quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O SOL



Tela - O SOL - do pintor surrealista Bernardino Costa (B.C.)

Sem rosto, com as feições que lhe queiramos dar,
Tal como a verdade é o sol da inteligência
De génio lhe posso chamar.
Presenteia o dia com a noite
Onde sereno repousa no silêncio da música,
Nos acordes de sol de um violoncelo distante.
Inebria-nos de raios e abre-nos a alma,
Tal como nos cega quando olhado de frente.
Assim é o seu poder.
Principio vivificante de todos os seres.
Sonho perfeito, distância inalcançável,
Que apenas em sonhos se pode penetrar
Sem asas de cera, apenas com intenção maior.
Visível em universos. Rei de vários.
Mas para quantos apontam os raios equilibrados
Como fonte de vida.
Quero sentir em mim o calor do Sol,
Para que a alma transborde a energia absorvida
E espalhe a luz pela noite das estrelas.
Sóis distantes mas que não deixam de ser,
O Sol de outros mundos.

Dina Ventura 24 de Fevereiro 2004

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

AMOR NA SAUDADE

Enquanto espero nada sinto
A não ser a angústia da espera.
Existem sofrimentos por perdas.
Olhos inchados pelas lágrimas vertidas
Ou pela dor de achar que não se sente.
Ninguém acredita no óbvio.
Recusam aceitar o que é certo,
Mas nada podem fazer.
É a hora. Chegou a hora da despedida.
Chamam-lhe partida. Será que é?
Ou será um regresso,
Em hora não coincidente com quem fica?
Sensação de dor sem haver ferida.
Sensação de cura sem estar doente.
Ânsia no encontro sem estar marcado.
Refrescar a mente com o frio da ausência.
Perder o medo na maior ameaça.
Dormir acordado com medo de esquecer.
Aquecer a alma na fogueira apagada.

Dina Ventura 21 de Fevereiro 2010

CANTEIROS DA VIDA

Quando sinto a falta, Procuro.
Se não encontro, Recordo.
Se não tenho memórias, Sonho.
Se o sonho se perde, Fantasio.
Afago o meu ser, em mim
E atraso o relógio do encontro.
Reparo que parou, não anda.
Aceno ao tempo que me espera.
Não sabe quem sou e sim no que me vou tornando.
Sem pressa, caminho pelos canteiros da vida.
Colho as flores, reponho sementes,
Arranco pedaços de ervas ruins
Que crescem, ao acaso, para me fazerem notar
Que nem tudo é perfeito, mas tem de ser feito
Para que o equilíbrio se dê.

Dina Ventura – 21 de Fevereiro 2010

LABIRINTO

Neste espaço minúsculo percorro uma imensidão.
Ando na água até perder o pé
E nado até perder as forças.
Ando em terra e perco o Norte,
Volteando nos caminhos isolados.
Voo no espaço para alcançar o Sol,
Mas situo-me no que arde, para não me perder.
Saltito no fogo em busca de calor,
Da luz que me guiará através dos elementos.
É com eles que me embrenho na densidade
A que o labirinto me reduz.

Dina Ventura – 21 de Fevereiro 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

