sexta-feira, 11 de junho de 2010

GOSTAR



Gosto.
De ter o gosto pelo gosto
De ter o gosto pelo riso
Gosto de gostar.
Gosto de ser simplesmente o que sou.
Gosto de procurar e de saber onde estou.
Gosto de encontrar.
Gosto de ter o que tenho
Que é o gosto pela procura do para Além.
Gosto de existir.
Gosto de pôr a questão se existo
Se serei como sou
Se saberei mesmo o que penso
E porque penso no que sou.
Gosto de pensar.
Gosto de me cansar a pensar.
Gosto do jogo da mente
Gosto de enrolar o pensamento
Gosto de gastar as palavras
Gosto de girar.
Gosto de repetir o que sinto
De sentir por dentro e por fora.
Gosto que uma ferida doa.
Gosto do prazer da cura.
Gosto de dar liberdade
Deixar fluir as palavras.
Correr pelas estradas, subir aos montes
Gosto de cantar.
Cantar canções de palavras
Palavras cantadas sem voz.
Gosto de canetas.
Gosto de tudo o que é louco
Perguntar o que louco quer dizer.
Sinto prazer quando sei e não se consegue explicar.
Gosto do fácil que é perceber
E que exista claridade
Para que se possa entender.
Gosto dos olhos.
Gosto de quem não tem olhos mas Vê.
Gosto de gostar de gostar
Porque simplesmente gosto
No simples acto de dar...

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei - Editora Caleidoscópio

RESPIRAR


Respiro.
Já alguém pensou, no que e como respira?
Pois se não, que o faça urgentemente.
Não faltando o que se chama de ar
Há possibilidade de pensar.
Penso.
Em que pensarei após respirar, perguntarão
Essas sábias cabeças, que por certo também o farão.
Como devem saber, penso que respirando posso pensar.
E vou fazê-lo.
Quero muito ar.
Quero imensidão.
Sinto:
Tão profundamente quão profundo é o meu pensamento.
Mas se ele só chega aos sítios mais longínquos dissolvido no ar,
Pensamento mais ar dão-me a sensibilidade.
Espaço.
Sinto-me flutuar.
Já imaginaram quanto pensamento e ar?
Sinto-me livre, com vontade de pensar,
Porque tenho o elemento primordial.
Mundo.
Tudo gira. Tudo é de tudo sem pertencer a.
Apenas estamos ligados pelo que me faz viver.
Ar.
Tenho-o não o posso perder de novo, há que respirar.
É isso.
É impossível perder o respirar, respirando.
Mas não.
Eu sei que é possível, por isso vou ter cuidado.
Não posso parar e tal como ele tenho de girar.
É a força do pensamento que me faz movimentar.
Penso.
Vivo.
Agarro-me à vida.
Respiro.

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei - Editora Caleidoscópio

quarta-feira, 9 de junho de 2010

BALANÇO


Contar os dias é dificultar a vida.
Importa é que se sinta o que o passar significa.
Não interessa o que fica para trás,
Conta é o que o hoje mostra, com o passar do tempo.
Onde quer que estejamos há que sentir.
Depois, há que enfrentar os rios de palavras
Enquanto o são de verdade. Ou seja:
Declarações da alma através da escrita
Transformando-nos em meros leitos.
Enciclopédias de sabedoria simples
Que o passar do tempo nos sussurra.
Zumbidos leves de Saberes
Que devido à fragilidade humana se perdem.
Esboços torturados duma hipotética beleza rara.
Máximas inacabadas, não por falta de tempo mas sim de conhecimento.
Borbulhar de riachos com aspiração a rios, sem se encontrarem no que são
Riachos.
Águas pouco claras que ao longo do tempo se vão coando.
Olhares despreocupados nas margens lixentas disfarçadas pela verdura.
Despertar incerto numa manhã cinzenta, na foz já cansada.
Encontro de águas para um nascer de algo.
Mares.
Remoinhos violentos num bater de ondas.
Incontrolável dimensão de profundidade desconhecida.
Lugares desejados, secretos, de conhecimento reduzido.
Navios procurados nas profundezas remotas
Oscilando em abismos de paradeiros inacessíveis.
Ventos.
Agitando as bandeiras do que existirá
Enquanto a procura se torna dolorosa porque é procura.
Caminhando em esforço contra a força do vento
Esperando alcançar o que deveras procura.
Noite.
Aparecendo, reporta ao que já passou,
Totalizante espera resultados palpáveis do que poderá ser.
Oculta, sem se esconder, passeia-se às claras.
Sai sem discussão, dando prazo sem dar e promete voltar.
Encontro.
Já de saída cruza-se com o Sol.
Olham-se de costas seguindo direcções opostas.
Idos deixam-nos à mercê do que são:
Tempo.
Esperas inúteis para os conhecer,
Encontros solenes de admiração e espanto.
Nada nos priva da sua companhia mesmo não estando connosco.
Trazem-nos o que são, pedindo em troca o que precisam:
Análise.
Porquê de existirem por si e sem nós.
Espaço.
Aberto sem no entanto nos ser permitido.
Seguem-se as vias da dedução e da lógica,
Encontram-se resultados questionando-os de dúvidas.
Incontroláveis procuras neste tempo que existe em nós.
Síntese.
Dia – Noite – Tempo

