sexta-feira, 8 de maio de 2009

ERRAR É NÃO ASSUMIR O ERRO

Quieta e silenciosa tento escutar o pensamento mas ele nada me diz. Sinto-o parado, adormecido, Não sei o que pensar. Mau sinal para começo de dia, ou sinal para um dia diferente. Não sei. Agitou-se e apenas me deu um mote: Agostinho da Silva. Tento recordar muitas das suas palavras e elas misturam-se num emaranhado de sensações que me provocam um sentimento de incapacidade, pois só consigo reconstituir, duplicidade. Não suporto não relembrar o que diz. Sem vergonha ou medo recorro a “Vida Conversável”:

“ (…) E isso imediatamente me levou à ideia de que o português é um ser complexo, do qual, para sermos simples, podemos dizer que é pelo menos um ser duplo, aplicando a palavra, que em português tem má nota, duplicidade ao nível de muito bom. Podemos dizer que uma das virtudes do português é a duplicidade, que geralmente é apontada como um defeito em toda a gente, porque se relaciona com a palavra hipócrita. Coisa curiosa também, porque em grego hipócrita quer dizer apenas o actor. O actor que não era sinceramente ele, pois claro, que era um hipócrita. Assim um hipócrita é um actor, que é actor na vida e que tomou um sentido completamente diferente depois, quando a vida começou a ser alguma coisa, muito mais atenta ao ganho, muito mais atenta à conquista de um objectivo do que ao desenvolvimento da personalidade. Se esta se pudesse desenvolver livremente, nós teríamos o actor na sua plenitude como o foi, por exemplo, Fernando Pessoa. Podíamos dizer que Fernando Pessoa é o hipócrita por excelência. Não sendo ele na sua vida actor, porque se o fosse, teria tido bons empregos, teria talvez entrado na política, teria talvez sido ministro e não foi nada disso, porque não era hipócrita, ele era apenas actor para fora, para dentro nunca o foi, isto é, (…), ele nunca cometeu o pecado contra o Espírito Santo, nunca foi ele próprio actor, ele era as personagens, mas não o actor em si mesmo” Agostinho da Silva


Pois é e só recorrendo a um filósofo que muito admiro, consegui dizer o que me vai na alma. Abriu um pouco de mim e agora duma forma muito primária, recupero as forças com algo de meu, mas reduzindo-me à minha insignificância perante tanta sabedoria.

“…nunca pensei que as coisas fossem assim...”

Frase que bem olhada mais me faz pensar. Quando se parte para algo tem de se ter em consideração as várias hipóteses não descorando, bem pelo contrário, as que se nos apresentam como descabidas.

Quando tal acontece, há que repensar e tentar reparar até com o mesmo método, mas já adequado à situação.

Todos temos um pouco de derrotistas. Mas admiro muito, aqueles que conseguem provar, demonstrar uma maior força vencendo. É assim que vejo. Imaginemos. A praia.

Um pouco à frente está uma criança perfeitamente convencida ter escolhido o local ideal para a sua construção. Trabalha com desenvoltura na edificação do seu lindo e tão idealizado castelo, mas esqueceu um pormenor tão importante: a maré vai subir e de certeza a água vai lá chegar. Que pena. Decidi então, de mansinho e um pouco a medo, quebrar o encantamento e dizer-lhe o que pensava. Que das minhas passagens por aquela praia tinha notado que a água chegava ali e ao passar levava consigo tudo ou quase tudo...

Olhando-me com um misto de surpresa e compreensão, não me deixou terminar e disse apenas:

- Mas agora não está aqui!

Continuou no seu trabalho, mandando-me de vez em quando um olhar como que para dizer que apesar de tudo sabia que eu estava ali, mas não “sabia” sobre o seu campo.

Fiquei apenas a olhá-lo, afastando-me um pouco para não perturbar a concentração do menino e decidi não falar mais, continuando a pensar o que iria naquela cabeça.

Permaneci ali bem quieta. Sentei-me e apoiando o queixo nos joelhos, fiquei a olhar, tentando imaginar o aspecto arquitectónico daquele castelo. Era realmente enorme tendo em consideração toda a área demarcada para a sua construção. Como iria conseguir? Sozinho?

