sábado, 29 de outubro de 2011

TEMPOS MODERNOS


Vestígios do paraíso - esmalte . Dina Ventura

Tela esmalte - Tempos Modernos - "O Caos" - Dina Ventura

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

NADA


Nenhuma coisa nascida
Que por se saber existir
Não se torna conhecida
E não consegue resistir.
Nada
Sendo coisa nenhuma
Um tudo é poucochinho
Sendo já coisa alguma
Pode inverter o caminho
Nada
Se tirar de lá é elevar
E deixa de ser abjecta
Passa a posição de invejar
Mesmo não sendo concreta
Nada
Não sendo de grande apreço
E sim de pouca importância
É mais do que mereço
Se viver na ignorância
Nada
O momento vira instante
Passa o tempo a nada de nada
Se não sei sou ignorante
Fico e vivo atormentada.
Nada
E quando passa a verbo
Passa a termo de incitação
Mesmo se não me apercebo
Incito e apelo à salvação
Nada
E em menos do que é
Rasa o pouco por um triz
E num rasgo de fé
Nado para ser feliz.

Dina Ventura - in "Cresci com a Poesia"

quinta-feira, 26 de maio de 2011

INJUSTIÇA


A injustiça cansou-se.
Decidiu então saber porque o era.
Olhou-se no espelho e reflectiu-se.
Olhou-se, remirou-se, encarou-se
E amaldiçoou a sua gémea.
A outra cujo nome herdou,
Mas que ao aumentarem-no,
Tudo se transformou.
Só porque lhe colocaram um prefixo
Tudo nela mudou.
E afinal,
Qual das duas nasceu primeiro?
E com que direitos não a deixaram escolher?
Era injusto!
E chorou.
Que lhe vale esse “in” afinal,
Se apenas lhe trouxe peso, dor e condenação?
Deu-lhe estatuto, mas o oposto ao da irmã.
A quem todos apelam, idolatram, veneram
Mas não respeitam.
A ela desprezam-na, odeiam-na, maldizem-na
Mas é com ela que mais se identificam,
Que usam e abusam
Maltratam e acusam,
Desculpando-se com ela.
Isso é muito injusto...
Pensou a injustiça.
Que mundo este!
A justiça deixa o “in”
E coloca-o na irmã gémea,
Lava as mãos como Pilatos e diz:
Tu!
Tu és a culpada!
Foi um prefixo que tudo mudou…
E novamente a injustiça chorou.
Por ter sempre consigo o “in!”
Que não a deixa viver em paz.
Para a justiça se mascarar e se proteger
A injustiça teve de nascer!

Dina Ventura - in: Cresci com a Poesia

domingo, 8 de maio de 2011

O GRITO DO POVO


São uma multidão
Vão desistindo
Até ser um.
Não é rico,
Nem culto,
Passa a vulto.
Isolado
Tenta fazer-se ouvir
E grita
Para que não o ouçam.
Mas quem sabe
Se em uníssono
Elevaria a sua voz
De súplica
A regozijo
De vitória.

Dina Ventura - Maio 2011 - "Only me"

terça-feira, 19 de abril de 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

FANTÁSTICO


Outro olhar… http://regatosdaconcentracao.blogspot.com
E logo ao lado do divertido está fantástico!
Não passando também de incógnito,
Ficam bem juntos!
Não sei porquê,
Mas lado a lado, dão-se compostura….
Acho que não,
Tira talvez a graça ao divertido, será?
Porque no fantástico está o criado
Pela tentativa,
Que pode tornar-se extravagante
Ou até absurdo
Porém com capricho de devaneio.
O fantástico nasce da inquietação
E da dissociação que choca a razão.
Podem figurar fantasmas
E sem dúvida ou com ela,
O que só tem cabimento na imaginação.
Será mesmo?
Por ser oposto ou quase do real
Deixa de o ser?
Mas o fantástico é distinto do maravilhoso,
Dos contos de fadas, dos romances,
Onde o encantamento e a magia são a regra!
Fantástico é o intruso,
Um invasor do mundo submetido à técnica.
Coloca lá, a sua fonte de imaginação,
De mistério, de horror até
Nas fissuras do pensamento cientifico!
Na vida através de várias vias
Encontramo-nos frente a frente
Com fenómenos que surgem do vulgar,
Por vezes até maléficos,
Mas que não passam de fantásticos,
No contexto da vida real!
E assim nasce da inquietação
E da dissociação indo embater na razão!
E estes seres fantasmagóricos,
Afinal existem na realidade
Ou somente na imaginação?
Quem sabe?
Talvez como na actualidade,
Não passem de pura e cientifica ficção,
Como forma de tentar prever,
Conhecer o futuro,
Por tanto o desconhecer e temer!

