segunda-feira, 8 de junho de 2009

EM VINTE CINTO DIAS

Enquanto descanso penso.

Escrevo e canso-me de não conseguir.

Não é isto que quero. Sinto-me, mais uma vez, incapacitada.

No mar das letras flutuo, sentindo o enjoo devido à ondulação.

É um mar agitado, revolto até,

Mas tornando-se tão calmo à medida que se mergulha.

Quanto mais profundo mais calmo.

Apesar das correntes por vezes bem fortes,

Que se não nos precavemos nos arrastam, quem sabe para o abismo.

Tal como velhos navios naufragados,

Perdidos nas profundezas, mas repletos de tesouros cobiçados,

Mas que só aos mares pertencem.

Reagindo às vagas, respiro às escondidas renovando o ar.

Esquecimento no mergulhar profundo desse desconhecido.

Curiosidade receosa do que se poderá encontrar,

Ou receio curioso de não haver nada para Além.

Queda flutuante, rasando o que aí permanece.

Passagem brusca sem de nada se aperceber,

Constatação da Existência, sem no entanto poder provar.

Abandono consciente, ao seu próprio conhecimento.

Rochedos gigantes, que mais parecem grãos nesta imensidão.

Termos de comparação em queda livre.

Sonolência adquirida com o passar dos dias.

Mergulho esgotado rendendo-se ao cansaço.

Despertar longínquo enquanto flutua,

Descrevendo factos ao sabor do tempo, sem Tempo,

Como Memórias sem fecho de contas.

Nada de obrigatório a apresentar,

Apenas simplesmente representar o que vai no espírito.

Liberto ou não o que conta é que está e quer estar.

Esforços nunca em vão para conseguir algo,

Mesmo dificultado pelo emaranhado de tarefas.

Apenas quero teimar. Tentar a participação de mim com o que faço.

Não há uma sequência lógica, mas terá necessariamente de existir.

É apenas a demonstração dos Estados:

Do que se passa com um ser que vive,

Que vai vivendo, olhando para o lados

E por vezes centrando-se em si e nos outros.

Vão haver muitos cortes, passagens bruscas,

Mas de nada adianta tentar refrear o instinto.

Vou-me repetir, vou-me desdizer, Vou.

Vejam que coisa inédita escrever sem escrever.

Confissões absurdas a um papel rascunho,

Projecções do espírito apenas porque existem

E não por quererem ou não serem capaz de dialogar com outros.

Espíritos ou não, algo reage ao que se poderá chamar de pensamento.

São engrenagens complicadas do Ser, que o ultrapassam em Sabedoria!

Como pode o Homem conhecer-se, se a si próprio se ultrapassa.

Ou será que há partes dele que não lhe pertencem?

São questões e mais questões que fazem mover geringonças,

Que funcionam como lubrificantes das cadeias cerebrais,

Irritantes porque nos fazem tropeçar nas armadilhas

Que sem nos apercebermos da sua matéria-prima as adoptamos.

Sentada, olhando uma planta, penso

Livre, no meu estado de vida.

Pergunto-me o quê de existir desta ou daquela forma,

Em espaços limitados, mas sem no entanto me limitarem.

Entrego-me a estes pensamentos isolados, não me deixando estar só.

Reconheço a falta de originalidade ao questionar-me,

Mas reconheço que se torna útil para a minha sobrevivência.

Sobrevivendo, recuso que quem quer que seja me tire essa hipótese.

Não quero morrer para a vida, quero lutar por ela,

Lutar pelo lugar que ela me deve.

Sinto-me embalada no doce soar das palavras,

Como se o tal mar revolto se tornasse gradualmente calmo.

Chamem-lhe acessos de romantismo ou alimentar de ilusões.

Não importa, o que conta sim é o brotar de algo em mim.

O renascer de capacidades inatas, talvez, mas que necessitam ajuda.

Há que cuidar do que de bonito existe à nossa volta.

Porque não olharmos para dentro de nós, apreendermos o geral

E com gestos precisos como ceifeiras experientes, fazermos a monda.

Das ervas daninhas arrancadas, há que fazer nova escolha,

Quem sabe se em local adequado não se tornarão necessárias também.

Há que aproveitar tudo o que em nós existe, encaminhando-o,

Fazendo-se enxertias, regas constantes, renovando a terra e fertilizando-a,

Procurando assim que dessa seiva bruta, surja uma seiva elaborada

Que nos permita alimentar o espírito na máxima transparência.