MOMENTO

Curto espaço de tempo seja de dor, desejo, desalento, tortura, paixão ou amor.
Tempo ou ocasião em que algo se faz ou acontece.
Então o que significa na realidade? O que o promove e incita?
Há que aproveitar sempre? Há que ocorrer sempre?
Depende da importância, da urgência ou do acaso ou do encaminhamento da força para tal?
Tanta interrogação para certos momentos, quando apenas relacionados com os eixos de balanço tendente ao equilíbrio.
Linguagem confusa, para o movimento de oscilação e de vaivém.
Tal como as forças aerodinâmicas que se exercem sobre o alvo.
Mas também do momento da força, em relação a um ponto, resultante da sua intensidade, da distância e da sua direcção.
Para muitos, é a crise final de que resulta a solução ou desfecho. Teve por consequência, um anterior acontecimento de outros momentos para conduzirem a ele.
O momento da força em relação a um ponto é chamado de Centro dos Momentos.
É um valor absoluto. Sendo o centro, quer dizer que muitos formam um, ou que os outros nada contam até ao centro! Mas sempre contam.
Mas momentos também significam, quem faz momice, trejeitos naturais ou estudados.
No fundo e de forma figurada, tudo poderá não passar de um disfarce e de uma hipocrisia.
Será que por isso, para o bem e para o mal, sempre se diz: Há que aproveitar o momento? Estará implícito o absoluto do qual nada se sabe e de onde resulta o frustrante vazio de e apenas, o preenchimento do momento? Não aumentará ainda mais o espaço esvaziado de conteúdo?
Então elevemos o momento ao seu estado de circunstância, de acaso e por acaso. Apenas isso. Só nos resta entender, que apesar da vida ser mais do que momentos, a cada momento, não a transformemos num momento apenas.

Dina Ventura 6 de Janeiro de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

PAIXÃO

É tecnicamente falando, uma emoção fixa, um hábito, que corresponde na ordem de sensibilidade, à ideia fixa na ordem da inteligência.
É, para filósofos de séculos passados, todas as doenças da alma, ou seja, os sentimentos.
É, nos dias de hoje, a inclinação levada a um certo grau de veemência.
Nasce de forma brusca ou progressiva e onde nos leva e a que velocidade?
Para os de certa inflexibilidade moral será sinónimo de alegria, tristeza, esperança e temor.
Para quem é defensor do “penso, logo existo” representa a admiração, amor, ódio, desejo, alegria ou tristeza.
Para outros, serão as tentações particularmente fortes dos desejos. Saber, sentir, dominar.
Mas alguma destas definições a descreve em pleno?
Existirão palavras que a consigam alcançar?
Ou será tão simples e inexplicável que não se consegue exteriorizar?
É entrega ao que se acredita.
É sonho revelado numa verdade escondida.
É resvalar suavemente pelo abismo perfumado.
É perder as forças, ressuscitando da morte.
É chorar as tristezas em sorrisos abertos.
É sorrir às tristezas que a alegria deixou.
É a dor de sentir.

Dina Ventura – 16 de Janeiro de 2010

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

LIBERTAÇÃO

Escrevendo tantas vezes, outras tantas cheguei à conclusão que era uma escrita sofrida e magoada. Era como se o deslizar da caneta fosse um rasgar da minha própria pele, com o intuito de amenizar um pouco o meu sofrimento interior. Quanto mais sofria, tanto mais me apetecia escrever. Como se fosse a única abertura por onde entrava um pouco de ar que mantinha a minha vida, já por um fio. O ar faltava, a cor vinha apenas como metáfora e sonhando abria-se uma clareira nessa escuridão interna. Tinha vergonha de mim, de não conseguir ser eu própria, porque como ouvia dizer, os poetas, os artistas é que escreviam ou demonstravam a sua arte através dos sentimentos mais profundos e de tristeza. Encarando-me de frente eu era uma fraude, uma mentira que fingia sentir o que sentia apenas para parecer o que não era. Mas afinal o que era eu? Porquê tanta revolta contra o que não sabia ou conhecia? Porquê tantas perguntas sem resposta? Cheguei à triste conclusão que eu era uma preguiçosa, sem vontade de executar e limitava-me a martirizar o pensamento, para justificar o nada fazer. Tomei a liberdade de me dizer o que tão prontamente conseguia explicar aos outros. Então se é tão fácil darmos conselhos, ajudarmos quem precisa, se conseguimos ser tão bondosos com os outros, correndo prontamente em seu auxilio e se muitas vezes nos auto elogiamos dizendo que o fazemos sem pedir nada em troca, então afinal que ser somos nós que nos maltratamos tanto ao longo da vida. Porquê? Que tal começarmos por olhar um dos mandamentos “ama o teu próximo como a ti mesmo” com verdade e revolucionarmos a nossa vida? Um a um revolucionaremos o Mundo! Comecemos por gostar de nós mesmos de forma despojada e serena.
Após reflexão deixei de sentir necessidade da angústia e da dor, que faziam com que a caneta ganhasse vida e entrasse em movimento. A medo, iniciando a escrita, receei o conteúdo do meu sentir.
Que o tom poético, com o deixar de ser sofrido, tivesse menos beleza. Que a expressão saísse menos densa, menos cheia ou talvez menos rebuscada de natural. Nada disso me está a acontecer, muito pelo contrário. Sinto a caneta bem livre, o olhar do meu pensamento com olhos mais claros e tão mais penetrantes na minha alma, agora não tanto em fuga de si mesma.
O cansaço dissipou-se. As procuras em constantes viagens circulatórias, iniciam uma marcha mais calma e plena de conhecimento do que desejam procurar. Escolha de caminhos que apesar de árduos são menos tortuosos.
A brisa, que me enche os pulmões, ajuda-me como que empurrando o meu corpo, que se torna mais leve à medida que avança.
Recuos, poucos..às vezes muitos, nunca deixam de existir. Encaro-os, não como retrocessos mas sim, como paragens para descansar em terrenos já conhecidos e que me deixam usufruir dum descanso tranquilo e sem temores.
Dina Ventura (in: nas asas do vento encontrei orixá)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