Não me restava senão aguardar, continuando com os meus pensamentos. Havia várias hipóteses:

1- Que por milagre a maré não subisse, o que iria contra tudo o que era hábito. Mas nunca se sabe e assim o menino teria todo o tempo para acabar;

2- Que chamasse outros meninos para o ajudarem a acabar antes da maré subir. Mas aí tínhamos vários problemas: será que os outros tinham a mesma visão? Será que corresponderiam ao que o menino desejava? Ou será que o achariam pretensioso na sua ambição talvez por não pensarem como ele?

3- Que não se importava que a maré subisse, mesmo derrubando o que já tinha feito. Faria apenas até dar e depois iria embora e não ligava mais àquele castelo, pensando construir outro, noutro dia, noutro local qualquer.

4- Que o menino choraria porque a água era má, tinha realmente destruído o seu castelo e que a culpa era minha porque tinha sido eu, a adulta, a lembrar à água que o fosse destruir.

5- Que perante a destruição do seu sonho, os seus sonhos vingariam porque apesar da água lhe ter destruído aquele castelo que se via, não conseguiria destruir a imagem desse mesmo castelo dentro da sua cabeça. Tinha pena que os outros meninos não o vissem mas, talvez o conseguisse reconstruir noutro sítio ou naquele mesmo, mas noutra altura.

Despertei das minhas conjecturas, faltando-me a quinta, com a água molhando-me os pés. Lá se foi o castelo. Olhei o menino e constatei que o estado em que estava não fazia parte das hipóteses que eu havia formulado. O menino estava triste, estava meio perdido, de braços caídos, olhando apenas para a água e para os restos do castelo.

Aproximei-me mas nem deu pela minha presença. Recuei. Não quis contrariar mais o menino. Fiquei preocupada com ele. Olhei-o e vi que me lançou um leve sorriso como que para me descansar. Entendi, talvez aquela revolta e desanimo se devessem ao facto de, apesar de saber o que se iria passar, o menino querer acreditar que daquela vez iria ser diferente.

À medida que me afastava martelava-me na cabeça a hipótese que mais se adaptaria à da reacção do menino.

5- Que perante a destruição do seu sonho, os seus sonhos vingariam porque apesar da água lhe ter destruído aquele castelo que se via, não conseguiria destruir a imagem desse mesmo castelo dentro da sua cabeça. Tinha pena que os outros meninos não o vissem mas, talvez o conseguisse reconstruir noutro sítio ou naquele mesmo, mas noutra altura.

Não resisti à tentação de ver o que iria fazer e voltei àquela praia no dia seguinte. Fiquei contente, porque nas minhas hipóteses nem tudo tinha falhado, lá estava o menino novamente. Desta vez pareceu-me, apesar de o ver na mesma direcção, que estava um pouco mais afastado da água.

A areia era um pouco mais seca dificultando a tarefa ao menino que a ultrapassava molhando a areia com a água, que ia buscar num vaivém constante. Aproximei-me. Olhou-me e vi aquela tristeza lá no fundo, mas já ultrapassada por um certo brilho no olhar e com ar sério e sábio disse-me:

- Sabes...não faz mal, vou voltar a fazer de novo e desta vez ainda é mais bonito, pensei que foi melhor assim - e continuou sempre a falar exemplificando-me o que estava a dizer.

Reflecti. Tinha sido válida a invasão da água. O menino recomeçou, ponderando, ainda com mais coragem, ideias renovadas e um pouco mais cuidadoso. Voltei sempre, tentando ganhar aos poucos a confiança do menino, esforçando-me para que me deixasse ser sua amiga.

“Nem tudo é o que parece”

Enquanto procuro respostas

No regresso ao meu hangar

Voo nas asas do vento

Sem as conseguir encontrar.

Correm velozes e matreiras

Confundindo-me a memória

Disfarçam-se de novas ligeiras

Fugindo do que será história.

Entram fugazes e deslizam

Brincando às escondidas comigo

Ora se esquecem ora me lembram

Apenas fixo o que consigo.

E neste vaivém desmedido

Tento desbravar a mente

Encontro sempre algo perdido

Esquecendo o que está na frente.