Reflexos de águas movimentadas de um simples riacho,

Mas que possuem o elemento primordial do mar imenso.

Nuvens que espelham nas águas, em tom escuro, a sua cor clara.

Choques violentos no encontro de águas, numa foz distante.

Não sanidade mental para prosseguir viagem.

Arrependimento do que está feito, sem alteração no que se faz.

Cursos errados de águas apressadas, impossibilitadas de mudança de rumo.

Enjoo das águas, impulso do corpo para mergulhar em terra firme.

Terras desconexas, sem nomes certos.

Tal como a vida, não passando de meras comparações.

Procura incessante do ponto primeiro da não comparação.

Por vezes não se entende porque não existe comparação, mesmo que haja.

E lá se prossegue na luta até encontrar, nem que seja apenas a sombra da comparação.

Assim se vê, comparando, qual ourives avaliando o seu ouro.

Ao compará-lo com o que ganhou recorda apenas o que de real possuía.

O ouro foi-se, restando apenas o que o substitui,

Mas que será trocado por outra coisa qualquer.

Comparações.

Gosto do quotidiano. Exemplos simples de um dia,

Que um dia serão mostra de uma vida inteira.

Recorremos ao chamamento da Ordem do Dia.

Ordenam-se diariamente as desordens dos futuros,

Enervamo-nos de passados que são presentes nos dias.

Recorro.

Reavalio o que existe, inventariando desejos,

Partindo de início, crente no indeferimento...

Léguas e léguas de tempo inútil, sem no entanto saber se o é.

Esgotamento. Procuras sem norte que se afundam no que são.

Retrocessos constantes apoiados em esperanças inválidas.

Pessimismo obcecado de quem verseja em estrofes.

Vontade louca de alongar a escrita, multiplicando os versos.

Fileiras sem fim de Verso que ninguém saberá rimar.

Cortes radicais nas rimas dos versos, apenas criar...

Encosto a cabeça em pensamentos já gastos, vou versejar:

Não consinto que me mexam

No que eu o própria não encontro

Nas ideias que me fecham

E que me põem em confronto.

Estou farta de versos rimados, contados e certinhos.

Vou lê-los porque são certos e ouvi-los porque soam,

Mas quero os meus bem chocantes, qual máscara exótica em pleno desfile clássico.

Objectivos? Não será chocar, mas sim renovar.

As minhas ideias serão puxadas, confrontadas e destruídas se necessário,

Porque eu também tenho os versos em melodia certa.

Há que alterar.

(in: nas asas do vento encontrei orixá - Dina Ventura)

O DESÂNIMO COM AS TINTAS

by: dv

A origem do pensamento

Gostava tanto de conseguir transpor esta barreira.

Será que não consigo acompanhar o meu pensamento?

Vejo coisas tão lindas e quando as quero materializar

Só apanho migalhas! Porque não é tudo directo,

Sem arranjos nem palavras? Penso, olho e fica gravado.

Não, não será gravado, será reproduzido

Para conseguirem vê-las também!

Por vezes pode produzir um efeito que eu não quero

Porque já não é tão pensamento!

Sabes, tu és parte dessas coisas, és um PENSAMENTO.

Um pensamento bonito e por vezes,

Como existem “os materiais” tens de ocupar o teu duplo lugar.

Então eu perco-me e tenho de desdobrar o pensamento.

E sabes? É tão difícil!

Eles lutam e vão lutando sempre até se encontrarem no PENSAmento!



Desorientação ou imodéstia

Mas porque sou eu assim?

Queria neste momento não saber pensar ou então,

Pensar que não penso. Deixar de pensar durante cinco minutos,

Para ver o que pensava, sem pensar! Seria assim? Ou tudo seria diferente?

Mas tudo o quê? E que diferente?

Tudo o que é agora já o não seria depois

E assim deixaria de ser eu e seria uma outra pessoa,

Com o mesmo problema de já não querer pensar!



Sem sentido

Medo, angústia,

São coisas que sinto

Talvez com a sensação

Que poderei perder o que de bom ainda possuo.

Será pessimismo? Talvez, mas a vida não passa disso.

E que me vale pensar nisso? Nada talvez, mas eu não posso sair,

Do lugar onde estou

Porque esse lugar é a vida, A minha vida, feita de pequenos nadas!