PASSAGEM DE ANO

Era este o título do poema que tinha acabado de escrever mas como que por magia desapareceu. Era 00:30 do dia 1 de Janeiro, ou seja há meia hora atrás. Como se costuma dizer é porque possivelmente não tinha de ser lido e muito menos publicado. Pois seja. Mas não sendo o que escrevi não vou deixar de dizer por outras palavras o que já tinha escrito. Nem que leve a primeira noite deste ano a tentar repor ideias já expostas, mas perdidas precisamente por ter escrito em directo no computador. Era assim que começava, isso ainda recordo:
Sem papel, sem caneta, sentada em frente a uma máquina faço o que não gosto, escrever para ela.
Escrevo directo os pensamentos que me assaltam e sofro os meus e os dos outros.
Penso nos que estão felizes nesta hora e ainda bem, portanto não vale a pena pensar.
Nos que tentam estar felizes e nem se apercebem que não estão e não sei se valerá a pena.
Assim penso sobretudo nos que estão sós e sós na multidão. Que sofrem a dor de não querer que a hora aconteça. Porque é naquela hora certa, na contagem decrescente que a dor aumenta. Nada do que tinha escrito anteriormente saiu pelas mesmas palavras, talvez estas estejam mais amenas, pois tal como os meus pensamentos se amenizaram com o tempo, assim a dor de quem sofre engana o sofredor com a miragem longínqua de que um dia será diferente.
Mas quem sente, sempre sentirá de forma sentida e mesmo que os sentidos de alguma forma mudem nunca deixarão de sentir. Podendo não ser o mesmo, não deixará de aparecer algo que provocará o mesmo sofrimento.
Escrevo directa a uma máquina mas hoje é assim. Não me apetece escrever poemas, pois a vida nem sempre é poesia ou prosa poética ou prosa sequer. Estou repetitiva, estou sem papel, sem caneta, sem tinta e nas tintas para o que devia ter em atenção para escrever correctamente. Não quero saber. Não me vesti de gala, não falo para que gostem, falo porque sinto que há algo de muito errado e que ninguém quer escutar.!
(Se existirem erros, paciência...na vida existem muitos!)
Dina Ventura - 1 de Janeiro de 2010

