sexta-feira, 24 de julho de 2015


Da ação ao efeito de ver,
Resta a imagem que se julga Ver.
Pode passar da realidade visível,
Aos devaneios, quimeras e fantasias
Ao que as janelas do corpo nos permitem.
Sensação particular que nos revela a presença,
Através da forma e cor
A luz que promove e a lente natural apresenta.
A íris reage, o cristalino modifica e acomoda-se.
Mas se algo não funciona essa imagem deturpa-se.
A nossa essência ligada a outra maior,
Vê a ideia das coisas.
Se não estiver claro e transparente,
Deformará as ideias percecionadas.
Bem representada pelo animal que vive no deserto,
Que percorre caminhos insondáveis
Em busca de alimento.
E por recear, não receia,
Pois adivinha os perigos à distância,
Apoiado e confiante na sua Visão.

 Dina Ventura

terça-feira, 21 de julho de 2015



Quando não se consegue pensar
E o raciocínio desconta em si mesmo
Rasuram-se as paredes erguidas
Nas defesas que escondem os reparos.
Lá, se escondem os cadáveres
Emparedados entre medos

Sem ansiarem à libertação.

Dina Ventura - Julho 2015

segunda-feira, 20 de julho de 2015



Nos sentidos perdidos do sentir
Desnivelam-se os temores
Vacilam as penas e as dores
Nas paralizantes agonias.
Enveredam por caminhos não queridos
Atravessam as barreiras do esperado
E embrenham-se na floresta sombria

Em busca das sombras perdidas.

Dina Ventura - Julho 2015

domingo, 19 de julho de 2015

                                                              óleo de Dina Ventura

Sintonias

Confesso que é evidente
Que nasce, cresce e floresce
E nunca se ausenta.
E mesmo sem saber o que representa
Se tem forma e transparece
É algo que nos aquece
E molda a alma em cor
Fica estática na espera
Reage ao menor calor.
Da palavra que a descreve
E se trancreve como amor
Tenta analisar e não consegue
Porque a razão adormeceu
Deixando que a alma se solte
Pois sabe que o infinito é seu.
Assim, gosta de sonhar acordada
Dormir ao som dos embalos
Dos sons do próprio silêncio.
Recomeça do nada
Sente o vazio do vazio
Escaparam-se as palavras bonitas
Porque não fariam sentido.
E no meio desse mistério
Declara a brisa sagrada
Que se tornou num templo
Por se sentir tão amada.
Os medos cairam por terra
A terra enterrou a matéria
A matéria não se entregou
E só o amor restou.
E na dança de uma alma apenas
Se torna o pequeno em imenso
Ficando a saudade em silêncio
Para ouvir o som do intenso.


Dina Ventura – “only me”

TRANSLÚCIDO
óleo Dina Ventura


Foi-me colocada uma questão:
Conseguimos entrar em contacto/conexão com Entidades máximas de Luz?
Pensando nessa pergunta, deambulei por recantos da mente e encontrei as respostas de sempre: 
- quantas vezes já me questionei sobre o tema..
- quantas vezes coloquei em causa...
- quantas vezes acreditei...
e se isso é possivel... por mais estranho que possa parecer, podem existir várias respostas para a mesma questão. Porquê? Porque depende muito de quem as proferir, da verdade de cada um, da filosofia, do convencimento ou auto-convencimento, da egolite... enfim de tantas condicionantes que, para apenas uma resposta, daria um “workshop” digno e de certeza muito interessante e de aprendizagens mútuas.
Mas agora livre das várias hipóteses que sempre gosto de colocar e adoptar, posso com clareza afirmar que há uma forma de contacto sim e que está em todos nós, chama-se: Pensamento.
O Pensamento é a forma mais sublime de contacto. Ele não tem barreiras, limites, universos, galáxias, Ele é apenas a Forma, a Execução e a Organização Cósmica. O que nos cabe é trabalhar intensamente, para que as condições necessárias e suficientes existam, para que qualquer tipo de influência nefasta não interfira e desvie a rota do Pensamento. Caso isso se consiga, o que é por si só um trabalho hercúleo para o comum dos mortais, a conexão é audível. Mas tudo isso é muito melindroso, tal como se poderá entender o quão dificil é conseguir detectar a menor interferência. Por isso cabe ao ser humano o bom senso, para que nunca se considere acima de nada e muito menos acima dos outros. Esta é uma das respostas possíveis, e minha, mas como se poderá depreender, nunca chegará para responder, devido à complexidade e simplicidade do tema. Um abraço. E a quem ler, por favor não concorde apenas por concordar, pois isso é um dos erros gritantes desta Era, gostar porque é bonito gostar, concordar porque é ou será agradável à pessoa, ou pior ainda porque é “bem” ou “fica bem” este assunto ou outro do género, pintura, poesia... ou outros que não sejam criados apenas para serem “mostrados” e sim e apenas porque se sente de alma... por favor... pensem que a era do parecer tem de ter um fim.
Dina Ventura - 2015