Dina Ventura - "Only me"

domingo, 3 de abril de 2011

HÁ CONVERSA

ESGARES


Por vezes as buscas
Tornam-se pesadas
Incontroláveis e incomensuráveis
No seu magoar.
Pode não fazer sentido
Não se encontrar explicação
Para o estado
Mas ele está lá
Existe, persiste
E deixa a alma sem espaço
Nem respiração.
Sente-se que passará
Que se encontrará uma saída
Mas enquanto ela não aparece
Não se consegue pensar
Dizer ou explicar.
Mas o mais estranho
É que nada se esquece
Tudo reaparece
Como uma aflição sem nome
Hora ou razão.
Instala-se, trava a garganta
Não deixa respirar fundo.
A ansiedade toma lugar
E não se arrepende de dilacerar
Estoirar com os espaços do pensamento
Que em estilhaços se tanta recompor
Num esgar de esperança restante
Pois recorre à indiferença
Para desbloquear
Seguir caminho
E voltar a pensar.
Esgares aproveitáveis
Que num esforço para pensar
Serão os responsáveis
Para que volte a respirar.

Dina Ventura – “Only me” - Abril 2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

EUTANÁSIA DEMOCRÁTICA


Tela de Bernardino Costa (B.C.) - Eutanásia democrática

Na origem
É o sono provocado
Quando o fim está iminente
Para evitar uma morte dolorosa.
Para além de uma teoria
Tudo é apressado para a cura
Quando já não há remédio
Quando nada vale a pena
E quando a pena está decretada!
Se os governados
Influenciassem os governantes,
Ela seria democracia.
Mas tudo rumou para outras paragens
Restando apenas o pensamento
Que quem governa ajudará.
Mas vendo que não passou de sonho
Acordam…
E para que a dor não aumente
Em si e no que acreditam,
Resta entregá-la a si mesma
E à sua triste sorte,
A eutanásia
Para provar que morrera de inicio.
A realidade da crença anoitece
Nada mais restará do que ver
Ser enterrada na cova profunda
De onde nunca conseguiu sair.

Dina Ventura – “Only me”

domingo, 20 de março de 2011

ENTRE O CÉU E A TERRA


Óleo - Entre o céu e a Terra - de Bernardino Costa (B.C.)
É nessa linha o encontro.
Será infinito e eterno
Ou apenas a distância
Entre mim e o horizonte.
Percorro-o, persigo-o,
Mas ele torna-se
Na minha sombra.
Sombra sem objecto,
Sem referência nem rota.
É espaço
Que não pode ser percorrido
Andando.
Só se atinge imaginando.
Recorre-se à escadaria pensada
E percorre-se sem esforço
A subida íngreme.
É a sensação de voo
Em terra
Sem asas e com elas
Que não batendo
Se sente a brisa fresca
E envolvente
Que nos ergue acima de nós
E onde nos esperamos
Sem dor e em Glória.

Dina Ventura - "Only me"

terça-feira, 8 de março de 2011

TRAÇOS DE MULHER


Óleo - Traços de Mulher - de Bernardino Costa (B.C.)

Contornos
Sem definição existem
Olha-se e está lá
Exposta
Crente e descrente
Persistem.
Encosta-se
Ao que representa
E está…
E lamenta
O que fazem de si.
Vai à luta, enfrenta
E grita, cresci.
Não é abordagem de tema
Não representa um esquema
E por isso vale a pena.
Não necessita representações
Nem falsas alusões
Quanto É.
Nada do que pensam
Poderá ser
Porque o que realmente importa
Nem sempre se vê.
Refaz-se, compõe-se
Ilumina-se e sobrepõe-se.
Não precisa ser lembrada
Porque nunca será esquecida
Quando a ponte é quebrada
Volta a ser reerguida.