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

PAREDES FORRADAS

Forrada de papel, de cetim, de madeira ou pedra, mudou?
Mas ela continua lá. Muda a fachada mas o conteúdo é o mesmo.
Não será. Talvez por oculto, mais corroído se torna.
Jaz inerte, sem respirar e aparenta a cara que não tem.
Roça-se no disfarce airoso da beleza que não é sua e convence-se.
Ninguém ousará retirar-lhe os enfeites.
E assim recomposta, numa vaidade comprada, vive.
Cega, porque vê por olhos que não são os seus.
Surda, porque não é aos seus ouvidos que os sons se dirigem.
Muda, porque não se pode denunciar.
Ausente, mesmo presente, porque o que prevalece são as capas.
Se na fúria da liberdade, arranca o que a forra que vê?
Restos da tinta original. Mistura de caliça com cola.
Desenhos desbotados de um papel arrancado.
Resta a parede que tentando firmeza, aguarda.
Não se convencendo que não passa, mesmo sem o forro,
De mais e apenas, uma parede forrada.

Dina Ventura – 27 de Dezembro de 2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

DESRESPEITOS - INCONSCIÊNCIAS

Vou escrever porque estou a levar as coisas a sério. Significa a partir do momento em que se pensam, não podendo deixar de ter em conta as inúmeras vertentes que vou descrever, não eliminando a do não sério, pois ficará uma exposição mais completa.
Hipótese 1 – Não sério
.Falar por falar;
.Dizer que se sente, sem sentir;
.Ter muito tempo disponível e ter de se encontrar formas de o preencher;
.Aposta, não se podendo desistir para não denegrir a imagem;
.Fornecimento de dados para apenas preencher o curriculum vitae.
Concluo que nenhum de nós consegue ser tão pobre ao ponto de se limitar a tão pouco, portanto hipótese 1 excluída.
Hipótese 2 – Sério
Existem milhares de sérios e alguns não o sendo, não deixam de o ser também.
.Não capacidade de encontrar equilíbrio;
.Posse de bens com ambição de alcançar sempre mais, tirando disso proveito próprio;
.Insatisfação perante o tudo que se tem, não o descurando, mas tentando compensações;
.Necessidade de correr em campos alheios para activar os músculos um pouco perros;
.Necessidade de dar vazão ao espírito aventureiro que cada um de nós possui;
.Necessidade de reviver os gritos da adolescência nos impulsos naturais;
.Gosto pelo proibido e necessidade de o sentir, também fisicamente;
.Procura incessante do novo, como reabastecimento do velho já cansado;
.Carências, um pouco apagadas, que sem autorização resolvem emergir;
.Procura de emoções novas e fortes, como lufada de ar fresco na existência;
.Atracções, simplesmente, que não encontram estabilidade;
.Gosto pelo jogo, não se gostando de perder;
.Regras quebradas pelo facto de o serem;
.Almas sonhadoras em busca de lugares secretos;
.Encontros apenas pela necessidade de se darem;
.Correria um pouco louca em busca do ar que nos falta;
.Desejo de não pensar pelo tanto que se pensa;
.Confusão, sabendo-se sempre o que é;
.Ansiedade, sem sequer se ser dono da ânsia de querer;
.Causas não explicáveis à priori para efeitos super rápidos;
.Acontecimentos ao longo do tempo acontecendo, acabando por ser apenas uma narração;
.Super valorização de algo que apenas existe simplesmente;
.Necessidade de dar, por vezes não acontecendo no lugar e tempo certos;
.Necessidade de receber, o que por vezes não se aceita de quem nos quer oferecer;
.Contradições naturais no que dentro de nós existe;
.Necessidade de nunca se perder o espírito de conquista;
.Necessidade e vontade de estar onde não se pode ou com quem não se deve;
.Apenas vontades;
.Necessidade de algo ou de alguém que faz com que os dias se tornem muito difíceis;
.Gostar apenas.
Todas estas hipóteses são sérias a partir do momento em que existem, mas será assim tão simples? É, porque se não o fosse tudo se processaria de forma diferente. Portanto há que analisar cada uma destas hipóteses até se conseguir encontrar uma resposta. Para quê encontrá-la? Mais que não seja para conhecermos melhor a nós próprios e sabermos porque somos, o que somos, para que somos.
Tudo é sério. Assim sendo, tudo terá de ser tomado em consideração e após dissecação de todos os pontos a que conclusão se chega? Tudo poderá funcionar em perfeito equilíbrio? Temos capacidade para tal? Ou seremos como os sapatos? É preferível termos vários pares pois a sua duração será muito mais longa. Coitado do par único, como conseguirá combinar com tudo e tudo palmilhar? Não! Têm de existir vários pares, para quem tiver capacidade para tal! Temos? Então sejamos sapatos!
Estou furiosa porque não quero ser sapatos. Mas não o seremos realmente?
Data: Não interessa a localização no tempo, pois não deixo de acreditar que sempre existirá quem pense!
Dina Ventura in: nas asas do vento encontrei

