-me “só sinto que não sinto, vontade de sentir o que sinto”.
Chego à conclusão que não será isso neste momento. Gostava de sentir, construir algo de novo, uma ideia inovadora.
Enquanto descanso a caneta entre os dedos o olhar parou!
Algo despertou a minha atenção. Mas como pode algo tão simples...o que importa é que aconteceu. E lá estou eu...onde?
Num campo, ou melhor, no campo assim me parece. Um pequeno carreiro, dividindo uma parcela de terreno. Dum lado, muito verde, refrescando o ar quente com aquele cheiro intenso que caracteriza o limoeiro, contrastando com o amarelo dos limões bem maduros. Do outro, apenas o restolho de algo que terá sido noutra estação, bem viçoso e fresco.
Nem a água que a caleira deixa escapar chegou para refrescar. Apenas alguns malmequeres selvagens conseguem sobreviver àquele calor intenso, provocando no restolho a sensação de miragem. Tudo se torna um pouco irreal.
Avanço um pouco, evitando pisar uma aparentemente frágil flor, sentindo sob os meus pés a dureza daqueles restos que mesmo assim, atapetam um pouco aquele solo ressequido.
É estranho. Dum lado aquele fresco intenso dos limoeiros salpicados de amarelo, do outro bem perto, um terreno tão agreste, tão desértico, tendo como único objectivo o receber em directo aqueles raios, que mais parecem fogo, na esperança de que uma nova sementeira o venha refrescar.
Mas algo me fez parar. De susto talvez não, mas de surpresa. Afinal aquele solo servia de abrigo para alguém.
Deliciosamente ali estavam. Uma família, deduzi, reluzentes nos seus casacos novos, jazendo os antigos a seu lado. Eram três. Duas enormes ladeando uma mais pequena de olhar vivo como que para a protegeram.
Mostravam um contentamento letárgico sob aquele sol escaldante. Encontrava-me a um passo delas. Um arrepio percorreu-me, imobilizando-me. Senti os olhos delas cravados em mim, seria possível? Talvez não. De repente, como que despertas de um sono profundo, lançaram-se para o lado oposto ao que me encontrava, até que as perdesse de vista.
Num sussurro como se falasse para alguém que estava bem perto de mim apenas consegui articular em forma de suspiro, permanecendo estática:
-São...eram...cobras de Verão...
E num gesto calmo sentei-me no restolho áspero e quente, para recuperar do susto!
(in: nas asas do vento encontrei orixá - Dina Ventura)

CIÊNCIA DE SER

Publicado em 29 de Abril de 2009.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

SORRISO INTERIOR

DUAS METADES
Óleo bv: Nanduxa

Há a contenção. Portanto algo guardado, intimo, não revelado!

Será? Independente de que tipo for, não deixa de o ser.

Basta-lhe ganhar, ou simplesmente retirar-se da luta

E esconder-se em sim mesmo, num acto de recato.

Timidez, alegria ou tristeza contidos no sentimento de auto desafio.

E na sua definição, se a tiver, contém muitas variantes:

Agradáveis, leves, irónicas ou desprezos, quem sabe inconstantes.

Não faz ruído, talvez nem o mundo nem se aperceba

Do ligeiro alterar de lábios, ou nem consiga decifrar

O que a íris não quer, mas é impossível e deixa passar.

Está dentro sim, mas transmite, repercute pois é um sinal,

Diz respeito à alma ou natureza moral.

A consciência íntima é um mar, que se encontra circundado

Por terras, ou circunscrito por continentes, mas

Ele é o próprio e faz, ou não, oposição a estrangeiros.

Se o sorriso interior projecta o sentir a perda, o reclamar

Ou mesmo o comover, vai ter de verter ou derramar as gotas de água

E quem sabe, chorar de alegria ou da dor do cicatrizar!

Será? Como a videira que ao ser podada deixa escapar a seiva

Por ter sido golpeada, ela chora ou sorri?

Ninguém sabe traduzir.

Depende do que se interpreta e o que cada alma sabe de si!

É uma questão de cultura interna, que tal como noutras,

O sorriso passa a choro declarado, através do cantar e dançar

Ao som duma viola. Quem sabe pedir, de forma ardilosa,

Escondendo o verdadeiro pedido.