E assim brincam comigo

As respostas aos porquês

E a mais uma vez me obrigo

A começar tudo outra vez!

(in: nas asas do vento encontrei)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

DESACERTO

by dv

Numa investida sem rumo tudo é desconhecido.

Qualquer coisa que nada valha é avaliada pelo seu mais alto valor.

Controversas são as coisas que se nos apresentam simplificadas.

Algo se passa com o procedimento.

A resposta é algo esperado, para questões já postas.

Resoluções inacabadas por desgastes do Tempo.

Enquadramentos forçados na vontade já cansada.

Albergues da vontade, repletos e com filas de espera.

Anseios rasgados em tiras, procurando a cola específica.

Fitas que esvoaçam e se perdem no tempo.

Acertos.

Contabilidades efémeras sempre encaminhadas para o desconto.

Faltas sempre cada vez maiores, que nos conduzem ao vazio,

Fugaz talvez, mas cada vez mais frequente.

Em ritmo de compasso, atirando-nos para a espera involuntária

Do que não se deseja.

São engrenagens circulares, já calcinados pelo tempo.

Rompantes de Energia acumulada, libertando-se para...

(in: nas asas do vento encontrei)


PÁGINA VOLTADA DE MAIS UM LIVRO - PALAVRA

Lutas internas.
Esforços, gritos pesados.
Gritos pesados de esforços,
Esforços pesados de gritos.
Cabeça cheia de pensamentos que não se vêem
Mas sentem-se fisicamente, tal como a dor de um viver magoado.
Vertigem, cansaço dum descanso activo.
Criação interior de algo não transposto.
Barreiras do espírito causadas por.
Procura de “pures” sem nada alcançar.
Será que existem ou apenas o serão por não existirem?
Enganos, traições de pensamentos vivos.
Vivos e mortos para...apenas por.
Será que os dicionários acabaram? Criem-se, recriem-se, mas encontrem.
É preciso encontrar a saída, numa explicação de saída.
Com as canetas que são o quê? São “pures” ou são canetas?
Que rasgam papéis, origem da fúria.
É um caminhar correndo, alargando o passo pelas linhas que não existem,
Mas que o são só porque não existem.
Vou escrever em não linhas, vou não escrever.
Porque:
Se escrevo em linhas, não escrevo em não linhas.
Não escrevendo paro a escrita do pensamento. Não, não paro
Porque ele não pára – o pensamento escreve em não linhas.
Assim não escrevo – penso escrevendo.
Arranjei a saída.
Vou continuar a subida.
Subida imaginária, porque o não imaginário é descer.
Descer ao profundo, ao algo que me ocupa em espaço.
Espaço aberto porque fechado, espaço fechado em aberto.
Agarro nele e crio em espaço. Vou, voltando, andando sem andar.
Parece ser impossível. Mas que sei eu do impossível!
Venham dicionários, correndo. Folhas ao vento espalhando palavras!
Significados de palavras espalhadas.
Restos de palavras, terminações, terminus. Estão alarmadas as palavras.
Milhares de combinações de letras formam as palavras.
Vamos então formar os milhares de milhões de palavras.
Não há tempo para tanta letra, é o que dizem os dicionários.
Então ficamos pelos sinónimos, antónimos...
E esquecemos as palavras primeiras. Há que as encontrar.
Venham dicionários!
Moradias fechadas-abertas das palavras.
Habitação provisória.
As palavras acumulam-se, empurram-se, substituem-se sem dar cavaco
E nós que não somos palavras que as procuremos.
Não somos palavras ou seremos?
Porque as criámos, devemos conhecê-las.
Mas não, tornam-se independentes, livres e ausentes.
Estamos sem palavras!
Venham dicionários, casas pobres de ricas palavras
Ou casas ricas de palavras pobres.
Significados frios perdendo-se em páginas.
Página voltada de mais um livro.
Livros palavras, casas perdidas.
E eu aqui perdida em casas, em palavras de mim.
Ponto final.
Não é uma palavra é um ponto, mas sendo ponto palavra
Em que ponto ficamos?
Venham dicionários por ponto final na palavra.
Corram, acorram dicionários homens,
Homens dicionários feitos de palavras.
Discursem, orem, bem falem, digam de suas palavras.
Que vos resta senão as palavras de acções,
Acções de palavras que não têm tradução.
Venham dicionários traduzir o significado das acções.
Ninguém sabe, ninguém vos presta atenção.
Velhos bocados de papel, bem encadernados, casaco fechado,
Bem aprumados numa estante qualquer.
Fiquem calados.
Que vos servirá falar se não têm a dizer palavra das palavras que possuem!
(in: nas asas do vento encontrei orixá)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

NEURA-SENSIBILIDADE TRIPARTIDA

“Vazios”

Sinto a velocidade de rotação do mundo.