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

PAI NATAL

Enquanto olhava o Tempo, surgiu sem ser esperado.
Olhou-me sorrindo mas não parou.
Lançou palavras cantadas que o meu coração escutou.
Nada te trago, pois não preciso provar-te que existo.
Aqui estou.
Olho-te a tristeza na alma, por quem prometeu e falhou.
Mas nada posso fazer.
Acompanho-te, não te esqueci, porque sem ti não existo.
Mas a caminhada prossegue. Tento encontrar quem não me vê.
Por esses te deixo a ti.
Sei que merecias um presente, mas nada tenho para te dar.
Foste tu que me deste e me fizeste acreditar.
Que vale a pena não desistir, sonhar e esperar.
Mesmo que a dor vagueie pelo espaço onde a vida irá de nascer
E a sapiência da espera faça acontecer.
Mas...voltarei, senão me esqueceres voltarei.
E com este som se afastou,
Deixando-me só em mim com a sensação de já não estar.
Dina Ventura - 25 de Dezembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ABRAÇO

É um sentimento que protege.
É uma vontade que nos impulsiona.
É a protecção contra os receios de perda.
É o calor que aquece o frio que nos petrifica.
É uma brisa que nos refresca do calor tórrido.
É uma lição que nos ensina o que é sentir.
É partilha na troca de forças e energias.
É a presença que embala na solidão.
É refúgio que ao fecharmos os olhos é só nosso.
É liberdade, porque enquanto se abraça o coração sorri.
É conforto que anula o desconforto sentido.
É ternura que circunda a alma.
É crença naquilo que nunca se perde.
É dar e receber, sem nada se dar, dando tudo.
É sentir que a vida se pode encontrar, no abraço trocado.

Dina Ventura 19 de Novembro de 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

IMERGENTE


by: Nuno Kabu

Nasceu. E quando nasce não pode morrer.
Aconteceu. E quando acontece não pode deixar de existir.
Onde quer que esteja, estará e não pode deixar de estar.
Trago comigo o que de mim é e me alimenta.
Está sempre comigo, mesmo que esteja ausente.
Incapaz de controlo, torna-se selvagem.
Segue solto, livre e sem sentimentos de culpa.
Obriga-se a refúgios para que não o atormentem.
Lança-se nos braços do sonho para poder viver.
Enfrenta os medos que não sabia existirem.
Segue sem rumo, sabendo o rumo certo.
Dorme na vigília, para não se perder no sonho.
Embala-se nos encontros, sem data marcada.
Movimenta-se parado, sabendo que está vivo e avança.
Imergente, tal como um raio, instalou-se para ficar.
Mártir de si honra-se de o ser.

