sábado, 13 de junho de 2009

ANONIMATO

by: dv


Tema de difícil acesso, que não me permitia escrever sobre ele. Porquê? Nem eu sei talvez por nunca ter pensado nele, ou melhor por nunca o ter sentido. E que sentido tem escrever sobre o que não se sente? Faz, nem que seja por desafio. Portanto vou falar sobre ele. Mas é tão complicado para mim, que só pode sair coisa complicada. Quando isso acontece é porque algo não está esclarecido então vamos ver o que consigo saber!

De origem grega “sem nome” este senhor é uma qualidade ou condição do que é anónimo e sem assinatura. Da sua origem provém obras muitas antigas às quais não se podem atribuir os autores mas que valem pelo que são. Será que foi isso mesmo que eles entenderam à altura e apenas faziam pelo simples facto de o quererem fazer? Mas por outro lado também pode ser parcial, pois no meio de tantos outros o que representa mais um afinal?

Quem sabe se o anonimato não carrega também a cobardia?

Mas com a evolução tecnológica, também se tornou doutor, passou a acto opcional de permitir manter a identidade escondida de terceiros.

Sem deixar de ser substantivo e portanto o que designa uma substância ou um ser, que designa qualquer coisa, animal, pessoa ou planta, acaba por se contradizer e não definir coisa alguma.

Pois, representa um estado sim, mas do que é anónimo e, nesse caso, um sem nome. Mas é também um sistema de escrever, pintar ou algo fazer sem assinar. Mas um autor desconhecido que não passa desse estado, deixa de ser? É muita ingratidão. Mas também é um palavrão que se chama desinviduação.

Não é tão simples estar no anonimato por tudo o que pode ou não conter. Melhor seria sair dele e não se contagiar com o que dele advém:

Com estimulação sensorial em excesso, concentra os recursos cognitivos na integração e interpretação de todos os estímulos. Sobrando muito pouca disponibilidade para reflectir sobre as suas acções, contribuindo assim para esse estado de palavrão imenso, quase não tendo consciência disso mesmo.

A auto consciência reduzida, pode conduzir à diminuição do medo de avaliações negativas. Resumindo e “descomplicando”, se não sabem quem sou posso fazer o que me der na real gana, para bom português correcto e palavroso.

Mas continuando na forma ritmada do estudo científico, apercebo-me que com os recursos cognitivos concentrados na interpretação de toda a estimulação sensorial que recebo, perco a disponibilidade para manter o circuito de feedback responsável pela auto avaliação e consciência das acções activas. Assim, posso tornar-me menos consciente de mim e do que faço, aumentando o palavrão. Desindividuação.

Esta diminuição é potenciada pelo embrenhar-me na multidão, aí perco a minha individualidade pessoal, se é que a perco, para adoptar uma identidade de massa. Na “alma colectiva” a mente individual funde-se, podendo converter-me num ser sem vontade própria e disso me esquecer. Posso concluir que o anonimato liberta a consciência, pois não corro o risco de ser descoberta, apontada ou criticada. Não darei aos demais a possibilidade de me criticarem, de me avaliarem pela minha ausência substantivada.

Induz-se o anonimato “despindo” o indivíduo das suas características individuais ou seja, daquilo que faz dele o ser único, ou melhor ainda, impossibilita os outros de o reconhecerem individualmente, faz-me até acreditar que não serei reconhecida.

Grito que quero sair do anonimato e grito porque ao sair, sou apontada e é-me incutida uma certa difusão de responsabilidade ainda maior, donde advém a sobrecarga de dados sensoriais.

Mas que carga de trabalhos!!!!

É muito controverso o anonimato. Quando assim se sente, será que não me torna mais permeável aos interesses da multidão? Não, não é verdade pois tornar-me-ia irracional!

Mas tenho de ter muito cuidado porque anónima no seio de um grupo pode potenciar em mim comportamentos de cariz anti-social e sem normas. Mas que digo?

Que ma pessoa ao considerar-se no anonimato, se sente um elemento estranho no meio de um grupo e que provavelmente exibe normalmente um comportamento inibido? O não ser conhecido diminui a importância que se dá às coisas ou às acções, ou às obras e por consequência da auto consciência e auto avaliação das mesmas, pela desmotivação? E isso que trará? Raiva? Impulsividade desmedida, tornar-se anti-social e anti regras, agindo sem primeiro premeditar as consequências das acções? E lá vem o palavrão. Ou será o contrário? Quando se sai do anonimato vê-se e sente-se a identidade individual reduzida, deixa de se identificar consigo mesmo e com as suas normas, adquire-se uma identidade social e nos comportamos de acordo com aquilo que o grupo vê normal? Ou será o contrário? Não se irá pensar nas acções enquanto indivíduo e reagir refugiando-se na inibição, encontrando-se finalmente no meio da multidão com um nome, que todos vêm, mas que ninguém conhece não deixando de estar no anonimato?

Muito difícil e no final fiquei na mesma! Afinal ser ou não é a questão! Bem depois de tudo isto não sei que fazer, que assine por baixo ou simplesmente deixe em branco! Mas algo interior me diz, assina porque não? Mesmo que não te conheçam talvez reconheçam que te preocupaste com o tema sem sair dele!