Nadas tão grandes que me dão e tiram tudo!

Para mim tudo é nada, tudo são vidas

São nadas!




domingo, 7 de junho de 2009

CHAMAR A razão À RAZÃO


Sentei-me com a razão e questionei-a:

Preciso que me respondas às perguntas que não fiz.

E a razão, sem razão aparente não ouviu, apenas se levantou e saiu.

Ou mentiu?

E agora que faço sem ela? Recorro a quê, à razão de não a ter?

Ou ao ter, sem ter razão?

Mesmo que não saiba o que ela diz, posso-me aperceber,

Sentir se a razão está feliz e se é o que diz ser.

Nem sempre se percebe o que diz

Subentende-se o que ignora.

Se o sabe, não o nega, se o quer não desdiz.

Apenas recorre à fuga para não ser infeliz.

É o que a razão quer. Lutar com o que pode e não quer.

Retirar poder ao que não tem.

Deixar para os outros o que sobra sem ter de provar a ninguém.

Ignora simplesmente sem razão, o que a razão lhe mostra.

Julga que no fundo tem a semente, da árvore que já está morta.

E na sede de não perder, acaba por não alcançar.

Recorre ao que a razão não quer mas vai se deixando arrastar.

Dina Ventura - 6 Junho 2009

sábado, 30 de maio de 2009

PINTURA

sexta-feira, 29 de maio de 2009

EXPOSIÇÃO DE PINTURA 1 A 30 DE JUNHO FOYER DA AULA MAGNA DO POLITÉCNICO DE VISE


Acrílico - 2009: Totem
Dina Ventura

TOTEM - Há a divisão do religioso e do profano. Mas até que ponto existe essa divisão?.Não passa de uma tela, pintura ou desenho que corresponde aos emblemas heráldicos, brasões da minha alma em aperfeiçoamento, simbolizando a prova da minha identidade como pessoa. A pintura é o meu "dodaim", etimologia da palavra Totem, ou seja o lugar onde moro dentro de mim.

domingo, 24 de maio de 2009

INCAPACIDADE

by: dv

Os três estados dificultam o dizer.

Por serem três fazem com que me perca.

Há sempre o perder algo até chegar.

Vejo lá dentro, sinto e escrevo, perdendo grande parte do que era.

Fica muito pouco.

Mal consigo conter a raiva perante a incapacidade.

Então volto-me para ela, porque não?

Se ela existe é por alguma razão e é a ela que terei de pedir ajuda.

Essa incapacidade sente-se perseguida e atraiçoa-me,

Com pensamentos duplos, triplos,

Até que finge compreender-me para que eu não a veja.

Desculpa-se com os estados, com o pensamento descodificado,

Com a surdez interior.

Chama-me de inferior.

Ela vive dentro de mim, eu sou a sua casa.

Então é ela que me conhece, é ela que ordena.

Há a revolta. Ri-se de mim.

Ela é que me abandona quando quiser,

Quando esta casa já não lhe servir, sai.

Há tantos lugares por aí.

Mas sinto-me satisfeita porque me apercebi dela.

Tornou-se um fardo, um peso que não me faz vergar.

Mas faz-me pensar, agir e tentar

Encontrar a melhor forma de a transportar...

... Incapacidade.

(In: nas asas do vento encontrei orixá) - Dina Ventura



PARAGENS...ESFORÇOS TALVEZ


by: dv

Há o recomeçar.

Que triste é a tristeza do estar parado.

Desgaste, esforço em vão, do não conseguir.

É como o desejo de gritar, para quem nunca falou.

Pena lançada na água de um rápido veloz.

É a dor do não parar, a dor da impossibilidade perante a visão.

Paro.

Dói pelo que foi a pena ou por não conseguir saber o que será?

Saudade do futuro.

Esgotamento precoce perante o não feito.

Manchas de tinta.

Rostos sujos pela imagem da alma.

Corpos doentes, sangrando, arrastando-se no hospital.

Hospital de nome vida, com jardins onde uns se passeiam,

Outros espreitam, se escondem, mas nenhum lá consegue morar.

Quem não conhece os jardins? Se sofre? Se sofre menos? Talvez.

Mas eles existem e para quê se são só imagens?

Recolhe-se ao hospital, é assim.

Passeio grátis pelos corredores desse imenso casebre.