Chorar misérias, ou pedir algo e por algo usar de lérias.

Será secretamente lastimar-se por uma facto irremediável?

Ou um sentido pranto, de dor e arrependimento

Bem dentro, bem fundo, reprimido e que sustém a acção.

Proibir-se, conter-se, será uma forma de morrer ou vencer.

Que o sorriso se manifeste, no e do interior, assim saberemos.

Dina Ventura 15 de Julho de 2009


terça-feira, 14 de julho de 2009

ENCANTO

by: Romanelly



Segredo que não é conhecido

Mas se revela no enlevo da alma.

Singelo, harmonioso e contido.

Cofre secreto donde nada se espera,

Desliza apenas no sonho, com calma

Suave. É a brisa que apenas embala

E sem razão reflecte as marés.

Vão e vem, hipnotizando as estrelas

Que caem na água e transformam,

O mar em céu e me fazem voar.

O céu não as perde, só as empresta

Para as águas opacas poderem brilhar!

Para que nas águas eu possa colhê-las

Dar-lhe vida e tas entregar.

Num simples olhar, nem tocar é preciso

Na luz o abraço, nas estrelas o sorriso.

Reflecte-se na água o sentir eterno

Da figura não humana do sentir

Retorna-se ao mais profundo do ser

À essência de nós, que nos faz abrir

Os caminhos do Universo e Viver

O encanto de mim, do mundo a meus pés,

No sol o abraço, nas estrelas o sorriso

Que sem razão reflecte as marés!

Dina Ventura 9 de Julho de 2009

quinta-feira, 9 de julho de 2009

REPETIÇÃO

É algo ambíguo e com bastante duplicidade.

É um acto ou efeito. Ao reiterar-se a mesma ideia pode ser cansativo.

Ao repetir a mesma palavra pode ser um erro.

Mas por outro lado, uma figura de retórica com intenção formada:

Repetir a mesma coisa, a mesma ideia, palavra ou acto

Dando mais energia e ênfase ao que se pretende, ou subentende.

E é nessa palavra que me apoio para receber uma lição particular…

Para completar as lições que tenho de aprender e saber,

Estudar e compreender para, se necessário, as repetir noutro circuito.

Também tal qual o espelho repete a imagem das coisas e reflecte.

Como o vale que repete, repercutindo o som à origem

Ou que promove o seu reaparecimento, no mesmo ou noutro lugar.

Será que se torna cansativo? Sim acho que muitas vezes o será!

Então que fazer?

Como não deixar que a fadiga se instale?

Que o espírito não se canse?

Tal como o sol fatiga a vista…há que descansar!

Para ganhar forças, criar espaços, fazer esquecer…

Para depois recomeçar…

7 de Julho de 2009

VANGLÓRIA DO SER - CALIBRE

Podem não existir obrigações a serem vividas e sim e apenas, ajudas e apoios para a transformação, ou simplesmente encontros presenteados pelo acaso. Talvez sejam oportunidades permitidas para vermos, o que está bem ou mal, ou então esconder de si mesmo o que acha que deve. A ele lhe cabe.
Não se deve entregar tudo ao destino e ao tempo. Nascemos das famílias que nascemos, porque é através delas e no seu seio que nos encontraremos e veremos quem somos, mesmo não tendo. Que enfrentaremos as nossas dificuldades e os degraus que teremos para subir. Difícil? Sim por vezes.
Mas quando percepcionado, as forças redobram-se.
Renovam-se e a cada degrau se renasce.
Aí encontramos companheiros de viagem, que descansam no desânimo da longa caminhada ou na esperança.
Retomamos encorajados por eles, ou encorajando-os.
Ou então nem os vemos, não nos apercebemos porque estão.
Mas sempre há a despedida no abraço de consolação ou solidão. Mas há.
Pois o nosso eu requer e exige a solidão para se encontrar.
Mesmo que isso nunca aconteça na totalidade, são regressos ao interior, chamados sinuosos, tortuosos e até enganadores.
Dizem-se perfeitos, enredam-nos na ilusão e fazem com que percamos a razão, a noção do somos, para que estamos e para onde vamos.
Reflectem-se em nós os brilhos ofuscantes, o que achamos nos ofuscam, sem pensarmos ou avaliarmos que somos nós os reflectores e refractários de tudo o que nos cerca.
Mas se sabes quem és ou finges saber ser, olha ao teu redor e nos outros te reconhecerás. Olha bem, com quem te enfureces e tenta compreender. Esse ser, só te pode enobrecer, pois faz saltar o que ainda terás e poderás trabalhar.
Nunca te vanglories do que achas ser, pois quando o fizeres deixas de ser.
O que É não se fala, não se enumera, nem nunca se altera. Apenas flui, deixa transparecer, é absorvido e emanado do Ser. Porque apenas É para ser.
Ninguém é mais ou menos. Mal de quem se acha acima ou abaixo e se esquece do seu lugar. Esse sim é importante, é mutante e faz nivelar.
Nada pode contra o nível a que cada um se propõe, mesmo que os desníveis se aproximem a cada instante. Pois é nesse tempo, nesse momento, que o nível do ser pode e deve melhorar.
Calibre? Sei lá! O que importa é que Seja, tenha dimensão e grandeza! Espécie e qualidade e não se refugie na inutilidade da vangloria do ser.
Dina Ventura 6 de Julho de 2009