Dina Ventura 13 de Junho de 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

EM BUSCA DA PAZ

by: dv



Desejo intensamente que algo de bom me desperte.

Quero deixar esta solidão constante,

Este não querer nada.

Sinto uma insatisfação dentro de mim.

Tudo o que me rodeia me é ingrato e sem sabor.

Estou cansada de olhar sem Ver.

Apenas esta luz interna me vai amornando a existência.

Mas até essa sinto desfalecer.

A caneta já se me torna pesada,

Mas ainda é ela que me faz pensar e sentir

Que nem tudo acabou.

O pensamento existe e é a esse que me vou agarrar.

Pode não ser o que desejo,

Mas é...e faz com que eu exista.

Tenho de me esforçar para não o perder.

Porque se isso acontecer, deixo de ser.

E que será de mim, só e sem a única ligação com a vida.

Ligação que faz com que lute e que tente ultrapassar barreiras,

Para chegar ao lugar onde pertenço.

Não sei qual, só sei que existe e se chama Paz!

(in: nas asas do vento encontrei orixá) - Dina Ventura





quinta-feira, 11 de junho de 2009

À LUZ DO QUE SE NASCE - E TU COMO TE CHAMAS?

Começo por vos falar de um episódio muito recente que considero especial devido à paz fora do comum que me transmitiu.

Estava sentada num banco de pedra, num jardim junto a um lago natural. As cores que me rodeavam eram muito intensas ou então os meus sentidos é que mo proporcionavam; o azul forte, quase petróleo do lago, emoldurado por um verde-escuro aberto, salpicado de várias tonalidades, a relva, os juncos bastante altos ondulantes com a brisa suave e o tecto dum azul claro intenso. Debruçando-me um pouco chegava à água que de tão parada me devolveu em reflexo. Sem susto reparei numas rugas e num rosto a que já me habituei encaixando-o no tempo. Mas ao lado do meu vi o de uma menina, era um rosto muito bonito, de olhos expressivos e sorriso nervoso. Olhei-o um pouco mais e voltando-me encarei uma criança de seis ou sete anos, magra e vestida de claro. O vestido era cor de grão com uma gola branca redonda, aberta à frente, donde saía uma tímida fita de veludo preta formando um laço um pouco desfeito. Franzido na cintura, deixava ver umas pernas magras de joelhos proeminentes e acima deles a continuação da magreza. O conjunto era rematado com um casaco de algodão da mesma cor, umas meias brancas pelo meio da perna, descaindo um pouco para cima dos sapatos pretos de verniz, que se seguravam nos pés frágeis, apenas com uma tirinha do mesmo material, presa por uma fivela.

- Olá!

- Olá que estás aqui a fazer? - Respondi.

- A olhar para ti! – Respondeu com a verdade e segurança duma criança, como a criticar levemente a pergunta para uma resposta tão óbvia.

Sorri, fazendo-lhe crer que tinha percebido a mensagem, ao que me respondeu:

- Posso ficar aqui contigo e contar-te uma história?

Acenei afirmativamente para que não me saísse nada do género: onde está a tua mãe, como te chamas, porque estás assim vestida. Sentou-se ao meu lado sem esforço, apesar de ficar a balouçar os pés, pois não conseguia que chegassem ao chão e começou:

“Era uma vez uma menina que quando nasceu foi viver com os pais para uma casa muito grande, que era dos avós. Enquanto não sabia andar, conseguia percorrer todos os sítios e ouvir todas as conversas. Ouvia a avó a discutir com o avô, não percebendo sobre o quê, mas às vezes parecia-lhe ser por causa da sua mãe e do pai. A discussão girava à volta da idade da mãe, que era muito nova e que não devia ter tido a menina, que ainda por cima o pai não prestava porque não gostava de trabalhar e que nunca tinha dinheiro, nem para comer, quanto mais para dar de comer às duas. A menina ficou muito intrigada, mas então se não a queriam porque a foram buscar e donde teria ela vindo?

Não conseguia equilibrar-se nas pernas, estava sempre deitada. Perturbava-a muito o facto de sair dali, sem sair. Era estranho porque ficava sempre no mesmo lugar, mas conseguia ver o que se passava nos outros espaços onde as pessoas falavam. A avó não fazia assim porque quando vinha ter com ela a menina ouvia sempre o som dos seus passos e via-a quando chegava, mas a ela ninguém via. Por isso é que a deixavam sempre sozinha, achavam que estava sempre no mesmo lugar, sabiam o que estava a fazer e não precisavam de estar ao pé dela...quando a entendessem iria perguntar, porque seria ela assim? Também gostava de poder andar e correr com as pernas. Mais uma pergunta era registada no bloco mental.