As divisões multiplicam-se, portas que não se abrem,

Vontade de conhecer todas essas salas, recantos e gavetas.

Há o medo de se perder, de não conseguir dar com a saída.

Há os recuos para não perder de vista o que se tem pela frente.

Necessidade urgente de olhar para trás, para essas sombras,

Caminhos já percorridos, mas que não se vêem.

Chega-se novamente ao jardim e apesar de ser o mesmo,

Aproveitamos o pouco tempo que estamos nele para, pelo menos, respirar.

Empurram-se, todos precisam de ar puro.

Todos querem, ao menos uma vez, entrar nesse jardim.

As notícias correm como o vento, todos virão a saber que ele existe

E depois como será, perguntarão?

Não cabemos todos no jardim e lutamos, lutam...

Retiro-me, tem de haver uma saída.

Obrigada hospital, vida assim te chamas,

Vou tentar criar um pouco de jardim,

Neste quarto alugado à vida.

(in: nas asas do vento encontrei orixá) Dina Ventura



GRITOS - ECOS DE MIM



Amarrotar papéis, escrever, riscar, pensar.

Quantos sentimentos dobrados, vergados, jogados.

Porque são soltos, descabidos, não se aceitam.

É preciso ordená-los em frases correctas, bem gramaticadas.

É preciso enquadrá-las num contexto fútil,

Mas útil para o texto.

Que se danem as criações, as ilusões,

O sentir singelo de uma simples frase.

Vamos polir as palavras, já gastas e sem brilho.

Vamos condecorá-las e repeti-las, amordaçando-as.

Há que pô-las de castigo, fechá-las, dobrá-las.

É preciso dominá-las, ensiná-las.

Há uma palavra já rouca de tanto palavrear.

De nada lhe serve. Tiraram-lhe a identidade.

Deram-lhe ordem de despejo, por tão mal se portar.

Era louca essa palavra, falava de mais.

Morava num campo livre, mesmo fechado.

Tudo lhe fora permitido,

Agarrando-se a essas rápidas asas – imaginação –

Era vê-la voar. Tudo abrangia.

Ela era o centro e dela tudo partia.

Agora é tarde, já cansada de nada lhe serve gritar,

Ninguém a ouve, ninguém a respeita. Nada vale.

Perdeu-se tal como as outras.

Mas será que mesmo já gasta, ajudada por essas asas

Conseguirá voar mais alto, gritar de novo

E de novo voltar a fazer ouvir e respeitar o seu nome

Liberdade!

(in: nas asas do vento encontrei orixá) - Dina Ventura



sábado, 23 de maio de 2009

AS ESTAÇÕES DO ANO

by: dv

Acordo e sinto um cheiro a vida. Existe um misto de quente e frio,

Um cheiro à frescura da terra e ao calor das flores.

É como se dentro de mim nasça uma vontade louca de me despir,

Me apeteça beber todo o odor que me banha.

É como se não conseguisse saciar toda a sede de calor

E sinto-me leve, sinto-me florida e fresca.

Mas nunca me vou cansar dessa frescura,

Porque quando ainda a desejo, vejo-a ir-se apagando ofuscada por um bafo quente.

Não sabe bem. Sinto-me abafar sem possibilidades naturais de quebrar esse calor.

É preciso muita força para não deixar de respirar.

E bebo, bebo com a sofreguidão de quem vai deixar de ter.

É um maldizer da vida. Sinto-me sem forças para me abanar.

Olhar parado, inquieto, procurando em vão qualquer movimento.

Alguém me tocou. Sinto-me despertar.

Mas não é possível... é tão pequenina. Mas foi ela.

Foi essa folha que se desprendeu para me salvar.

Pairou sobre mim, agitando de mansinho o ar inerte.

E veio outra e muitas outras se seguiram.

É como se tivessem combinado a hora de me salvar de tal calmaria.

Deu-me uma certa melancolia e pensei:

Para meu bem se viram vocês despojadas dos vossos bens e adornos.

Mas depressa me passou, pois tudo ficou sereno, calmo, cheio de uma beleza fresca e amarela.

Amarelo...dourado...pensei que aquela luz cansada de tanto calor se ia derretendo,

Deixando cair sobre mim um pouco dos seus braços,

Que de tão longa caminhada se tornaram frescos e protectores.

Fui deixando que me envolvessem.