Faz-me entrar em vertigem e perder o rumo da translação.

Que fazer?

Depressa se faz noite que amanhece para o dia.

Mais depressa se escapa o dia que se perde na noite.

As angústias não dormem e anestesiam o mundo para a Vida.

Que fazer com as lágrimas que caem sem autorização?

Apenas deixá-las livres para que limpem a alma.

Entre lágrimas, sorrisos e lamentações,

Os rios caminham em busca da sua foz.

Sem vazios nada se procura.

Sem procurar nada se encontra.

O que se encontra é presente para o passado.

Então que nos reserva o futuro?


“O doer da alma”

A alma dói não pela sua própria dor

Mas pela dor que os outros têm.

Ou não será isso?

Ela dói porque tem vida, movimento e renasce a cada momento.

Esse processo é doloroso pois acaba no percorrer as veias,

Os recantos mais apertados, que nem ela consegue passar.

Mas passa. Tem de passar. E passa.

Quanto mais se embrenha mais aumenta a dificuldade da passagem.

Não quer usar termos, nem rumos, nem objectivos.

Quer apenas ser Alma.

Rodopia em movimentos compassados

Para não perder o ritmo.

Batidas. Sobressaltos com os pulsares acelerados,

Pelos sustos pressentidos.

Não pode parar. O movimento é a vida.

A vida tem o tempo vivido e por viver.

Sem ele nada feito, mesmo sem necessidade dele.


“Símbolos”

Não sei porque se escreve, não sei porque se fala.

Não sei para que se usam termos sem sentido.

Tudo parece ter perdido a validade

Tudo é desculpável pelo contexto.

Tudo se explica para que tenha explicação.

E o que não tem explicação como fica?

Deixa de existir? Perde a importância?

Sem sentido.

Que importa isto ou aquilo?

Não, tudo é importante, fala a aprendizagem!

Frases feitas que tanto se repetem mas que de nada servem,

Para nada servem, porque parece que nada se aprende.

Não me apetece escrever e escrevo!

Não me apetece pintar e pinto!

Não me apetece falar e falo!

Estou o oposto de mim!

Será para me rever? Para me reflectir?

Ou para me afastar do eu e me ver a mim?

Gosto de saber, de conversar comigo e não me estou perceber.

Há um silêncio inquietante, duma alma os gritos!

Linguagem nova, desconhecida sem tradução.

Há que esperar para descodificar os símbolos.

(dina ventura Maio.2009)

terça-feira, 5 de maio de 2009

AO SABOR DO VENTO

by: Dina V.

Esconderijos de refinado odor a Natureza.

Grutas de paredes bordadas a gotas cintilantes.

Ar tão puro e fresco que magoa quando respirado.

Transparência opaca num sabor a terra.

Horizontes distantes, mas claros e nítidos, que nos aproximam.

Imagem fantástica e irreal no que de real me rodeia.

Visão empolgante, do que é meu, sobre a Terra.

Eu confrontada com ela sem nos magoarmos.

Tudo o que de Natural existe se naturalizando em mim.

Viagem do pensamento.

Não terei obrigatoriamente de permanecer sempre dentro de mim.

Assim, coloco-me nos meus olhos e saio

Como um pássaro que se lança em voo aberto.

Há um limiar do qual me atiro sem medo,

Imaginação.

Sobrevoando assim oceanos e montanhas,

Liberto o meu físico da cola invisível que me agarra ao solo.

Liberdade, voo picado, em direcção à Luz.

Ressuscitar da Alma já incolor por falta de Sol.

Voo.

Sem asas, apenas pairando ao sabor do vento.