Assim os dias foram passando até que acordou sem conseguir respirar. O que estava a acontecer? De repente a avó entrou e o ar chegou até ela. Estavam aos gritos e a avó a dizer que o pai a estava a sufocar. Seria verdade? Não a quereriam ao ponto de lhe tirar o ar? Não podia ficar mais tempo sem utilizar as pernas. Foi treinando e sem a ajuda de ninguém, com apenas oito meses, apostou que seria capaz de descer aquela escadaria enorme de madeira e ir ter com a avó. E foi. Lutando contra algo que a puxava para o chão, decidiu com esforço virar-se de costas e descer ao contrário podendo assim segurar-se e lá foi. Quando a avó a viu começou a gritar como se ela tivesse feito algo de mal, mas depois começou a dar-lhe beijos. Foram todos ver que já andava. A menina apercebeu-se que pareciam contentes por ela ter feito tanto esforço para chegar ali pelo chão. A sensação é que quanto mais conseguia andar, menos conseguia desclocar-se pelo ar. Para ela a casa era enorme, era antiga de paredes muito grossas e muito altas. Brincava no pátio, recinto que ladeava toda a zona fronteiriça e tinha no centro uma pedra enorme. Descia por uma escadas de pedra para uma zona ainda maior onde estavam umas casas pequenas, de um lado e do outro, já sem telhados e que a avó dizia serem casas de pombos, “antigamente haviam pombos, agora não há nada...” e sem terminar a explicação avisava-a que não podia ir para lá “porque lá estavam bichos”. Esse pátio terminava ao fundo por um portão enorme de ferro, muito alto, que a separava dum mundo que nem sabia existir, mas que por vezes ela ultrapassava sem necessidade de o abrir, esgueirando-se por entre os ferros grossos. O que mais prendia o olhar da menina naquele portão, não era o cadeado que substituía a velha fechadura, nem os salpicos de ferrugem que o tempo lá tinha colocado, mas sim, lá bem no alto um boneco ou melhor, dois cavalinhos apoiados nas patas traseiras que lhe davam um pouco de vida. Que seria aquilo?

- Vó...eu queria aqueles bonecos...” dizia, mas a resposta era sempre a mesma:

- “Não te atrevas a subir o portão, aquilo que lá está é um brasão e ninguém o pode tirar!”.

Intrigada, naquele momento só desejava saber o que seria um brasão e ia puxando o avental da avó insistindo. Apesar da pouca paciência e num tom áspero que lhe era peculiar, não por não gostar da neta mas sim mostrando a sua raiva contida contra os dissabores da vida, respondia-lhe deitando um cesto de erva, talvez serralhas, para dentro da capoeira dos coelhos:

- “ Quer dizer que esta quinta já foi de reis, viveram aqui, mas que não tinham de trabalhar como eu, não faziam nenhum e...”

Assim continuava a ladainha que aos ouvidos da menina soava a música que ia embalando os seus sonhos de criança. Olhando o velho brasão enferrujado sentia-se uma princesa e orgulhava-se de viver ali, só não entendia porque era a avó tão amarga e porque trabalhava tanto que nem tinha tempo para brincar com ela.

Mais uma vez a voz da avó a embalava enquanto atravessava o pátio e se ia refugiar junto de uma zona muito verde. O chão forrado de trevos, que para sua triste sorte eram de três folhas, sentava-se de pernas cruzadas olhando para o infinito e imaginava como seriam as coisas fora dali. Sabia que era pequena demais para entender, como sempre a avó dizia, mas sentia que alguma coisa se passava de errado. Um dia tinha de saber.

A avó um dia comentou que um homem tinha sido morto quando tentava subir aquele portão. Quem seria? Um dia ainda descobriria. Morto? Não entendia o que era morto, possivelmente seria ir embora para longe, para além daqueles montes e serras que rodeavam a quinta. Podia ser, mas ali ela estava protegida. Às vezes transpunha o portão para ir brincar com uns meninos guardadores de rebanhos. Gostava de brincar com eles. Eram três irmãos: um rapaz que coxeava muito e duas meninas. Brincavam às casinhas, às escondidas, à apanhada, ao jogo da cabra cega e muitos mais, que a menina só conhecia porque eles lhos tinham ensinado. Quando a brincadeira estava na melhor parte, a avó aparecia sempre a gritar por ela e lá terminava a felicidade da menina, voltava para casa de lágrimas nos olhos, pois durante mais uns dias não teria ninguém com quem brincar.

Ia para casa e por vezes sentia medo, principalmente quando se lembrava das coisas que a avó lhe contava sobre espíritos que falavam e faziam barulhos. Não sabia ao certo o que eram espíritos mas dizia-lhe que eram os mortos que voltavam para atormentar os vivos. Mas que tinha ela com isso? Seria o que morreu no portão? O seu pequeno coração disparava.

Assim os dias foram passando e depois já ninguém ligava porque a menina andava, nem deixavam, porque estavam sempre a chamá-la para ver onde estava e queriam que ela estivesse sempre no mesmo sítio. Então para que servia andar? Mas ela não ligava, fugia e ia subir às árvores, comia os frutos e gostava muito.