Senti-me enleada de tal forma ao ponto de perder as forças.

Mas sentia-me bem. Tão bem que tudo parecia irreal.

Mas fui despertada por um gesto brusco. Porque teria eu feito isso?

Percebi! Os braços dessa luz já não me aqueciam, estavam muito frios.

O brilho amarelo foi desaparecendo e tudo se tornou escuro e gélido. Senti-me perdida, angustiada.

Tinha-me esquecido de tudo por tão bem estar.

E eis-me despertada para a vida de uma maneira tão cinzenta e fria.

Mas ainda bem que existiu esse cinzento, porque assim mais brancura os meus olhos viram.

Como se uma luz sobrenatural tivesse sido acesa e tudo passou a um branco resplandecente.

O frio tornou-se agradável, penetrando todo o meu ser. Senti-me novamente enleada.

Era lindo, tudo é lindo e pensei:

Sou viva e quatro são os cheiros que me ligam à terra!

(in: nas asas do vento encontrei orixá) - dina ventura





sexta-feira, 22 de maio de 2009

DESCODIFICAÇÃO DO TEMPO

O tempo não existe. Mas existe.

Acabei de o descodificar.

Ele é espaço. Espaço de algo a que se chama tempo.

Onde se albergam, coisas de nome sentimentos.

São pequenos tempos que preenchem o espaço onde o tempo vive.

Logo também são tempo e o Tempo é sentimento.

Angústias que apesar de tormentos individuais,

São inquietudes metafísicas, que promovem estreiteza

E quanto mais espaço têm mais se sente o aperto.

São ânsias provocadas por desejos ardentes

De alcançar o que não se tem,

Saber, o que não se sabe

Ou apenas a necessidade aflitiva de criar

De extorquir ao tempo, o que o tempo esconde no espaço que tem.

São insónias, para que a vigília se processe e permita, a não paragem.

É a inspiração, quer do ar que entra e permite sentir

Ou o entusiasmo criador pelo ter respirado.

É o instante, em que o tempo é reduzido a um lapso.

E é nesse momento único que o tempo, tem tempo e vive

Fazendo-nos esquecer que ele existe e é sonho.

Aí o tempo existe livre,

Sem ser necessário esconder-se ou descodificar-se

Ele apenas é, o que o sonho o deixa ser!

Dina Ventura - Maio de 2009

D A T A S...

by: dv

Contar os dias é dificultar a vida.

Importa é que se sinta o que o passar significa.

Não interessa o que fica para trás,

Conta é o que o hoje mostra com o passar do tempo.

Onde quer que estejamos há que sentir.

Depois, há que enfrentar os rios de palavras

Enquanto o são de verdade. Ou seja:

Declarações da alma através da escrita transformando-nos em meros leitos.

Enciclopédias de sabedoria simples que o passar do tempo nos sussurra.

Zumbidos leves de Saberes que devido à fragilidade humana se perdem.

Esboços torturados duma hipotética beleza rara.

Máximas inacabadas, não por falta de tempo mas sim de conhecimento.

Borbulhar de riachos com aspiração a rios, sem se encontrarem no que são:

Riachos. Águas pouco claras que ao longo do tempo se vão coando.

Olhares despreocupados nas margens lixentas disfarçadas pela verdura.

Despertar incerto numa manhã cinzenta, na foz já cansada.

Encontro de águas para um nascer de algo.

Mares. Remoinhos violentos num bater de ondas.

Incontrolável dimensão de profundidade desconhecida.

Lugares desejados, secretos, de conhecimento reduzido.

Navios procurados nas profundezas remotas

Oscilando em abismos de paradeiros inacessíveis.

Ventos. Agitando as bandeiras do que existirá

Enquanto a procura se torna dolorosa porque é procura.

Caminhando em esforço contra a força do vento

Esperando alcançar o que deveras procura.

Noite. Aparecendo, reporta ao que já passou,

Totalizante espera resultados palpáveis do que poderá ser.

Oculta, sem se esconder, passeia-se às claras.

Sai sem discussão, dando prazo sem dar e promete voltar.

Encontro. Já de saída cruza-se com o Sol.

Olham-se de costas seguindo direcções opostas.

Idos deixam-nos à mercê do que são:

Tempo. Esperas inúteis para os conhecer,

Encontros solenes de admiração e espanto.

Nada nos priva da sua companhia mesmo não estando connosco.