Nada me poderá deter porque, mesmo que pare, já voei.

Mas como posso pensar em parar com toda esta visão

Que me é permitido desfrutar.

Há que continuar... voar.

Subo. Não há plágio de gaivota

Há sim necessidade de conhecimento da Beleza,

Da urgência do encontro entre mim e o que sou.

É aí que encontro. É neste voo em que me lanço

Que poderei encontrar, libertando-me.

Voo até parada, mas ninguém me poderá alcançar.

Sei que na porta da gruta existe o limiar em que me apoio.

Olhando vejo-o lá em baixo e sinto-me segura

Aquele canto é meu, bem como os ares em que me esvoaço.

Sou eu que vou e não alguém que vai por mim.

Há a junção de mim comigo, plenamente.

Não há confusão no espírito, nem espírito confuso

Há sim, liberdade de Ser, dizendo.

Existe também cansaço de voo e consequentes paragens

Em nuvens suaves de abandono e reflexão.

Depósitos aéreos de energia sólida

Transformada em aragem, pela simples passagem.

Mutações constantes nos diferentes estados.

Apreensão sonora do evoluir no espaço.

Reparo em mim.

Sou eu. Que estou onde quero sem no entanto chegar,

Ao ponto que sei existir, para que eu exista.

É algo que se apresenta sem ocupar um espaço.

Propaga-se de um ponto. Nasce, sem jamais ter deixado de Existir.

Fonte inesgotável, precisando de alimento.

Paro, mantendo-me no espaço ao sabor do vento.

Leveza natural protegida da longínqua gravidade.

Olhando para baixo, sinto a responsabilidade do que tenho.

Tenho à minha frente uma dura batalha.

Vou lutar com todas as forças para manter o que tenho.

Dom Natural que possuindo-o me faz Viver.

Capacidade de Voar...

(in: nas asas do vento encontrei orixá?


LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA

by: dv


Estou cansada do cansaço que me embala.

Sinto-me estranhamente débil perante o que me rodeia.

Preciso recuperar as forças, reabastecer-me de Energia,

Qual máquina produtora que necessita de manutenção.

Onde está toda esta gente. Onde estão os peões. Alguéns.

Será que ninguém sabe onde estão as Oficinas?

Marcações. Falta de tempo. Pressas. Correrias loucas para nada.

Abasteço-me. Digo, falsifico-me. Será que nem eu me respeito?

Inversão. De marcha não, essa continua. De valores.

Silêncio de vozes agitadas, cortantes, agonizantes até.

Missa rezada, em graça a, para desgraça de.

Pouca-vergonha de Sorte na Vergonha da sorte que tem.

Fastio, tédio, nervos de aço nesta máquina desafinada.

Dureza mole, das fibras flexíveis aos pesos acumulados.

Jorrar de salpicos. Gotas gritantes na máquina parada.

Ferrugem. Imitação do Ser. Ranger de molas. Espera.

Doer violento.

Rompante de fúria que destrói o armário.

Casa singela de paredes forradas.

Papéis iguais em casas diversas.

Cobertas, taipais, montes de terra, lixos, miséria.

Revolta.

Luta. Dor sangrenta duma alma que sofre.

Luta interior dum ser que quer alcançar algo.

Falta de forças para forçar a saída.

Explosão interior que rebenta com a máquina.

Amargurada a Alma, senta-se e medita.

Vendo-se ao espelho, reflecte-se em si.

Quer ver para além mas precisa de espaço.

Que mal há em pedir o que de direito lhe pertence!

Apenas o ar que faz com que viva.

Ao ponto a que chegámos, que nem respirar se pode.

Contra natura. Improvável, quando logicamente pensado.

Mas é facto consumado. É difícil respirar aqui.

Deixem-me ao menos respirar. Porque eu sofro se não respirar.

É verdade.

Eu preciso de Ar.





domingo, 3 de maio de 2009

A TODAS AS MÃES O MEU PRESENTE


by: dv

As crianças são os Seres


Em resposta ao que um dia alguém me disse:

“...as crianças são os seres mais incríveis porque não têm maldade...”

gostava de vos mostrar algo que na altura não consegui desenvolver, não por não saber, ou talvez por não ter sido a altura ideal e que agora penso ser capaz por já ter conseguido algo mais mim.