Certo dia estava a brincar junto das escadas grandes e viu duas pessoas que nunca tinha visto lá em casa, já eram velhos. Seriam amigos da avó? Mas eles conheciam-na e começaram a conversar com ela. Já estava assim, há um bom bocado, quando a avó chegou e lhe perguntou com quem estava a falar. A menina disse-lhe com quem era, apontando para o casal de velhos e ficou sem entender quando a avó lhe respondeu que não estava ali ninguém e o que estava a ouvir eram as pessoas a passar atrás da casa. Ela perguntou se não os estava a ver ao que a avó respondeu que não, estava era a ouvi-la falar sozinha. A menina ficou sem reacção e não entendia porque é que a avó lhe estava a fazer aquilo e apenas disse que os senhores lhe estavam a dizer que um dia a avó ainda iria acreditar nela. E assim foi, passado um tempo eles voltaram, a menina foi a correr chamar a avó e então falando com eles pediu-lhes que dissessem à avó porque estavam ali. Estavam, segundo eles, para lhe fazerem companhia e tomar conta dela. A avó não queria acreditar mas não havia dúvida ouviu o que disseram, mas se não havia ninguém...e olhando para onde a menina apontava, não via, apenas sentiu um arrepio e o ar gélido.”

- Queres ouvir mais? – Perguntou a menina tocando-me de leve no braço.

- Queres contar? – Reagi apanhada de surpresa e mais uma vez de forma não correcta ao que respondeu.

- Não foi isso que perguntei, porque para que eu possa contar tu tens de querer ouvir.

- Desculpa, quero sim, quero muito.

Lançou-me um sorriso condescendente, como a dar-me mais uma hipótese e continuou balançando apenas o pé direito:

“A menina nessa altura sentia-se muito só porque o pai já não morava ali. A mãe morava mas quando perguntava onde ela estava, a avó se estava bem disposta respondia-lhe que tinha ido trabalhar, se estava mal que não estava porque não queria saber dela para nada e que a tinha deixado com ela só para lhe dar mais trabalho. Tudo era muito estranho para a menina. Nunca respondiam ao queria saber e quando falava sobre alguma coisa, ninguém acreditava ou lhe dava atenção, era tudo muito estranho.

Uma noite acordou ao som de vozes alteradas, mas teve a sensação de não ser com ela. Apurou o ouvido e muito quieta apercebeu-se do que era. Ouviu o avô dizer para a avó:

- Você é que tem a culpa...é um inferno, essa miúda é um diabo, será que vai ser assim a vida inteira?

Num tom abaixo, mas fazendo-se ouvir claramente, a avó dizia-a:

- Mas será que não tens coração? Que culpa tem o anjinho se o pai e a mãe são assim?

Que queriam dizer com aquilo? A menina não entendia, para um era um diabo, para outro um anjinho e os pais são assim como?

Os dias e anos foram passando entre o temor e a liberdade. Já não era bebé e a avó disse-lhe que tinha de ir para a escola. Não fazia ideia o que era, apenas sabia que tinha outros meninos para brincar e que viviam com os pais e não com os avós como ela. Sentava-se isolada e pensava nos pais, não perguntava nada à avó pois já sabia que a resposta não era boa e seria igual à das vezes que se atreveu a perguntar:

- A tua mãe é uma desnaturada e o teu pai outro que tal, não querem saber de nada e eu que aguente isto... – dizia a avó como que acusando a menina de tudo aquilo.

Pelo que conseguia entender era chamada de nada e de isto. A um canto questionava-se porque não a queriam os pais. A avó dizia que eles não estavam juntos, que não sabia do pai dela e que a mãe dizia que andava a trabalhar mas que queria era passear, que não lhe ligava nenhuma, até se esquecia que tinha uma filha e se não fosse ela não sabia o que seria...e por aí fora, até a cabeça da menina já não aguentar mais. Mas como a mãe se esquecia dela? Seria por estar cansada? Talvez, porque nem tudo o que a avó dizia estava certo, a mãe trabalhava e até já a tinha levado lá.

Era um lugar muito bonito e as pessoas eram muito diferentes, importantes, dizia-lhe a mãe. Tinha medo deles porque era sempre avisada para se portar bem, não incomodar, não ir para lado nenhum, não sair dali. Sentia-se triste porque descobriu que existiam lá coisas muito bonitas. Havia um salão muito grande que entre tantas coisas novas tinha um piano preto que reluzia como que a chamá-la. Mas a menina não lhe podia tocar, nem sabia, mas pelos menos podia sentir aquela boca com dentes pretos e brancos a rirem-se para ela. Perguntava-se porque não tinha nascido a poder fazer coisas e a tê-las. Esquecia rapidamente essas questões enquanto atravessava, às escondidas, aqueles salões e ia ver os peixes que se encontravam num lago que estava dentro de casa. Achava-o lindo e ficava ali horas a imaginar, da mesma forma que o fazia junto ao lago das avencas na quinta onde a avó morava. Não via grande diferença, apenas o facto de estar dentro de casa.

Mas uma coisa muito mais importante a prendia àquele lugar. Era a tia, irmã mais nova da mãe. Ela tinha casado muito nova como dizia a avó e tinha ido viver para aquele sítio porque o marido trabalhava lá, com os cavalos. Por isso arranjaram trabalho à mãe da menina, que se deliciava no picadeiro a olhar aqueles animais, que como o tio lhe dissera eram de competição. Gostava muito da tia e por isso às vezes não gostava de ir lá a casa, porque os ouvia discutir muitas vezes. Só o facto de gostar muito daqueles animais fazia com que na altura tudo fosse ultrapassado. Aquele lugar tinha coisas diferentes, desde a comida aos cheiros, tudo que fazia a menina sonhar. Mas as visitas lá eram muito poucas e depressa acabavam, depois tinha de voltar para os avós e apesar de gostar muito deles, em especial da avó, sentia-se muito só.