Trazem-nos o que são, pedindo em troca o que precisam:

Análise. Porquê de existirem por si e sem nós.

Espaço. Aberto sem no entanto nos ser permitido.

Seguem-se as vias da dedução e da lógica,

Encontram-se resultados questionando-os de dúvidas.

Incontroláveis procuras neste tempo que existe em nós.

Síntese: Dia – Noite – Tempo

O FILME DA VIDA

by: dv

Ontem.

Foi ontem, apenas revelando-se porque é passado.

Completamente preenchido, já não cabendo em si,

Vê-se obrigado a sobrar-se para o dia seguinte.

Hoje.

Novo começo para um ontem e começo para um novo amanhã.

Ambos novos começos.

Serão tão diferentes assim?

Amanhã.

Repleto no hoje e vazio no amanhã seguinte,

Mas incessante no seu começo e fim.

Dias após dias repetitivos reflectem-se nas águas que lhes dão vida.

Tal qual elas, o tempo em dias caminha...

Ora revolta, ora calma, sendo rios ou mares,

Azuis, verdes ou brancos.

Assim é por onde andamos!

Até observar nos poderemos, como num espelho,

Quando as condições a isso nos conduzam.

Somos esbatidos na superfície,

Sem possibilidade de fuga, antes de nos vermos.

Tomamos conhecimento de que estamos lá, só quando nos vemos.

Revoltos, como água em remoinho, puxando-nos para um centro.

Tudo se perdendo na não originalidade,

Apenas cópias da força da gravidade.

Forças apostas e opostas, em constantes mutações.

Revelações do amanhã anotadas num ontem distante.

Interligação de ontens e hojes, para amedrontarem amanhãs.

São unidos, mas sempre formam par para ludibriarem o que resta.

Perseguições inalteráveis que nos enganam,

Com o objectivo de não serem alterados.

Desgaste significante na marcação do tempo.

Escapes musicais para amelodiar o tempo,

Sinfonias hilariantes para nos prostrarem na recordação.

Recordação no hoje, para que o ontem não morra.

Amanhã ansioso para que a sinfonia não se perca.

Ciclo vicioso de um todo inacabado!

Inacabado em imagem, porque o Amanhã existe.

Reforços pedidos para entender o que É.

Recursos apoiados no tudo que podem ser.

Conclusões gerais, duma lei que já foi.

Coisas completamente certas no começo do hoje,

Que poderão estar erradas quando sobrarem para amanhã!

Ilustrem-se as gentes para que se possam revelar.

Não nos fiquemos pelo filme que reteve a imagem.

Descodifiquemos o negativo e façamo-lo falar.

Que vida... tanto filme por revelar...

Ontem...hoje...amanhã.

(in: nas asas do vento encontrei) Dina Ventura



segunda-feira, 18 de maio de 2009

TESOUROS ESCONDIDOS

Adicionar imagemby dv

Que doces encantos na solidão amarga.

Que forças imensas no perder das forças.

Algo aparecendo no peito ardente.

Há um abalo no corpo dorido,

Há um ressuscitar na vontade forte,

Há um quebrar do refúgio secreto.

Ondas agitadas de um mar parado.

No fundo os navios afundados e perdidos.

Velas erguidas em direcção à luz.

Plantas regadas com lágrimas geladas,

Florescendo mortas num canteiro fechado.

Portas secretas que se abrem aos poucos

Para o campo perdido do Infinito.

Raízes mortas de plantas ressuscitadas,

Bocados secos de seivas brutas,

Passagem ao alimento duma seiva enganada.

Encontros de caules procurando alimentos

Num deserto seco de campo a florir.

Escolha de terra para além da que fica.

Criação de sonhos numa vida de palco,

Rasgos de véus com as forças do vento,

Procura sangrenta de olhos feridos.

Voltar à luta numa batalha perdida.

Encontrar forças num corpo não corpo.

Viagem no tempo do real sem fim!