Dina Ventura, 18 de Novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

LIBERDADE


Fotografia by: MLinus

Tudo tem forma, texto e contexto.
Se a liberdade tem nome, como consegue ser livre?
Se lutam por ela, se a perseguem e não lhe dão paz, como saboreia o nome.
Como tem o poder de fazer, deixar de fazer e de escolher?
Independência.
Pressupõe o estado oposto ao do cativeiro e da servidão.
Apoiada no cajado da franqueza, fraqueja, pela fraqueza das lutas.
Ajoelha na sinceridade, fala consigo mesma e o espírito pede asas.
Aí, o corpo abandona-se à vontade de nada ter que o aprisione.
Será a obtenção do poder de não ser tolhido, privado e castrado, no exercido das suas faculdade e direitos. Mas. Palavra dura que pode até nem ser palavra e sim (…).
Traidor da liberdade por um lado e anjo da consciência por outro.
Palavra dúbia que faz hesitar e tremer a liberdade. Apenas um mas.
Assim a Liberdade vê-se, não liberta entre leis.
Aí, mesmo que queira ser livre não pode, porque existem outras liberdades.
Se é definida como tendo poder de escolha e ausência de constrangimento, porque fica constrangida, quando escolhe ou não.
Se não é dominada pelo o medo, acaba por o acolher na sua propriedade.
Se exprime os seus pensamentos, sem acanhamento ou preconceitos, corre sérios riscos de ultrapassar as leis que a emparedam.
Pensa em si mesma, olha-se de frente e sente o que fazer:
Libertar a liberdade, da liberdade que não tem.
Dina Ventura - 11 de Novembro de 2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

TORRE DO SILÊNCIO


by: DV

Com a tua presença, Amigo, percorro sozinha a margem do rio.
Sigo com o olhar a corrente que se despenha, levantando cachão.
Enche-me a cara com a sua transpiração e mistura-se com as lágrimas.
O silêncio abstém o falar, impondo a ausência de ruído.
Apenas se ergue no ar, o murmúrio das águas que caiem em catadupa.
Carrego o sossego, o segredo ou omissão de uma explicação.
Enlevada nesse estado de paz, sou no entanto conduzida à inacção.
É-se reduzido ao silêncio após todos os argumentos se esvaírem.
A réplica morreu.
Por alguma razão, é o nome dado à torre onde os indígenas expõem os corpos dos seus mortos, para que sejam devorados pelos abutres. Aí, nada os fará gritar, nem de dor, nem de mágoa, pois ao silêncio se reduziram. Mas quem os colocou lá, será cruel? Não. Adoram o seu Deus numa pedra ou numa árvore, prestam culto ao Sol, ao fogo e são hospitaleiros, bondosos e inofensivos. Apenas tribais.
Não deixando de ser torre de carnificina de corpo já morto, alimentando aves, é a libertação do que resta e não presta, mas alimenta outros seres. Aguardam atentos por mortes que lhes restabeleçam as forças. No entanto, aberta na cúpula, por onde entram os abutres também em silêncio se libertam as almas. Passam a vida a alimentar-se da morte de outras vidas, que já repousaram noutros silêncios na margem de um rio, apreciando a beleza da Vida.
Dina Ventura 10 de Novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

REJEIÇÃO

Acto de atirar fora, tirar de si, expelir, tal como o mar rejeita na praia o cadáver.
É um vómito, que provoca o retirar do que está a mais, que estorva e é estorvo.
É desprezar, dizendo que sim para dizer não ao que outro oferece entrega e dá.
Tal como na Natureza, é a amplitude do deslocamento produzido por uma falha.
Cria um fosso imenso de profundidade incalculável, a não ser que se mergulhe nesse provável abismo, para se ter a noção.
Contudo pode tornar-se numa defesa, tal como quando do aparecimento de anticorpos que destroem o enxerto, após o transplante de um órgão. O corpo rejeita, mesmo aquilo que o poderia fazer viver. Mas não suporta o que não conhece e não é seu, não lhe reconhece valor suficiente para a cura. Será egoísmo da matéria, da máquina ou apenas o não querer prolongar a vida. Ficam sempre as dúvidas na validade e aceitação da rejeição.
Por outro lado, são muitas vezes os vencidos que rejeitam. Tal como no campo de batalha limitam-se a depor as armas e a lançá-las ao rio, para que a correntes fundas as levem ou depositem.
Demonstra oposição a algo, por não concordância, ou então por o ter em nenhuma ou pouca conta. Engole mas o estômago rejeita.
Então mantém afastado, como o próprio rejeito, que sendo uma arma de arremesso, ao ser lançado cai conforme a intenção do acerto. Não havendo intenção, pode acertar onde nunca pensou, mas humilhou quando embateu e alguém morreu sem esperar. Porque achou que as estrelas vistas, eram as de luz própria e afinal houve engano de visão. Eram apenas meteoritos incandescentes devido à velocidade de arremesso e, quando embateram, enegreceram e queimaram. À volta da cratera, o fogo do impacto que logo se apagou, deixou terra queimada, cinzas, sombras e silêncio.
Dina Ventura 7 de Novembro de 2009.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