Não lembro o que pensava quando era ainda menina. Não lembro datas... apenas lembranças ténues...

Não me lembro de ter vivido pequena, daí a necessidade de manter sempre um pouco da criança que não fui.

Aos poucos vou lembrando, não de mim mas do que eu senti.

O que de mais nítido guardo na lembrança são cheiros...

Cheiros que nunca esqueço e que me agarram à infância.

Recordo o cheiro do pão quente, da lenha queimada, transformando-se aos poucos em cinza incandescente, levando ao rubro as pedras próximas daquele semicírculo.

O estalido de protesto de uma ramada ainda verde, como que para dizer às chamas que ainda não estava preparada.

O cheiro acre e adocicado da massa levedada, que aos poucos rasgava o aconchegante farelo.

Lá fora o vento forte levava até mim o cheiro da terra molhada!

E, lá longe, aquela barreira que me chamava...era um mundo de cheiro e vida onde sonhar era tão simples!

Apanhava um pouco daquela terra sedosa, apertava-a carinhosamente e deixava-a escorregar por entre os dedos. O barro que sobrava nas pequenas mãos era tão moldável...

Uma bola, mais um retoque e o sonho começava.

Do nada um Mundo se formava. Tudo à minha volta tinha vida e eu criava!

Não sentia o tempo passar. Apenas gostava daquele lugar e pensava...que tudo podia ser de barro, que o seu cheiro era intenso e o sabor?

Só teria de o provar!

Mas se eu gostava tanto daquele lugar, porque existiriam outros e como seriam?

Era fácil imaginar. Olhando ao longe, para além daquele monte, para mim o dorso de um cavalo a pastar, eu podia imaginar:

Cidades, casas, ruas...era tão fácil, bastava-me olhar e lá estavam, debaixo daquele tapete de ervas verdes. Tantas coisas que só os meus olhos podiam contemplar.

O movimento era enorme. Muita gente, embora parecida comigo, pareciam não ver. Seria que também me viam? Nunca cheguei a descobrir!

Após tanta observação o cansaço chegava e para deixar de ver aquela gente bastava pestanejar!

E outro cheiro me atraía, o da água fresca que brotava daquela bica. Era uma fonte, que sendo pública, só a mim pertencia. Porquê? Ninguém lhe ligava, passava despercebida. Mas para mim era muito importante. Corria até ela, sentava-me na beirinha e brincava com a água. Depois de joelhos e inclinando a cabeça deixava que me molhasse a cara. Estremecia, pensando ouvir passos...mas não, era uma pinha que caíra. Corria ao seu encontro e lá ficava sem saber o que fazer. Que poderia fazer com ela? Pegava-lhe, ficava muito quieta e lá continuava a sonhar!

Sentia a imensidão a rodear-me, eu era pequena mas sentia que algo me ligava a ela. Seria o que eu pensava? Se eu pensasse muito, tanto quanto conseguisse ver e depois cada um dos pensamentos desenvolver como sendo imensos, conseguiria aproximar-me mais do que me rodeava, ou seja, teria de desenvolver em profundidade cada pormenor das coisas e, só olhando para todas elas eu conseguiria aproximar-me do que me rodeava.

Era muito difícil e precisava de muito trabalho, porque ao mínimo descuido lá se escaparia um pormenor importante!

Pensava como seria um sábio, que para mim era quem tudo sabia. Como é que eu seria capaz? Nunca seria...e chorava. Mas pelo menos um bocadinho sábio eu podia tentar. E lá começava. Olhava para tudo o que me cercava, tentando entender o Porquê das coisas. E o porquê de serem o que eram e não outras! Ou será que seriam outras e não as que eu via? E lá recomeçava tudo de novo, com o máximo de hipóteses que eu conseguia, até esgotar todas as probabilidades.

Sempre me encontrava numa encruzilhada, num ter a certeza sem certezas! Quanto mais perto parecia estar dum resultado absoluto, mais depressa concluía que ainda tinha muito e muito a concluir, acabando sempre na Procura...