Mantendo-se ainda imobilizada naquele canto onde se refugiava tantas vezes e com o pensamento quase tão dormente como o corpo, continuava com perguntas que lhe fervilhavam na pequena cabeça, sem no entanto encontrar as respostas. Sentia-se rejeitada, diferente dos outros meninos e às vezes fazia de conta que tudo estava bem. Tinha os pais junto de si, que todos gostavam dela, que não se sentia só...e adormecia embalada por todos aqueles pensamentos.

Era uma criança solitária. Refugiava-se no seu mundo, habituando-se aos poucos a viver nele e a sentir-se confortável, pois tinha vergonha e medo do mundo real. Era um mundo para ela muito feio, cheio de proibições, rejeições, mentiras e gritos. Não entendia o que eram essas coisas. Iria crescer? Se isso acontecesse como seria?

Um dia a mãe da menina, que pouco estava com ela, disse-lhe para se preparar porque iriam à praia. Nem queria acreditar, praia! Não sabia bem o que era, mas podia brincar e tomar banho na água com sal e saltava de tanta alegria com tão pouco. Mas para a menina era tudo: ir à praia com a mãe. Ainda não tinha acabado e então disse-lhe que para ir com ela tinha de se portar bem e que não podia chamá-la de mãe.

- Ouviste, não podes chamar-me de mãe, trata-me por tia, lá eu sou tua tia!

A menina abrindo a boca e os seus grandes olhos, acenava com a cabeça afirmativamente, sem conseguir falar ou entender. Porque seria que a mãe lhe diria que não o era na praia? Mais uma vez não percebia e sentiu um grande aperto no peito.”

- Gostaste?

- Ai que susto! Acabou a história? – Balbuciei.

- Porque nunca respondes ao que te pergunto?

Olhei discretamente para a posição do sol e notei que já se tinha passado algum tempo, depois perguntei-lhe, enquanto me levantava:

- Como se chama a menina?

- Tem todos os nomes! – Respondeu – Mas gostaste?

De costas para ela e enquanto olhava a água azul respondi:

- Gostei muito, senti muito... – pensava como uma criança tão pequena podia ter contado uma história assim! Reagindo, perguntei voltando-me para ela:

- E tu como te chamas?

Fiquei sem resposta e constatei que já não estava ali. Fiquei sozinha com os meus pensamentos, perguntando-me como teria desaparecido tão rápido, mas fiquei com a certeza que aquela menina era uma Luz e que se continuasse a contar histórias daquelas, poderia aquecer muitos corações.

(in: nas asas do vento encontrei orixá) Dina Ventura


A CHAMA DA MINHA VIDA

O meu refúgio, sou eu, aberto ao Mundo.
Não tenho nada de meu, a não ser o eu que sou.
Não quero nada do que não tenho, do que tenho, ou do que sobrou.
Quero apenas Ser, existir sem existir, para conseguir Ver e Viver.
Não me interessam filosofias, descrições, mandamentos ou padrões.
Mas é com tudo isso que aprendo, me corrijo e repreendo.
É o caos. O absurdo do viver em estado de sítio.
Nada compensa porque nada é para ser compensado.
Mas tudo é para ser feito, para equilíbrio de compensação.
Ninguém se interessa pelo que não quer,
Mas passa a vida a lutar com isso. Perde o tempo nas lutas do não querer
Deixando o que quer na agonizante espera.
Estou farta de ser assim, farta do meu corpo físico, incapaz e incompetente.
A minha alma não merecia isso.
Merecia alguém que a conseguisse entender,
Explicar, descodificar e não fazê-la rodopiar.
Não chego para ela, eu sei, mas que posso fazer?
Tenho tentado de tudo, mas sinto a incapacidade do meu ser.
Não sei se é ela que me quer vencer,
Se sou eu que por teimosia não quero perder.
É uma luta inglória, que apesar de tudo
É a chama da minha Vida!
Dina Ventura – 11 de Junho de 2009

O DESPERTAR DA RAZÃO




Tenho os sentimentos magoados. Não, não é isso, é…sentidos.

Porquê? Porque quiseram juntar-se todos numa só ocasião

E realmente deu uma grande confusão.

O espaço era pequeno para tantos. Acabaram por se acotovelar,

Querendo passar à frente de outro e mais outro, para verem

Aquele que cada um deles achava o mais importante. Mas como são tantos,

Quantos tantos importantes existirão? Até o que foi para ver o seu

Se tornou importante e primeiro para outro. Mas nada disso entenderam.

Apenas pensavam e não sentiam e todos queriam falar e ter razão.

Não se entendia, como sentimentos, apesar de diferentes,

Não pensassem no que são.

Como pode ser, querer ser o que não é e sim o que um outro será?