terça-feira, 31 de dezembro de 2013



O SOM DO VENTO        

Nesta madrugada de sons inócuos
Resta o silêncio dos ecos
Que teimam em não deixar
O repouso chegar
Alberga-se em mim o som do vento
Que me embala e responde
Àquilo que nem perguntei.


Dina MVentura - 2013

O ENREDO DA DISCÓRDIA

Algo me mexe
E faz remexer
Algo me desperta
E me faz adormecer.
Depois de um longo dia
De cansaço, luta e dor
Quero
Preciso fechar os olhos
Descansar, dormir e sonhar
Mas
O enredo da discórdia
Entre sono e insónia
Não me deixa em paz
Decido ler Florbela Espanca.


Dina MVentura - 2013




quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

AMOR TRANSCENDENTE
Estado de graça
sim
amo
amo a tua alma
o que me passas
o que partilhas
a verdade com que partilhamos
amo de verdade
isso é a nossa verdade
amo
amo alem do físico
não tenho ciume
não tenho sensação de posse
amo simplesmente
partilhamos a arte
o pensamento
a nossa verdade profunda
acho de verdade
que isso é que é amor como o vejo
que sempre defendi e nunca tive.
porque no outro existem
receios
desconfianças
posses
desencontros de interesses
mentes desencontradas
e entre nós isso não existe.
se vens aqui vens
se não vens não vens
é a liberdade
e adoro conversar contigo
trocar pontos de vista
e não te desejo fisicamente
nem me pertences
logo isto é amor
o Amor Transcendente.

Dina Ventura - Janeiro - 2013

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

ÊXODO - de Dina Ventura
Esmalte s/ tela - Julho 2012



O BALOIÇO DA MADA - BY Dina Ventura - Julho 2012
óleo - (pintura de olhos vendados

quinta-feira, 17 de maio de 2012

ALEGORIA

Alegoria del sol - Salvador Dali


Caverna onde se esconde algo sagrado,
Tamanha é a sua impotãncia e significado.
Da parábola, nasce a imagem
Que apresentada ao espirito
Lhe transmite a ideia de outra.
Sem medo de errar
O espirito lança-se em busca
E começa a voar.
Nada mais simples para exemplificar
Do que aos poetas
Colocarem uma venda no amor,
Sem terem de o cegar.
Na abstração se retrata,
Se orgulha de ser quem é,
Podendo ser outra coisa qualquer.
E lá está a balança e o gládio
Imponentes para que a Justiça se cumpra.
A preguiça, inveja, tristeza ou alegria
Passam de seres morais,
A personificações na poesia
E é na gente que se tornam vida.
A arte mata a sua sede na alegoria
As visões são o celeiro
A arte a fonte limpida
Exprime-se, revela-se e desvenda-se
Tal como a alma se alimenta
Para evoluir
Bebendo nas alegorias da vida
E do sentir
Dina Ventura – Maio 2012 

terça-feira, 17 de abril de 2012

PARALIZAÇÕES


Após grandes percursos
Densos em pulular
Estancaram em cadeia
Escaparam as soluções
Do choro e da barreira
Pelo que ainda faltava
Para ultrapassar a fronteira.
Não era chegada a hora
De dar o salto mortal
Estancaram
Para ganharem fôlego
Darem atenção ao sinal
Que as chamaria de volta
Sem qualquer imposição
Dando tempo a si próprias
Para maior reflexão.
Sem encontros nem promessas
As palavras socaram o medo
Sem recearem o desprezo
Ou mesmo a paralisação
Encostaram-se a si próprias
Num ato de reflexão.
Arranjaram homónimos e sinónimos
E tentaram analisar de perto
O que representavam os antónimos.
E assim para o complemento
Mais direto ou indireto
Há sempre uma proposição
De se escutar o chamamento
Formando uma multidão.
De vidas múltiplas são o contrário
Entre o mundo e a prisão
Onde se encontram encerradas
Morrendo entre o sim e o não.