(in: nas asas do vento encontrei)











sábado, 2 de maio de 2009

NÃO SEI EXPLICAR...MAS TUDO TEM UMA RAZÃO DE SER

by: dv



Não sei explicar...

Frase tão simples sem razão de existir, mas que existe. Porquê? Talvez por nem sempre haver palavras que consigam dar a definição mais correcta das coisas. Há sempre algo que nem sempre se sabe explicar. Apenas se sabe. Efémero. Tudo o é e nada quando é o parece vir a ser! Que Ser o consegue explicar? Ser, Humano...é o que na realidade todo o ser humano deverá ser.

Vida. Algo possibilitado mas por vezes não pensado! Olhando à minha volta e erguendo os olhos para o céu, sinto-me imensamente pequena e apenas penso, que só me resta desfrutar um pouco do muito que existe. É através de mim que o poderei sentir.

Sentidos!

São eles que me proporcionam o contacto com a existência, são eles que me mantêm viva, me deixam Ver que existo e que sem culpas, sou um ser humano com necessidade de Sentir.

Recordo algo que um dia escrevi e talvez consiga ilustrar um pouco o que por vezes parece não se conseguir, a que chamei há sempre...nem sempre.

Há sempre uma canção a fazer,

Nem sempre voz para cantar.

Há sempre algo a dizer,

Nem sempre voz para falar.

Há sempre algo de novo,

Nem sempre quem o entenda.

Há sempre algo que acaba,

Nem sempre quem se arrependa.

Apesar das contradições

Tudo tem razão de ser

Por mais ilógico que seja

Tem mais é que se entender!

De tudo isto e muito mais,

Se alimentam gerações,

Sem nunca se preocuparem

Com o porquê das intenções.

Carregam o tempo de vida

Com cruzes bem pesadas,

Sem pensarem em saídas

Ou forma de serem ajudadas.

Há sempre quem não mereça,

Nem sempre quem queira dar.

Há sempre quem ofereça,

Nem sempre por querer dar.

Há sempre quem reconheça,

Nem sempre quem queira mostrar.

Há sempre orgulhos feridos,

Nem sempre quem possa curar.

Em resposta a tudo isto

Não há nada a explicar.

Estou farta de estar calada,

Vou começar a cantar!

(in: nas asa do vento encontrei)





HISTÓRIA DA CHUVA

by: dv

Capacidade de sonhar com as metáforas da vida

Chove! Apodera-se de mim uma tristeza real.

Algo parecido com paragem interior, insatisfação repousante.

Tudo me chama à meditação. É uma força urgente.

Gosto dessa chuva, mas neste momento desejava apenas ouvi-la, vê-la talvez, mas não a queria sentir.

Mas não! Ela cai sobre mim sem piedade.

Porque existes miséria!

Porque não tem o mundo conforto, para se poder sentir o que é belo!

Porque sendo a chuva bela, a não me deixam ver sem magoar?

Deito-me aconchegando contra mim a roupa molhada e fria.

Tenho de ser forte para conseguir.

Medito.

Mas que vejo? Já não há chuva, tudo se transformou!

Estou envolvida. Sinto-me leve como se voasse.

E é verdade, voo debaixo d’água.

Já não há chuva que me magoe. Estou protegida por todas as chuvas.

Sou acariciada por todas as plantas

E como são macias, tão macias que mal as sinto.

Agora apenas chovem bolhinhas d’ar. É engraçado,

Chove para cima... bolhinhas d’ar.

É chuva ao contrário, por isso é linda e não magoa.

Quando lhe toco desfaz-se para não me magoar.

Sinto-me feliz, porque a chuva já não me magoa nem é fria.

Sinto-me molhada, mas é um beijo acariciador das chuvas.

Sou feliz, porque acordei com a chuva a cair-me na cara.

Já me senti triste por isso acontecer, mas agora é diferente

Porque a chuva não é má,

Foi ela que me mostrou as outras chuvas

Que me protegeram e fizeram feliz.

Foi ela que me mostrou que não existe só miséria

E que pelo menos em sonhos tenho o direito a ser feliz!

(in: nas asas do vento encontrei)



A ESSÊNCIA


óleo: Dina V.


Dentro de nós algo que nos preenche quando descoberto e nos faz ver a centelha de divino que todos possuímos.