DESPOJAR


Forografia - Universo - gentilmente cedida por: MLinus


Saio de mim quando me encontro contigo. Porque tem de ser.
O caminho não é visível, em corpo.
Na estrada da vida, ouvi o som dos teus passos na mente.
Voltei-me de repente e senti. Tudo mudou, tudo está diferente.
Não tem portas, nem medos, apenas campos abertos de beleza.
Neles me encontro e conto segredos. Contigo, senti em nós a Natureza.
Nada de opções. Nada interfere porque a liberdade não tem forma.
Dispo-me dos receios, transponho barreiras,
Encontro os meios de abrir fileiras.
Nascem emoções, nas fontes. Sentimentos sonhados são sentidos.
Nada resta, nada falta, nada se tem. Nadas.
Tudo chega, tudo sobra e tudo está ausente. Presente.
Não existe, porque o que existe não se sente.
Apenas se saboreia a vontade de ter, de saber, de sentir e ficar.
Resta a vontade louca de beber, de entregar o que já está fora de nós.
É o contra-senso do que é intenso, que o mundo grita e se incendeia.
Para que reflicta e se repita, sem nunca ter acontecido.
Nasce ao acaso, por obra e graça. Sem promessas ou ilusões,
Apenas transporta e transborda sensações.
Sustos sem medos, sonhos sem dormir.
Abrem-se portas e janelas sem se abrir.
Procura-se tudo no lugar certo, que não se sabe existir.
Salta-se entre nuvens, refugia-mo-nos em recantos fechados,
Abertos em espantos e fontes de prazer.
Refazem-se as forças no continuar, no sentir de sentidos refeitos.
Nos acasos perdidos, de mil essências, que se buscam e ofuscam o real.
Nada se parece, por ser igual. Perde o sentido no erguido ermo do Infinito.
Persigo a fonte, mato a sede e morro junto, por não beber.
É a loucura da loucura perfeita.
O transmutar da mente, na agonia escaldante.
É o encontro do Mundo, no mundo existente,
Que não existe, mas persiste em ser Único.

Dina Ventura 6 de Novembro de 2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

IDIOTICE

A escrita hoje está embargada por uma inspiração algo estranha que se por um lado me empurra para o fazer, por outro anula-me o pensamento assucatado. Mas vence a vontade, por ser maior que o desalento. Resolvi então escrever, ou melhor transcrever algo que alguém partilhou comigo e que ao entregar-me o escrito disse:
“Olha faz com “isto” o que quiseres, podes deitar fora, ler ou não, ou até dizer que é teu, para mim não existe, pois não passou de uma conversa meio idiota que tive com outra idiota maior ainda, a pensar numa idiotice qualquer, tanto que também podia chamar-se:
de outro planeta”.
Depois de ler, fiquei emocionada e resolvi publicar. O nome que lhe atribuo é exactamente o que a autora lhe deu. Pelo menos ficam a saber que é uma “ela”. É sim. Uma pessoa que conheço muito bem, que acho com uma alma repleta de símbolos indecifráveis pela grande maioria dos seres humanos, devido ao que representam no seu mundo idílico, afável, acolhedor, mas ao mesmo tempo misterioso, que quando nos aproximamos temos a sensação que se evapora.