Dina Ventura - "Only me"

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

CONJUGAÇÃO DOS VERBOS


Hoje não estou contrariada
Estou no amanhã se chegar
Porque a raça humana é a culpada
Se tudo isto acabar.
Não entendo o que pretendem
Porque não respeitam a Vida
Porque não pensam nem medem
Os gritos da Terra aflita.
Não há respeito pelos demais
Nem pela Mãe natureza
Não passam de irracionais
E perde-se toda a beleza.
Os verbos são conjugados
Sempre na primeira pessoa
Mas nunca analisados
Por causa nobre e boa.
O quero vai aumentando
Mas perdendo o rumo certo
Porque se vai transformando
Na posse do que é incerto.
O posso desmanda o respeito,
Desajusta e vai desequilibrar
Se o actuar não encontra jeito
Ou forma de reajustar.
O fugir adoptou a solução
Para descurar responsabilidade
O fingir não presta atenção
Para o desculpar ter facilidade
E nesta desenfreada conjugação
Dá-se o tempo nos tons da moda
Desnotificada de argumentação
Desculpe…
Deixe não incomoda!

Dina Ventura - "Only me"

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

CRIATURAS PRIVADAS DO POSSÍVEL


Criaturas privadas do possível.
Olhando de relance para a frase
Nada me diz,
Apesar de tudo conter.
Quando olhamos para algo
E não se consegue decifrar
Que fazer?
Desistir?
Ou simplesmente desmontar?
Ver peça a peça
Ao mais ínfimo pormenor
Para poder continuar?
Pois é o que vou fazer.
Ao pegar nas criaturas,
Transformo-as numa
E passa a significar
Cada um dos seres Criados.
Homem
Ser
Pessoa
Que no sentido figurado
Muito deve a outrem
E lhe é inteiramente dedicado.
Tenho orgulho em ser criatura e privar.
Pois privada
Também significa coisa íntima,
Privativa, só sua.
Assim privar com
Ou seja
Relacionar-se com o possível
Que simboliza o que pode ser
Que é praticável
O que pode acontecer.
Pode ser com empenho,
Esforço, diligência,
Esmero e inteligência.
“Deus criou o melhor dos mundos possíveis”
Esta máxima do filósofo Leibniz
Exprime tudo o que contem.
Que cada um, à imagem do criador
Promove o melhor mundo,
Dentro do que o seu entendimento
Concebe como possível.
E aí está:
Só possível quando se trata de uma criatura.
Pois quando passa a plural
Tudo se torna mais difícil
Porque cada uma delas
Realiza o melhor no seu mundo possível!
Mas como a cada um cabe o seu
Nem sempre o possível o é.
Tornam-se, quem sabe,
Personagens, actores da realidade,
Onde desempenham o papel que lhes cabe.
E de verdade, na irrealidade,
Assim desconectados
Privam-se do possível
E navegam no inconformismo existencial,
Das criaturas privadas do possível!

Dina Ventura - "Only me"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

EU EM MIM


Gosto muito de pensar
Ver onde o pensamento chega
Ir atrás dele e voar
E vê-lo desaparecer

Brinco às escondidas com ele
Enquanto o tento decifrar
E quando chego bem perto
Acabamos por nos encontrar

E assim de mãos dadas
O pensamento e Eu
Fazemos longa caminhada
Até onde o Sol se escondeu

Ai, sentamo-nos em silêncio
No recato da imensidão
E lemo-nos sem questionar
Porque o tempo se perdeu
Sabemos que se ausentou
Para que ficássemos a sós
Porque sabia deixar
O que restava de nós.

Dina Ventura - "Only me"

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ARCA DO INFERNO


Símbolo de cultura
Mesmo sem tampa
Remete-nos
Ao último recurso de salvação.
Passa a peito aberto
Muitas mentiras e dissimulações
Que poderão remeter ao Inferno.
Sempre de sentido dúbio
Pode guardar ou conduzir
Para águas turbulentas
De chamas castigadoras
Enquanto conduzem a vida
Por caminhos escusos
Transportando as almas
Para a escuridão do fogo
E do castigo.
Mais cedo ou mais tarde
Apresenta o que guarda
Ou aguarda
No fim do caminho.