Dina Ventura – “Only me”

segunda-feira, 19 de março de 2012

CUMPLICIDADE


Quieta e silenciosa
Tento escutar o pensamento
Mas ele nada me diz.
Sinto-o parado, adormecido,
Não sei o que pensar.
Mau sinal para começo de dia,
Ou sinal para um dia diferente.
Não sei.
Agitou-se e apenas me deu um mote:
Agostinho da Silva.
Tento recordar muitas das suas palavras
E elas misturam-se
Num emaranhado de sensações
Que me provocam
Um sentimento de incapacidade,
Pois só consigo reconstituir,
Duplicidade.
Não suporto não relembrar o que diz.
Sem vergonha recorro a “Vida Conversável”:
“ (…) E isso imediatamente me levou à ideia de que o português é um ser complexo, do qual, para sermos simples, podemos dizer que é pelo menos um ser duplo, aplicando a palavra, que em português tem má nota, duplicidade ao nível de muito bom. Podemos dizer que uma das virtudes do português é a duplicidade, que geralmente é apontada como um defeito em toda a gente, porque se relaciona com a palavra hipócrita. Coisa curiosa também, porque em grego hipócrita quer dizer apenas o ator. O ator que não era sinceramente ele, pois claro, que era um hipócrita. Assim um hipócrita é um ator, que é ator na vida e que tomou um sentido completamente diferente depois, quando a vida começou a ser alguma coisa, muito mais atenta ao ganho, muito mais atenta à conquista de um objetivo do que ao desenvolvimento da personalidade. Se esta se pudesse desenvolver livremente, nós teríamos o ator na sua plenitude como o foi, por exemplo, Fernando Pessoa. Podíamos dizer que Fernando Pessoa é o hipócrita por excelência. Não sendo ele na sua vida ator, porque se o fosse, teria tido bons empregos, teria talvez entrado na política, teria talvez sido ministro e não foi nada disso, porque não era hipócrita, ele era apenas ator para fora, para dentro nunca o foi, isto é, (…), ele nunca cometeu o pecado contra o Espírito Santo, nunca foi ele próprio ator, ele era as personagens, mas não o ator em si mesmo” Agostinho da Silva
Pois é
E só recorrendo a um filósofo
Grande Mestre
Que tento sempre escutar
Que muito admiro,
Consegui “dizer” o que me ía na alma.
Atriz, duplicidade ou quem sabe
Cumplicidade.

Dina Ventura - "Only me"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

DESPERTAR PARA O PASSADO


Despertei ao som de um grito
Ou melhor, de uma frase bombástica:
“Interpreta o passado, vive em verdade o presente e conhecerás o futuro”
Julgando ser a profecia para resolução dos erros humanos, decidi partilhá-la.
Foi o que fiz, convencida que era nesse processo que vivia.
Na verdade tento viver e por essa razão
O que me leva a escrever nesta folha de papel o desabafo.
Em verdade vivo, mas será que realmente o é?
E se algo no passado foi mal interpretado?
Esquecido ou atrofiado?
Até que ponto a verdade do presente é real?
Assim me encontro, tentando buscar respostas em mim,
Recorrendo ao passado
Para que o presente seja vivido
Em verdadeiro conhecimento de mim
E não um simples ideal de futuro
Estruturado em bases desconhecidas.
Pergunto-me como se esquecem coisas importantes do nosso percurso.
Porque se esquecem?
Será porque nos magoaram ou podiam magoar ainda
Será por não lhes termos dado importância
Ou por nos penalizarmos e sentirmos relutância
Em nos aceitarmos despidos aos nossos olhos.
Em verdade me questiono
Me desdobro em mim
Sacudo a alma
Para que se decomponha
E me mostre toda a minha verdade
Sem vergonha.
Aí, sentimos várias
Que se atropelam, se afrontam
E ficam em desalinho
Sem saber afinal qual o caminho
Que as reunirá.
Insensatez da vida
Dos caminhos percorridos
Dos medos assumidos
Que trucidaram os sentidos.
Por isso a cada momento vivido
Há necessidade de o receber
Não como um dado adquirido
Mas batalha por vencer.
E em cada pedaço do caminho
Existem lugares reservados
Que nem mesmo quando se está sozinho
Podem ser alcançados.
Não vale a pena maltratar-se
Por não ter feito o que se queria
Compensa avaliar-se
E trazer à luz do dia.
Tudo o que temos em nós
É possível alcançar
Mesmo que pareça impossível
Vale sempre a pena tentar
E descobrir o que de nós escondemos
Mesmo que sem intenção
Mas sentimos que serão medos
Que nos bloqueiam o coração.
Por isso o trabalho do passado
É tão importante no presente
Para que o futuro não seja ocupado
Por algo que não se sente.