Não pode. Primeiro terá de ser, para depois conseguir perceber

E até poder vir a ser, o que outro sentimento seria.

Não o mesmo, porque esse é outro, mas o seu, pois nenhum cabe no que não é.

A razão não é sentimento, mas é. E misturou-se, sentou-se e reacendeu a discussão.

Seriamente convencida que tinha a solução.

Mas não, não tinha porque cada sentimento da razão não chegava

Para explicar a razão de cada sentimento.

Assim sentimentos e razões não se entendem, enquanto não entenderem

Que talvez a luta que travam entre si, não deixam de ser sentimentos!

Os sentimentos despertam

As razões alertam

Os sentimentos iludem

As razões desiludem

Os sentimentos sonham, as razões acordam, mas esquecem-se

Que os sentimentos despertam a própria Razão!

Dina Ventura – 11 de Junho de 2009

QUERO PARAR - CONECTADA NA DESCONEXÃO - A ESSÊNCIA DO CHORO

by: dv

Hoje a alma chamou-me à razão!

Fez-me sentir de forma pesada o trato que lhe dou.

Senti-me humilhada perante ela, quando me fez sentir de forma profunda

Que sou única. A única que não quero ser!

Sinto-me desamparada, desprotegida e questiono o que afinal

Querem de mim!

Se sou e não pareço ser, que posso fazer? Não sei!

Sou confrontada comigo e choro porquê?

De tristeza? Não. De medo? Não. De estar perdia? Não.

Então porque choro? Não consigo explicar.

Raiva não sinto… tenho apenas ânsia de saber…

Vontade de me conhecer para Conhecer.

Sinto que tenho algo em mim que não me pertence…

Talvez seja isso que me faz chorar…ter em mim algo que não é meu.

Não estou a escrever para ser poesia, prosa poética ou coisa nenhuma,

Ou o que lhe possam chamar!

Estou apenas a chamar até mim, o que me está sempre a escapar!

Só me foge porque não sei o que é, mas sei, só não sei explicar!

Que faço aqui? Para que estou? Sempre fiz esta pergunta e

Ainda não sei ou não me convenci!

É um desprendimento total, algo dentro de mim me puxa para lá

Tirando-me daqui.

O escrever faz-me contactar comigo, faz-me entender

Faz-me não enlouquecer!

Não sei se sinto, se existem os sentires,

Não sei o que sou e sei, mas acho que nunca saberei.

Pois quando parece que sou, deixo de ser! Não consigo entender!

Mas sei que sou verdade, sinto-a dentro de mim.

Só não sei como a usar e se tem algum fim…

Já chorei de raiva, de amor, de tristeza, de alegria,

De dor e de pura cortesia.

E agora porque choro se não sei porque o faço?

Será que a essência do choro é isso mesmo e apenas?

Fazê-lo sem sentir ou permitir e deixá-la fluir?

Sinto-me embalada nele provoca-me sono, cansaço exterior…

Preciso repousar. Parar o meu físico para a alma se libertar.

Vou dormir e sem horas para despertar.

Talvez quando regressar ela me traga as repostas que estou a precisar.

Não a consigo entender, o ver apenas, apaga-me a Visão, a compreensão.

Quero ver doutra forma, com outro tipo de visão.

Quem sabe se aí, tirarei a conclusão.

Não sei se me lêem, mas isto não são palavras.

São emoções, são sentires profundos

De uma alma andando pela imensidão

E deixa o corpo que habita numa grande confusão.

Sem rumo, sem utilidade e sem opinião. Afinal que Querem de mim?

Não estou a percepcionar, preciso doutra Visão.

É dura esta luta…entre mim, eu e a Razão da razão.

Despedaçam-me. Em fracção de segundos, fazem com que percorra mundos.

Como posso captar? Concluir, definir, entender e aceitar?

Não me sinto eu, sou outra ou outras, mas que sei serem a mesma!

Porque se partem? Porque se dividem sem me respeitarem,

Ou pelo menos pensarem no que provocam. Acho que pensam e sabem

E por isso o fazem, para que eu aprenda a lição que me querem ensinar.

Mas hoje não queria aprender, queria apenas ser

E por isso vou dormir. Não são horas para isso!

E que tenho eu com isso?

Não quero saber, não quero ouvir, não quero ler, nem pensar.

Quero parar!

Dina Ventura – 11 de Junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

PARA SEMPRE

by: dv

Ocupada num trabalho trivial

Que em nada se relaciona com a concentração,

Chamaram-me à tenção duas palavras: para sempre.

Não entendi porque pensei nelas, porque o pensamento as trouxe,

Ou porque elas simplesmente se infiltraram nele.

E lá estavam, perenes, sem dar sossego,

Gritando como martelos de aço na minha mente.

Define-me!

Mas que conversa era aquela, que quereriam elas de mim?

Dou comigo a falar com elas e a dar-lhe respostas

Como se de gente se tratasse.

- Mas que conversa é essa? Você é que têm de saber o que são!

Era só o que me faltava!

Dantes procurava palavras para conseguir escrever,

Agora são elas que me procuram para que eu as escreva!

Que significa tudo isto?

É o contrário dos contrários?