À LUZ DAS VELAS

bv: dv

I____________________________________________

As vaidades das grandezas humanas são o que valem.

Não passam de meras fragilidades, coisas vãs e fúteis

Desejo de brilhar para atrair a atenção dos outros.

Presunção ridícula.

Que ganas! Desprezar as vaidades mundanas!

Ostentar os pergaminhos, a inanidade das ambições humanas!

Se tudo o que é inane se preenchesse, que aconteceria?

Que seria dos espaços da vaidade da grandeza humana?

Acabavam as fragilidades, as coisas vãs e fúteis?

Existiria o desprezo pelos mundos inúteis.

Mas será que mesmo assim acabaria o desejo de brilhar,

De atrair a admiração superficial dos outros,

Da presunção ridícula de qualquer forma atrair e querer atingir.

Cair na tentação e vanglória do orgulho mísero dos seus pergaminhos?

Ao olhar o seu oposto, a modéstia vê o néscio

E no seu pedantismo e petulância apenas lhe restará o fogo-fátuo.

Valerá a pena, apenas por momentos sentir a vanglória?

Sentir que se é rei dum reino que não existe

E apenas persistir em reinar? E foi devido à falta de electricidade

Que todas estas barbaridades me assaltaram a mente,

Porque comecei a conversar com a folha ao contrário.

Ou seja, sem paciência para nada fazer, depois de ela se ter ido.

Então resolvi escrever à luz da vela e foi o seu bruxulear

Que me transportou para as brumas dicionárias!

Porque terá sido? Porque as palavras menos usadas se escondem?

Se esquecem, ou nos enlouquecem por não as escrevermos?

Mas se não as conhecemos, como surgem do nada no meio da escuridão?

Do nada escrevo, do nada penso, do nada aparece algo

E de algo nasce a Luz, apesar de continuar apenas à luz da vela.


II______________________________________________________

A espera mantém-se, pelo que não é habitual.

Sem ela tudo pára…comigo deu-se o oposto.

O pensamento não estando tão ocupado ou centrado,

Foge-me para coisas que não conheço…

Palavras “caras” dizem alguns! Ela vai ao dicionário!

E não é que fui? Fui mesmo! Ver os significados para inane.

Porquê para esta e não outra? Pareceu-me conhecê-la,

Ou quem sabe reconhecê-la e confundi-la com “insane”!

E não sei porque não o é e tem de ser insano.

Mas porque o terei pensado?

Para alguns até poderá ter significados próximos.

Sim porque se esta última nos remete para a loucura,

Para a insensatez e demência, talvez acabe por conduzir

Ao esvaziamento do conteúdo dito normal e vá cair no inane.

Mas enfim acaba por ser uma árdua tarefa

Dissertar sobre insano, porque no sentido figurado, é isso mesmo:

Difícil, excessivo e portanto um trabalho insano quase inane,

Escrever à luz de uma vela bruxuleante.

Dina Ventura 6 de Julho de 2009