Dina Ventura

segunda-feira, 7 de junho de 2010

LÁGRIMAS DA ALMA


Não tenho vergonha de dizer.
Escrevo estas palavras com as lágrimas
A rolarem pelas faces
Porquê?
Nem eu sei ao certo,
Pois é um mar de emoções
De causas possíveis
E que fazem de mim
O mais frágil dos seres neste momento.
Não entendo porque as pessoas se maltratam,
(Ou melhor eu entendo, mas a minha alma não
e faz-me chorar)
Não enxergam o seu interior
Porque têm, para sobressaírem
Ou se desculparem, agredir os outros.
Não entendo porque se todos dizem
Defender o espírito e as palavras
Que embalam a alma
Porque depois nada disso fazem.
Porque não são sinceras,
Porque fogem de si mesmas
Para se apresentarem aos outros como perfeitas.
Não sou perfeita, sou muito imperfeita
Mas sei que não desejo mal a ninguém
Que não utilizo ninguém
Que não uso nenhum ser, par ame favorecer.
E que tento da melhor forma possível ajudar!
Será que nessa ajuda aos outros está alguma mentira?
Estará oculta, alguma intenção menos saudável?
Uma necessidade de através da ajuda dada, ser aplaudida.
Não sinto isso…não quero aplausos para a minha alma
Nem para a minha pessoa, que a possui,
Quero, que cada um se respeite, para poder respeitar os outros.
Existem dias de cansaço, hoje é um deles.
Estou cansada, de acreditar no inacreditável
E de no inacreditável me apoiar, para conseguir acreditar
Mas hoje, nada me apetece, a não ser chorar
Para limpar, talvez, o lixo onde tive de entrar
Para conseguir ver de perto o lixo que me rodeia.
Hoje, nada faz sentido se deixar de sentir
E ao Sentir choro, por mim e por todos.
Penso que as lágrimas que não me deixam ver as letras
Serão o que a minha alma estava a precisar
Para limpa e sozinha pode descansar.
Não sou heroína, não sou nada, nem ninguém
E neste momento estou cansada
Cansada, deste mundo que é uma luta,
Que não pára, porque o que o impede de melhorar
São as pessoas, que dizem que o querem mudar.
Estou farta de palavras, de tentativas de bem falar,
Mas sei que sem elas também não consigo explicar.
Por isso neste momento no meio delas só me resta chorar.

Dina Ventura 14h – Dia 7 de Junho de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