Dina Ventura - "only me"

sábado, 29 de janeiro de 2011

12 MINUTOS


Senti o teu chamado
E sem pensar em nada mais
Saí.
Sabia o destino
A estrada a percorrer
Sabia que ia escrever
Só não sabia o quê.
No percurso senti o mundo
Na placa de bem-vindo
Na de protege a floresta
Enquanto corria na tua direcção.
Vi-te do lado esquerdo
Como um espelho reflector.
O vento trazia a tua voz
Enquanto nos meus olhos
Passavam imagens
De antigamente.
Mas eu estava no presente.
Vi-te
Quase se toquei
Estavas revolto, ansioso mas perfeito.
Não te estava a entender
E enquanto o tentava fazer
Esqueci o que tinha para dizer
Que tinha gravado
No caminho a percorrer.
Fechei os olhos e senti
O Sol na cara
O vento que me falava
A tua voz desfeita em espuma branca.
Recordei uma resposta escutada
Que escrever faz parte da minha vida
Mostrar a minha missão
Que não devia parar
Dizendo apenas que não.
Fecho os olhos novamente
Para tentar entender a mensagem
Mas encheram-se de lágrimas
Para trazer a coragem.
Não importa se entendem
O que está representado aqui
Mas foi o que consegui obter
Quando pensava em ti.
Vou publicar.

Dina Ventura – “Only me”

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

TEM DIAS...


Tem dias que a escrita
Não passa de vivacidade
Sinto dentro de mim o fluir
Das letras em actividade.
Não preocupa o tema
Nem se tem mensagem ou não
Porque se fosse um problema
Não saía do coração.
E com vigor de pedreiro
Construo a parede da casa
Onde o poema é obreiro
Mesmo sendo tábua rasa
É lindo vê-lo nascer
Do nada que existia
Começar a vê-lo crescer
Numa imensa melodia
Transporta-me a um jardim
Que a Primavera pintou
Com cheiro intenso a jasmim
Que todo o meu ser inundou
Tem dias em que é assim
Que voo para além do ser
E quando reparo em mim
Estou sentada a escrever!

Dina Ventura - "Only me"

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

INCAPACIDADE DE PERDER


Tento entender uma consequência
Onde por vezes as "razões ou causas"
Não existem.
Mas há uma muito subtil
Que ao ser humano é difícil entender
No mais profundo do seu ser,
Que por vezes o Amar ou o continuar a amar
Faz parte do perder...
Aí mantém o fogo-fátuo
Porque não foi,
Já não é
Talvez jamais venha a ser.
Assim é por não ser,
Não ter
Assim é o ser humano
Que não considera perder.
Há que repensar então,
O Querer!!!

Dina Ventura - "only me"

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

LUAR


Quando a Lua invadiu o meu jardim
Todo o meu ser despertou
Para os perigos
Escondidos
E as belezas mostradas.
Sentei-me junto ao lago
Toquei na Lua ao de leve
E ela estremeceu.
Quando lhe perguntei o que fazia ali
Boiando no lago
Respondeu que nem ela sabia
Pois tinha sido puxada por ele.
Olhou-me em reflexo e disse
Que nada parece o que é
Que as coisas são
O que ninguém imagina
Que a Verdade está submersa
E que dificilmente é visível
Apesar dos seres acharem o contrário
Não concordo! – gritei
Não? – Questionou com ar que achei enganador
Então porque estás a falar comigo?
Nada respondi…
Achei que estava certa
Pois a bela imagem que ali estava
Não era verdadeira,
Era porque eu queria.
Toquei em mim
Observei-me nas águas à luz do luar
E pensei que os mistérios
Os encantos
Se confundem com os enganos
Que a mente indisposta
Vê a indisposição
E no seu bem-estar
Vê o que lhe dá satisfação.
E assim sendo
Tudo o que parece
Acaba por não ser
Quando a noite
Amanhece.

Dina Ventura - in: Cresci com a Poesia