São elas que não se conhecem ou apenas aparecem

Para que eu as conheça?

Para sempre, é igual a nunca, podendo também não o ser.

É algo que não é definido, não tem tempo, não tem história

Mas faz parte da História.

É algo etéreo, efémero e quimérico, podendo dizer o contrário.

Para melhor as definir situo-me num ponto.

Num ponto com espaço para a imensidão.

Que vejo? Nada, para além dum horizonte circular

Sem principio nem fim!

É isso! Vocês não passam de um sem principio, meio ou fim,

Apesar de se acharem um todo e um tudo.

Mas será que não são?

Não sei “para sempre”, não sei que vos diga ou que te diga.

Não sei se são uma ou duas, ou se não serão nenhuma.

Se ficassem separadas, facilitaria a vossa descrição.

Era uma definição mais concreta,

Mas dessa forma que parece até correcta,

Deixavam de ter definição.

Dina Ventura, 10 de Junho de 2009



ESPIRAL

by: dv

Sinto-me mais perdida quando encontro,

Do que quando me sinto encontrada na busca.

Ou de que quando me encontro perdida.

Sempre me encontro em diálogos contraditórios

Que parecem estudados para serem complicados,

Pouco perceptíveis ou até ignorados.

Mas nada disse me parece que seja!

E sim o facto de realmente o que tenho dentro de mim

Se revelar dessa forma.

Anos e anos a questionar o porquê.

A escrever por outras palavras o mesmo tema

E parece que não saio do mesmo lugar.

Mas não é essa a situação e sim talvez porque a subida é uma espiral.

Ao girar as suas linhas quase se tocam…

Mas mesmo a escassos milímetros são distantes

Em movimentos constantes.

Não tenho a noção do ponto único da espiral!

Será que existe ou é tão para além que deixa de existir,

Existindo apenas em mim?

Nada sei do que nela se passa. Dentro ou para além dela.

Só sinto que ela é, está e que me faz movimentar.

Ora lenta, ora rápida, ora esquecida de mim

Por não me conseguir decifrar.

Dina Ventura 10 de Junho 2009





segunda-feira, 8 de junho de 2009

EM VINTE CINTO DIAS

Enquanto descanso penso.

Escrevo e canso-me de não conseguir.

Não é isto que quero. Sinto-me, mais uma vez, incapacitada.

No mar das letras flutuo, sentindo o enjoo devido à ondulação.

É um mar agitado, revolto até,

Mas tornando-se tão calmo à medida que se mergulha.

Quanto mais profundo mais calmo.

Apesar das correntes por vezes bem fortes,

Que se não nos precavemos nos arrastam, quem sabe para o abismo.

Tal como velhos navios naufragados,

Perdidos nas profundezas, mas repletos de tesouros cobiçados,

Mas que só aos mares pertencem.

Reagindo às vagas, respiro às escondidas renovando o ar.

Esquecimento no mergulhar profundo desse desconhecido.

Curiosidade receosa do que se poderá encontrar,

Ou receio curioso de não haver nada para Além.

Queda flutuante, rasando o que aí permanece.

Passagem brusca sem de nada se aperceber,

Constatação da Existência, sem no entanto poder provar.

Abandono consciente, ao seu próprio conhecimento.

Rochedos gigantes, que mais parecem grãos nesta imensidão.

Termos de comparação em queda livre.

Sonolência adquirida com o passar dos dias.

Mergulho esgotado rendendo-se ao cansaço.

Despertar longínquo enquanto flutua,

Descrevendo factos ao sabor do tempo, sem Tempo,

Como Memórias sem fecho de contas.

Nada de obrigatório a apresentar,

Apenas simplesmente representar o que vai no espírito.

Liberto ou não o que conta é que está e quer estar.

Esforços nunca em vão para conseguir algo,

Mesmo dificultado pelo emaranhado de tarefas.

Apenas quero teimar. Tentar a participação de mim com o que faço.

Não há uma sequência lógica, mas terá necessariamente de existir.

É apenas a demonstração dos Estados:

Do que se passa com um ser que vive,

Que vai vivendo, olhando para o lados

E por vezes centrando-se em si e nos outros.

Vão haver muitos cortes, passagens bruscas,

Mas de nada adianta tentar refrear o instinto.

Vou-me repetir, vou-me desdizer, Vou.

Vejam que coisa inédita escrever sem escrever.

Confissões absurdas a um papel rascunho,

Projecções do espírito apenas porque existem

E não por quererem ou não serem capaz de dialogar com outros.

Espíritos ou não, algo reage ao que se poderá chamar de pensamento.

São engrenagens complicadas do Ser, que o ultrapassam em Sabedoria!

Como pode o Homem conhecer-se, se a si próprio se ultrapassa.

Ou será que há partes dele que não lhe pertencem?

São questões e mais questões que fazem mover geringonças,

Que funcionam como lubrificantes das cadeias cerebrais,

Irritantes porque nos fazem tropeçar nas armadilhas

Que sem nos apercebermos da sua matéria-prima as adoptamos.

Sentada, olhando uma planta, penso

Livre, no meu estado de vida.