Dina Ventura – 17.01.2012 -“Only me”

sábado, 29 de outubro de 2011

TEMPOS MODERNOS


Vestígios do paraíso - esmalte . Dina Ventura

Tela esmalte - Tempos Modernos - "O Caos" - Dina Ventura

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

NADA


Nenhuma coisa nascida
Que por se saber existir
Não se torna conhecida
E não consegue resistir.
Nada
Sendo coisa nenhuma
Um tudo é poucochinho
Sendo já coisa alguma
Pode inverter o caminho
Nada
Se tirar de lá é elevar
E deixa de ser abjecta
Passa a posição de invejar
Mesmo não sendo concreta
Nada
Não sendo de grande apreço
E sim de pouca importância
É mais do que mereço
Se viver na ignorância
Nada
O momento vira instante
Passa o tempo a nada de nada
Se não sei sou ignorante
Fico e vivo atormentada.
Nada
E quando passa a verbo
Passa a termo de incitação
Mesmo se não me apercebo
Incito e apelo à salvação
Nada
E em menos do que é
Rasa o pouco por um triz
E num rasgo de fé
Nado para ser feliz.

Dina Ventura - in "Cresci com a Poesia"

quinta-feira, 26 de maio de 2011

INJUSTIÇA


A injustiça cansou-se.
Decidiu então saber porque o era.
Olhou-se no espelho e reflectiu-se.
Olhou-se, remirou-se, encarou-se
E amaldiçoou a sua gémea.
A outra cujo nome herdou,
Mas que ao aumentarem-no,
Tudo se transformou.
Só porque lhe colocaram um prefixo
Tudo nela mudou.
E afinal,
Qual das duas nasceu primeiro?
E com que direitos não a deixaram escolher?
Era injusto!
E chorou.
Que lhe vale esse “in” afinal,
Se apenas lhe trouxe peso, dor e condenação?
Deu-lhe estatuto, mas o oposto ao da irmã.
A quem todos apelam, idolatram, veneram
Mas não respeitam.
A ela desprezam-na, odeiam-na, maldizem-na
Mas é com ela que mais se identificam,
Que usam e abusam
Maltratam e acusam,
Desculpando-se com ela.
Isso é muito injusto...
Pensou a injustiça.
Que mundo este!
A justiça deixa o “in”
E coloca-o na irmã gémea,
Lava as mãos como Pilatos e diz:
Tu!
Tu és a culpada!
Foi um prefixo que tudo mudou…
E novamente a injustiça chorou.
Por ter sempre consigo o “in!”
Que não a deixa viver em paz.
Para a justiça se mascarar e se proteger
A injustiça teve de nascer!

Dina Ventura - in: Cresci com a Poesia

domingo, 8 de maio de 2011

O GRITO DO POVO


São uma multidão
Vão desistindo
Até ser um.
Não é rico,
Nem culto,
Passa a vulto.
Isolado
Tenta fazer-se ouvir
E grita
Para que não o ouçam.
Mas quem sabe
Se em uníssono
Elevaria a sua voz
De súplica
A regozijo
De vitória.

Dina Ventura - Maio 2011 - "Only me"