(in: nas asas do vento encontrei orixá)





domingo, 17 de maio de 2009

NOSTALGIA - SENSIBILIDADE - AMIZADE

Externato de Santa Maria Maior

12.º CONVIVIO

Antigos Alunos do Externato de Santa Maria Maior de Tábua

Pedra da Sé - Tábua - 16 de Maio de 2009

Enquanto avançava para o local do encontro, sentia que recuava no tempo até à adolescência. Sensação normal para quem não via há muito tempo amigos e colegas, já consciente que alguns, poderia não encontrar. Apesar de preparada instalou-se uma nostalgia inexplicável. Ao chegar deparou-se-me um já bem composto grupo do que estava calculado. Próximo de sessenta pessoas, entre antigos alunos e professores. Na mente estava presente a imagem guardada ao longo dos tempos. Nada mais. Uns reconhecíveis outros já não tanto, mas foi ao primeiro abraço que a sensibilidade falou mais alto. Não aguentei e ao contrário do que podia pensar desatei num choro que já me tinha ameaçado de manhã (enquanto escrevia algo que pretendia ler), mas que ali não consegui conter. E pronto passado o primeiro impacto a dor apaziguou-se, apesar de se manter bem presentes os que já não poderei ver nunca mais nas nossas reuniões, mas que estarão sempre dentro do meu coração.

Após o almoço convívio, veio a caminha tão bem preparada, que deixou que a Natureza equilibrasse a mente, mais para o fim da tarde o lanche e a coragem para ler em voz alta o que tinha escrito de manhã. O sentimento era o mesmo com que tinha sido feito e que não me importava partilhar o receio era o desfecho.

“Encontro de amigos – Externato Santa Maria Maior - 16 de Maio de 2009

Recordações

Sem saber porque acontece ou como acontece

Dou por mim muitas vezes, a ver não com os meus olhos

Mas através de alguém que não sei quem é!

Pergunto se sou eu, que ainda não conheço

Ou alguém, que me quer dizer quem é ou quem sou.

Através do seu olhar vejo um mundo com gente,

Gente apenas. Um conjunto sem significado, sem sentido e um pouco desfocado.

Apenas observo, sem ainda entender nem conseguir descodificar.

Apenas fazem parte.

Parece algo neutro, sem cor, que mexe mas não tem vida, irreal.

Hoje esse alguém não está, ausentou-se.

Deixou-me, entregue a mim mesma, de visão clara

Para poder viver a realidade presente.

E agora neste momento, estou a olhar e a ver através de mim.

De forma clara e nítida.

Gente, mas não uma gente qualquer.

São pessoas que olho e sinto.

Umas mais, outras menos, mas todas me dizem algo.

Puxam-me para algo, que nunca esqueci

Nunca vou esquecer, pois faz parte de mim e ajudou-me a ser quem sou:

Externato Santa Maria Maior de Tábua.

Foram muitas dessas pessoas para quem estou agora a olhar

Que fizeram com que a minha alma nunca deixasse de Ver.

E hoje, essa a razão porque estou aqui.

Durante todos os anos em que não estive presente,

Sempre estiveram comigo, sempre fizeram parte de mim e sempre farão.

Muito grata por me aceitarem, me convidarem, por me chamarem e

Por não se terem esquecido de mim!

Por isso estou aqui. Vim não por obrigação mas porque senti que devia estar presente.

Vim porque a ausência, se tornou amargurada

E as memórias do que me fez ser assim me empurraram para aqui.

Há sempre uma razão de ser.

Não é sempre apenas porque se quer ou quando se quer

E sim porque, era agora e hoje que eu tinha de o dizer!

Mais uma vez grata de coração a todos vós.

Amigos de uma vida que me ajudaram a ser quem sou.

Um abraço especial ao meu director, professores, colegas de turma e amigos

Que se mantiveram ao longo dos anos!

Mesmo aos ausentes, a saudade ficou.

Aos que já não estão entre nós, um abraço e carinho muito especiais

Pois quem sabe não estarão a ouvir, a ver e a sorrir!

Quando é de alma, a alma não tem barreiras, não tem fronteiras

Nem distância, nem obrigações, apenas união de corações.

Bem hajam todos por me aceitarem aqui.

Obrigada Leonor pela tua “sempre presença” e pela tua insistência.

Sempre cito uma frase ‘é mais fácil desistir do que persistir’

Tu és a prova disso!

Tu és uma guerreira de alma que muito admiro!

Obrigada a todos e até para o ano. “

Após a leitura desmanchei-me em lágrimas outra vez e agradeço a todos que comigo se comoveram e me ajudaram a conter as lágrimas. Obrigada a ti mana por me teres acompanhado nesta aventura de sensibilidade e emoções.

Dina Ventura