CRIANÇA


Óleo s/tela com aplicações - Crianças - Dina Ventura - 2010

“...as crianças são os seres mais incríveis porque não têm maldade, são puras...”
Gostava de vos mostrar algo
Que na altura não consegui desenvolver,
Não por não saber,
Mas por não ter sido a altura ideal
E que agora penso ser capaz.
Não lembro o que pensava quando era ainda menina.
Não lembro datas... apenas lembranças ténues...
Não me lembro de ter vivido pequena,
Daí a necessidade de manter sempre
Um pouco da criança que não fui.
Aos poucos vou lembrando,
Não de mim mas do que eu senti.
O que de mais nítido guardo na lembrança são cheiros...
Cheiros que nunca esqueço e que me agarram à infância.
Recordo o cheiro do pão quente, da lenha queimada,
Transformando-se aos poucos em cinza incandescente,
Levando ao rubro as pedras próximas daquele semicírculo.
O estalido de protesto de uma ramada ainda verde,
Para dizer às chamas que ainda não estava preparada.
O cheiro acre e adocicado da massa levedada,
Que aos poucos rasgava o aconchegante farelo.
Lá fora o vento forte levava até mim o cheiro da terra molhada!
E, lá longe, aquela barreira que me chamava...
Era um mundo de cheiro e vida onde sonhar era tão simples!
Apanhava um pouco daquela terra sedosa,
Apertava-a carinhosamente e deixava-a escorregar por entre os dedos.
O barro que sobrava nas pequenas mãos era tão moldável...
Uma bola, mais um retoque e o sonho começava.
Do nada um Mundo se formava.
Tudo à minha volta tinha vida e eu criava!
Não sentia o tempo passar.
Apenas gostava daquele lugar e pensava...
Que tudo podia ser de barro, que o seu cheiro era intenso e o sabor?
Como seria? A que sabia? Só teria de o provar!
Mas se eu gostava tanto daquele lugar. Existiriam outros e como seriam?
Era fácil imaginar.
Olhando ao longe, para além daquele monte,
Para mim o dorso de um cavalo a pastar, eu podia imaginar:
Cidades, casas, ruas...era tão fácil, bastava-me olhar
E lá estavam, debaixo daquele tapete de ervas verdes
Tantas coisas que apenas os meus olhos contemplavam.
O movimento era enorme.
Muita gente, embora parecida comigo, parecia não ver.
Seria que também me viam? Nunca cheguei a descobrir!
Após tanta observação o cansaço chegava
E para deixar de ver aquela gente bastava pestanejar!
E outro cheiro me atraía, o da água fresca que brotava daquela bica.
Era uma fonte, que sendo pública, só a mim pertencia.
Porquê? Ninguém lhe ligava, passava despercebida.
Mas para mim era muito importante.
Corria até ela, sentava-me na beirinha e brincava com a água.
Depois de joelhos e inclinando a cabeça
Deixava que me molhasse a cara acariciada.
Estremecia, pensando ouvir passos...mas não
Era uma pinha que caíra. Corria ao seu encontro
E lá ficava sem saber o que fazer. Que poderia fazer com ela?
Pegava-lhe, ficava muito quieta e lá continuava a sonhar!
Sentia a imensidão a rodear-me, eu era pequena mas sentia
Que algo me ligava a ela. Seria o que eu pensava?
Se eu pensasse muito, tanto quanto conseguisse ver
E depois cada um dos pensamentos desenvolver
Como sendo imensos,
Conseguiria aproximar-me mais do que me rodeava,
Ou seja, teria de desenvolver em profundidade
Cada pormenor das coisas e, só olhando para todas elas
Eu conseguiria aproximar-me do que me rodeava.
Era muito difícil e precisava de muito trabalho,
Porque ao mínimo descuido lá se escaparia um pormenor importante!
Pensava como seria um sábio, que para mim era quem tudo sabia.
Como é que eu seria capaz? Nunca seria...e chorava.
Mas pelo menos um bocadinho sábio eu podia tentar.
E lá começava.
Olhava para tudo o que me cercava,
Tentando entender o Porquê das coisas.
E o porquê de serem o que eram e não outras!
Ou será que seriam outras e não as que eu via?
E lá recomeçava tudo de novo,
Com o máximo de hipóteses que eu conseguia,
Até esgotar todas as probabilidades.
Sempre me encontrava numa encruzilhada,
Num ter a certeza sem certezas!
Quanto mais perto parecia estar dum resultado absoluto,
Mais depressa concluía que ainda tinha muito e muito a concluir,
Acabando sempre na Procura...

Dina Ventura (in: nas asas do vento encontrei

segunda-feira, 31 de maio de 2010

ENCANTAMENTO E POESIA


O encantamento é a acção
Que a filha do Sol exerce junto dos outros,
Para poder manter junto de si o que deseja.
Apesar do que Circe fez, que comove e faz pensar
Não tinha o direito, de por egoísmo, aos outros retirar.
Mas tudo é possível na poesia, tudo se pode alcançar.
Sem verso, sem rima, sem concreto ou abstracto,
Tudo se pode realizar.
Não existem barreiras,
Nem fronteiras, críticas ou bandeiras.
A nação é só uma!
Lá, ninguém pertence a nenhuma.
É o centro do universo, dento do Universo em centro.
Reflecte-se em si, fora de si,
Num encontro intimo que só a ela pertence!
Nem todos a entendem, mas todos se deleitam,
Tentam interpretar, copiar, redigir e reflectir.
Pensam que conseguem, mas o encantamento não deixa.
Existe nele a falsa dor, a dor do falso sentir,
No sentir o que é a Dor.
E aí se perdem os poetas, os realistas, os pensadores
E até doutores.
Ditam, reescrevem e fazem da poesia o que quiserem.
Mas ela é Ela, sem rodeios, anseios ou pretensões.
Está-se nas tintas, com as tintas do que pretende pintar.
Sim, porque poesia não é escrita, poesia não existe,
Ela apenas subsiste e persiste na imensidão do Ser.