Gosto de começar a escrever com Há.

Sei que se torna cada vez mais difícil fazê-lo,

Mas é preciso insistir na luta.

Não pode deixar de Haver. Seria o fim.

O fim de algo que nunca começa.

É pouco esclarecedor mas é o que sinto.

É para mim que escrevo e que digo que Existe.

Tenho direito a ouvir-me, a deixar-me encorajar.

Tenho de juntar as forças repartidas e tomá-las como ponto de partida.

Estamos num mundo de lutas individuais

E é preciso que o seja,

Para que se consiga a comunhão.

Temos de nos esclarecer, temos de nos encontrar.

Só assim poderemos mostrar ao que nos rodeia

Que a nossa verdade existe

Que é real e que nos encaminha

Para a Verdade de todos!

(in: nas asas do vento encontrei)





sexta-feira, 1 de maio de 2009

SENTIMENTOS BAPTIZADOS

Porque será que os sentimentos caíram em desuso
E só as palavras ficaram?
Será que a realidade é isto?
Será que agora só resta
O medo de ligar essas palavras aos sentimentos sentidos?
Não os chamando pelos nomes ninguém os irá entender.
Então o medo persiste:
Ou se cai na vulgaridade
Ou se arrisca a não ser percebido.
Se opta pelos dois
É-se apontado como dando o dito por não dito.
Então que fazer? Será preciso deixar de sentir?
Mas isso é impossível!
Então deve-se esconder o que se sente.
É o isolamento compreendido,
Levado ao extremo pela incompreensão.
Incompreensão superficial não, essa é fácil,
A outra é aquela da qual não se foge,
Contra a qual não se luta
E a qual nós próprios não compreendemos
E nunca esta leva a compreender a dos outros,
São sempre diferentes e se leva
Entra-se na superficial, acabando por cair
No baptismo de sentimentos.
(in: nas asas do vento encontrei)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

IMAGINANDO

Já pensaste no quanto é difícil imaginar

A forma como se imagina?

É o que sinto: Turbilhões, avalanches de pensamentos,

Sem no entanto lhes conseguir dar o tom colorido da imaginação.

Mas sinto que possuo dentro de mim o segredo,

Que me porá nas mãos essa possibilidade.

É como o nevoeiro: cor cinza que ofusca os tons reais

Mas que no entanto, atravessado pela luz reflecte uma infinidade de cores...

...que apenas existem, porque ele existe.

E assim será com a imaginação:

Ela existe em mim porque eu dou por falta dela.

Sai correndo. Pára.

São nestes contrastes, que ela poderá estar escondida

Até imaginando que já ninguém a procura.

E com medo de deixar de ser, ela esconde-se da sua própria imaginação...

Imaginando, que mesmo deixando de ser ela, será sempre a imagem de si

Na própria imaginação.

(in: nas asas do vento encontrei orixá)

O BEIJO

óleo: dina V.

É uma forma de diálogo do mais caloroso ao mais gélido. Talvez o mais sincero e melhor seja o que é trocado mil vezes com os olhos antes de chegar à boca.


UM BEIJO COR DE ROSA PARA TODOS OS AMIGOS




MERGULHO EM MIM

Vou escrever para que todas as letras se escrevam.

É uma conversa rasgada,

Uma vontade louca de ser diferente,

Uma diferença louca de não ser capaz.

Esforços em vão para tirar o ardor

Deste interior que não conheço, conhecendo.

É como o mar que na sua imensidão

Por mais que se mergulhe nunca se encontra o fim.

E por maiores dúvidas que se tenham, ele existe!

Onde estará o fundo desse mar desconhecido?

Onde estará o fundo de nós mesmos?

Mergulho em mim.

Sinto-me perder na imensidão do Ser.

Sinto-me, sem sentir a responsabilidade desse mergulho.

É o afastar de um material real,

Caminhando para um real desejado do real material.

Mais uma vez digo que não são jogos de palavras,

Mas sim tentativas para encontrar

Neste complexo Mundo de mim,

O que todas as combinações de palavras significam

E para isso, para a possível descoberta, mergulho em mim!

(in: nas asa do vento encontrei)