“IDIOTICE
Resolvi escrever não sei se a mim, se de mim, se para fora de mim. Como não tenho nada de realmente a dizer, não existirá real para o escutar. Então sentada na cadeira dos sonhos e ilusões, coloquei defronte outra cadeira e chamei-lhe ouvinte.
Olhei para o Ouvinte e percebi que não só me ouviria, como não fugiria, enquanto eu não quisesse que fugisse. Iria entender tudo desde que eu soubesse o que dizia. Mesmo que não soubesse e o dissesse, ele entenderia da mesma forma. Estava ali prontinho a escutar tudo o que eu quisesse, pudesse e soubesse dizer. E assim fiz e comecei:
Sei coisas que uns acreditam outros não. Sinto outras que ninguém mais sente e vivo outras que mais ninguém pode viver. Amo um amor de Amor feito, mas que é feito sem ser. A ver se te explico. Todos falam de amor, mas o amor não se fala, sente-se. Dizem que o amor é eterno e não é, porque ele não tem tempo. Dizem que pode ser físico e também não é, porque ele não tem corpo. Dizem tanta coisa dele, que nem se sabe se é ele ou ela. Não sei se tem lugar ou morada! Dizem que é no coração, mas não é. O coração apenas o acusa ou delata, ou ele o usa para isso. Então onde viverá o amor? Acho que Vive sem viver, ele é apenas. Sendo, não vive e sim Vive. Porque tem de ser ele como as pessoas o querem? Ele pode ser outra coisa. Sabes, tipo os seres de outro planeta?! Acho que é esse o nome que se lhe deve dar, Outro Planeta. É lá que por certo vive, convive e se ama! Sim porque o amor se o é ama-se. Cá, chamar-lhe-iam narcisismo. Mas não é nada disso. É porque quando o amor encontra o que ama, torna-se nele, num único e isso faz com que se ame a si mesmo. Transforma-se numa linda flor, única, isolada, tal como o Narciso e no entanto de cor bela, revigorante e chamativa, denunciando a toda a gente o seu perfume colorido.
Dina 4 de Novembro de 2009

terça-feira, 3 de novembro de 2009

CENTELHAS DE VIDA

Saem em rajada. Disparadas pelas prisões invisíveis.
São balas que ferem o poderoso escudo da alma.
Ela aumenta-se, confronta-se e expande-se.
Espaço por entre os estilhaços de mil luzes e sonhos.
Sai e liberta-se.
Salta o muro e encontra-se. Sem barreiras Vê.
Pontos de luz que se olham, que se tocam, sem tocar, em fogo-fátuo.
De mil cores, explosões mil, que fazem desmaiar.
A Alma liberta almas, centelhas de vida
Que não sabiam existir.

Dina Ventura 2 de Novembro de 2009

SENSAÇÃO FLUTUANTE DO SER

Não descansando no regaço do descanso,
Reforço o que se chama de pacificante.
Age, agita e contorce-se em si mesmo.
Reserva-se, preserva-se e recua.
Retoma o balanço, sai de si e entra no espaço.
Vagueia, reduz-se, produz e reproduz-se.
Aumenta, querendo diminuir, o que é incontrolável.
Reforça-se nas forças da força que não tem.
Busca nelas a sensação de reconforto do ausente,
Que presente acompanha, desanca a mente e desnuda,
O que é sentido, nos sentidos de não sentir.
Assim vive a sensação de ter um dia a posse da razão,
Que rastreia a vida, a rasa para a forma de rara chave.
Plena e flutuante esvoaça por entre penhascos, bosques e rios.
Salva o que resta:
A liberdade de sentir, ouvir e possuir sem ter,
Por não precisar de obter o que já tem.
Apenas sensações flutuantes do Ser.

Dina 2 de Novembro de 2009