Dina Ventura

ESPÍRITO DA CARNE


Óleo s/tela - O espiríto da carne - do pintor Bernardino Costa - 1ª fase

Dos músculos à parte mole do corpo,
Tal como a polpa de certos frutos
Assim é a natureza humana
No ponto de vista da sensibilidade.
Pois como diz o ditado “a carne é fraca”.
Que seria então dela sem o espírito?
Seria devorada
Como a de um animal ou fruto qualquer.
Para sobrevivência, gula ou simples prazer.
Que forma anímica lhe incute
Essa substância incorpórea?
Esse espírito?
Dá-lhe o alento vital. Alma.
Ente imaginário
Que se prova a si mesmo de forma irrefutável.
Transformando a carne que alberga,
Desenvolvendo-a,
Criando um espírito e ser superiores.
Corpúsculo, a quem é atribuída a faculdade
De levar a vida e o sentimento
Aos diversos pontos do organismo animal
Deixando de ser apenas carne
E transformando-o em espírito da carne.
Em uníssono os dois se ligam,
Os dois evoluem e Vivem em comunhão.
Compensam-se, apoiam-se
E satisfazem-se mutuamente.
O espírito apazigua o da carne,
Quando este apenas é visto
Como objectivo sem espírito.

Dina Ventura - 2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010

TRISTEZA



Cavalo morto em liberdade!
Floresta virgem queimada pelas chamas.
Abraços bem fortes na despedida.
Olhos que vêem o que vai no mundo.
Olhos cegos para o que existe!
Rios correndo em leitos secos.
Crianças sorrindo à esmola dada.
Velhos chorando os dias passados.
Mãe limpando as lágrimas pelo que perdeu.
Campos abertos cercados de arame.
Cidades abertas fechadas para o Mundo.
Casas brilhando sob o fogo das armas.
Riqueza pobre de um rico qualquer.
Trabalho esforçado dum preso à vida.
Morte natural sem esperança de Vida,
Vida morta duma forma natural.
Tristeza triste de não saber
O que é Tristeza!

Dina Ventura IN: NAS ASAS DO VENTO ENCONTREI

terça-feira, 25 de maio de 2010

AMOR PRIMATA


Óleo s/tela - Amor primata - do pintor Bernardino Costa - 1ª fase

Aponta para a noite
Dos tempos.
Para a transição
Das espécies,
Sentido em liberdade
E o bater do coração
Na busca.
Sentimento pelo qual
O corpo é levado,
Para o que lhe agrada
Fortemente e deseja.
A posse.
Gosto vivo e intenso.
Fenómeno que permite
Adornar de mil belezas
Todo um local deserto e gélido.
Entrega apenas.
Primeiras emoções da alma,
Sem controlo,
Que despertam
No sopro de uma aragem
E incendeiam
Os sentidos.

Dina Ventura - 2009

sábado, 22 de maio de 2010

O POLÍTICO


Óleo s/tela - O Político - do pintor Bernardino Costa (B.C.) - 1ª fase

Entre braços
Abraços e saberes
Percorre a grandes passos
O corredor dos prazeres.
Ocupa-se de negócios
Sendo civil e cortês
Não se permite a ócios
Por ser astuto e burguês.
E entre braços e abraços
Não se indispõe com alguém
Mas entre abraços e passos
Ninguém sabe para o que vem.
Apenas diz que prevê
E que gere o que não é seu
Discursa a verdade porque lê
A verdade do que aconteceu
E assim para o bem comum
Dá um golpe no País
Acaba com o pouco ou nenhum
Dizendo que nunca o quis.
Que por isso nem viveu
Porque queria trabalhar
E por isso enriqueceu
Não tendo nada para dar.
E entre farras e palestras
Viagens e esgotamentos
Segue leis que são mestras
E fica sem argumentos.
Nunca lhe poderão dar culpas
Daquilo que não conseguiu
Porque nem precisa desculpas
Porque ele nunca mentiu.
Apenas foi apanhado
Nas garras de tormento maior
E por ter confiado
Ficou sempre com o pior.
Mas para não cometer deslize
Sofre e fica transtornado
Porque o problema está na crise
E do que vem do passado.
E porque nada pode fazer
O melhor é aproveitar
Come o que pode comer
Enquanto ocupa o lugar!

Dina Ventura 21.Maio.2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

VENDEDOR DE ILUSÕES


Óleo - Vendedor de ilusões - do pintor Bernardino Costa - 1ª fase

Símbolo que engana os sentidos
Vendendo o que não acredita
Procura nos que estão perdidos
O que a vida lhe interdita

Da aparência faz o real
E satisfaz-se a si próprio
Torna a mentira banal
Para não se tornar impróprio

E da bandeja faz estandarte
Ao anunciar uma bebida
Que sem ela não faz parte
A felicidade na vida

De tristes passam a alegres
Sem se terem apercebido
Que não foram milagres
E sim por terem bebido

E quando a festa acaba
O sonho foi esquecido
Volta à mente a revolta
Por não se ter contido

E o vendedor de ilusões
É mais uma vez enganado
E sem dar justificações
Entrega-se ao que tem dado

E sem conseguir enxergar
Que o que vende não existe
Continua a apregoar
Ao que nem ele resiste.

E assim cheio de vontade
Tenta animar os corações
Para acreditarem na verdade
Do vendedor de ilusões.

Dina Ventura 20.Maio.2010

GRATIDÃO


Óleo e aplicações - Dina Ventura - A Gratidão
É a memória do coração
E o tesouro dos humildes.
Quem é agradecido
Aos que lhe fazem bem,
Mostra que também o será a Deus,
Que tanto bem lhe fez
E lhe devolverá essa gratidão
Se for verdadeira.
A gratidão
Para muitos seres humanos
Não passa de um desejo secreto
De receber mais favores.
Aos incapazes de gratidão
Nunca faltam pretextos
Para não a terem.

GRATIDÃO

Reconhecimento afectuoso
De um beneficio que se recebe
Testemunho verdadeiro e generoso
Que somente o coração percebe

E mesmo não sendo dito
Jamais se esquecerá
O que sempre ficará escrito
Na alma que a alcançará.

Nas estrelas fica gravado
O que o coração não esquece
É algo sentido e abençoado
Para alguém que o merece.

Dina Ventura – 19.Maio.2010

OUTROS MUNDOS


Óleo s/tela - Outros Mundos - Dina Ventura

O pensamento humano
Mais subtil e veloz que a luz
Sobe, voa e sobrevoa.
Eleva-se para além das nuvens
E no seu voo assombroso
Transcende as barreiras do Universo visível
Propaga-se para além do mundo
Contempla outros,
E expande-se na imensidão.

Dina Ventura

CISÃO


Óleo s/tela - Cisão - do pintor Bernardino Costa (B.C.) - 2ª fase

No núcleo deu-se a rotura
Quando foi bombardeado
E mesmo de grande espessura
Sentiu-se despedaçado

Mesmo assim não parou
A energia tornou-se imensa
Muniu-se de forças e dispersou
Sem se perder tornou-se densa

A desarmonia estava instalada
Quer por cisma ou talvez não
Não conseguindo ficar parada
Nem mesmo pela religião.

Quando as opiniões divergem
Por tanto pensar chamou
A melancolia que trás paragem
Do que no tempo ficou

E mesmo sem fundamento
Em devaneio se tornou
Como átomo em movimento
Consigo mesmo estoirou

E assim deu-se a cisão
Quebrando o que não queria
Partindo o coração
Num choro até ser dia

E quando o choro acabou
Reviu-se na explosão
E por si mesmo confirmou
Que não era a destruição.

Dina Ventura 19.Maio.2010

CUPIDO


Óleo - Cupido - do pintor Bernardino Costa (B.C.) - 1ª fase

Personificação do amor
Com o aspecto dum anjo
Tem atributos duma flor
E as aventuras do desejo

Filho de Vénus com asas
E sem elas o mesmo efeito
Aponta a seta sem rumo
Que se crava bem no peito

E sendo agente e encarnação
Coloca em quem lhe aprouver
Uma semente no coração
Que quando rompe pode doer

Mas sendo criança perpétua
Faz do pesado a leveza
E mesmo com sofrimento
Transforma o feio em beleza

Mas sem ligar ao que faz
Por ser criança e ingénua
Esquece de cultivar a paz
Para um momento de trégua.

E como se fosse a brincar
Lança a seta aos corações
Une a quem as vai lançar
Não olhando a razões.

Filho de Vénus com asas
Faz voar quem marcou
Abre as portas das casas
Onde o sol nunca entrou.

E não atendendo ao bom senso
Empurra com força os amados
Que mesmo em nevoeiro denso
Acabam por ser encontrados.

E expulsando as razões
Faz dos amantes crianças
Amarra-os pelos corações
Dando à vida esperanças.

Dina Ventura 18.Maio.2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

ENTRE MÁSCARAS


Tela - do pintor Bernardino Costa - Entre Máscaras

Sou o que sou
Naquilo que não sou.
Escondo de mim o ser
Depois de me esconder.
Mas indiferente à máscara
Provo, voltando a reaparecer
Que afinal nada esconde.
Da primeira faço outra
Que volta a fazer renascer
Mas nela não está o ser
Que deve não se esconder.
E mudando e moldando
Reforça a dor na face
Alimenta-se o sonho
Da razão de não ser
Querendo ser sem razão
Olhando para o que se olha
E tentando entender
Porque não passa a solidão.
E no caminho percorrido
Ainda não se encontrou
Não por ter morrido
Mas sim pelo que não se olhou.
E quando já meio cansado
Se olha por entre máscaras
Se repara que afinal
O material que as forma
Não passa do que é banal.
E se o arrependimento
Matasse, morta estava
A máscara da vida
Porque afinal o que restava
Era uma máscara ferida.

Dina Ventura 17 de Maio de 2010

domingo, 16 de maio de 2010

DILACERADO


Óleo s/tela . Dilacerado - do pintor Bernardino Costa (B.C.)- 1ª fase

Rasgado em mil pedaços
Despedaçado com violência
Cruza os seus disformes braços
Protegendo a inocência

Sofredor de mágoas intensas
E o que a visão lhe provocou
Apoiado nas dores e descrenças
Nem de os olhos tapados se salvou

E arrancado do coração
O Grito apelou ao céu
E a mancha na reputação
Era algo que não morreu

E abandonado à sua sorte
Difamou o que sentia
Preferindo a vida à morte
Mesmo em tamanha agonia.

Dina Ventura 16 de Maio 2010

SEM LEGENDA


Óleo s/ tela - Sem Legenda - do pintor Bernardino Costa (B.C.) - 1ª Fase

Nada a dizer
Quando o que se olha
Mesmo sem ver
Tudo representa.
Quando o assombro
Se apresenta
A voz falha
De tão trémula
O encanto morre atónito.
A revolta instala-se na crença.
A pergunta repete-se constante
Para tanto sofrimento
Porque não se morre à nascença
E aí ressurge a vontade
De gritar pelas conquistas
E acabar com os golpistas
E num momento inédito
Pousados os armamentos
E como símbolo da Vitória
O nascimento da glória
Da Paz restabelecida
Dando assim hipóteses
À tranquilidade nascida.
E sem alterar a legenda
Se parte duma contenda
Para recomeçar uma vida.
Sem legenda.

Dina Ventura - 16 Maio 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

OÁSIS


Óleo - Oásis - do pintor surrealista Bernardino Costa (B.C.)

Do nada nasce uma flor
Viçosa no que não é
Com ela todo o amor
Que faz renovar a fé

De rara beleza e esplendor
Rosário de orações sem fim
Transforma em sonho a dor
Fazendo acreditar por fim

Quando se encontra, trás calma
Refugio de amena sensação
Enche de paz e luz a alma
Dá força e acaricia o coração

E assim como uma miragem
Torna-se real no deserto
Trás ao desanimo coragem
E o perdido como certo

Das areias secas brota a bênção
Segredo da alma e da vida
Eleva-se ao céu em oração
Mesmo que sendo na despedida.

E no pouco tempo que existiu
Alcançou o glorioso tempo
No momento em que sucumbiu
Partiu serena sem um lamento.

Com a terra se misturou
Dando-lhe o segredo da vida
Numa luz se transformou
Nunca se sentindo perdida

Dina Ventura - 7.Maio.2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010