Pergunto-me o quê de existir desta ou daquela forma,

Em espaços limitados, mas sem no entanto me limitarem.

Entrego-me a estes pensamentos isolados, não me deixando estar só.

Reconheço a falta de originalidade ao questionar-me,

Mas reconheço que se torna útil para a minha sobrevivência.

Sobrevivendo, recuso que quem quer que seja me tire essa hipótese.

Não quero morrer para a vida, quero lutar por ela,

Lutar pelo lugar que ela me deve.

Sinto-me embalada no doce soar das palavras,

Como se o tal mar revolto se tornasse gradualmente calmo.

Chamem-lhe acessos de romantismo ou alimentar de ilusões.

Não importa, o que conta sim é o brotar de algo em mim.

O renascer de capacidades inatas, talvez, mas que necessitam ajuda.

Há que cuidar do que de bonito existe à nossa volta.

Porque não olharmos para dentro de nós, apreendermos o geral

E com gestos precisos como ceifeiras experientes, fazermos a monda.

Das ervas daninhas arrancadas, há que fazer nova escolha,

Quem sabe se em local adequado não se tornarão necessárias também.

Há que aproveitar tudo o que em nós existe, encaminhando-o,

Fazendo-se enxertias, regas constantes, renovando a terra e fertilizando-a,

Procurando assim que dessa seiva bruta, surja uma seiva elaborada

Que nos permita alimentar o espírito na máxima transparência.

Reflexos de águas movimentadas de um simples riacho,

Mas que possuem o elemento primordial do mar imenso.

Nuvens que espelham nas águas, em tom escuro, a sua cor clara.

Choques violentos no encontro de águas, numa foz distante.

Não sanidade mental para prosseguir viagem.

Arrependimento do que está feito, sem alteração no que se faz.

Cursos errados de águas apressadas, impossibilitadas de mudança de rumo.

Enjoo das águas, impulso do corpo para mergulhar em terra firme.

Terras desconexas, sem nomes certos.

Tal como a vida, não passando de meras comparações.

Procura incessante do ponto primeiro da não comparação.

Por vezes não se entende porque não existe comparação, mesmo que haja.

E lá se prossegue na luta até encontrar, nem que seja apenas a sombra da comparação.

Assim se vê, comparando, qual ourives avaliando o seu ouro.

Ao compará-lo com o que ganhou recorda apenas o que de real possuía.

O ouro foi-se, restando apenas o que o substitui,

Mas que será trocado por outra coisa qualquer.

Comparações.

Gosto do quotidiano. Exemplos simples de um dia,

Que um dia serão mostra de uma vida inteira.

Recorremos ao chamamento da Ordem do Dia.

Ordenam-se diariamente as desordens dos futuros,

Enervamo-nos de passados que são presentes nos dias.

Recorro.

Reavalio o que existe, inventariando desejos,

Partindo de início, crente no indeferimento...

Léguas e léguas de tempo inútil, sem no entanto saber se o é.

Esgotamento. Procuras sem norte que se afundam no que são.

Retrocessos constantes apoiados em esperanças inválidas.

Pessimismo obcecado de quem verseja em estrofes.

Vontade louca de alongar a escrita, multiplicando os versos.

Fileiras sem fim de Verso que ninguém saberá rimar.

Cortes radicais nas rimas dos versos, apenas criar...

Encosto a cabeça em pensamentos já gastos, vou versejar:

Não consinto que me mexam

No que eu o própria não encontro

Nas ideias que me fecham

E que me põem em confronto.

Estou farta de versos rimados, contados e certinhos.

Vou lê-los porque são certos e ouvi-los porque soam,

Mas quero os meus bem chocantes, qual máscara exótica em pleno desfile clássico.

Objectivos? Não será chocar, mas sim renovar.

As minhas ideias serão puxadas, confrontadas e destruídas se necessário,

Porque eu também tenho os versos em melodia certa.

Há que alterar.

(in: nas asas do vento encontrei orixá - Dina Ventura)

O DESÂNIMO COM AS TINTAS

by: dv

A origem do pensamento

Gostava tanto de conseguir transpor esta barreira.

Será que não consigo acompanhar o meu pensamento?

Vejo coisas tão lindas e quando as quero materializar

Só apanho migalhas! Porque não é tudo directo,

Sem arranjos nem palavras? Penso, olho e fica gravado.

Não, não será gravado, será reproduzido

Para conseguirem vê-las também!

Por vezes pode produzir um efeito que eu não quero

Porque já não é tão pensamento!

Sabes, tu és parte dessas coisas, és um PENSAMENTO.

Um pensamento bonito e por vezes,

Como existem “os materiais” tens de ocupar o teu duplo lugar.

Então eu perco-me e tenho de desdobrar o pensamento.

E sabes? É tão difícil!

Eles lutam e vão lutando sempre até se encontrarem no PENSAmento!



Desorientação ou imodéstia

Mas porque sou eu assim?

Queria neste momento não saber pensar ou então,

Pensar que não penso. Deixar de pensar durante cinco minutos,

Para ver o que pensava, sem pensar! Seria assim? Ou tudo seria diferente?

Mas tudo o quê? E que diferente?

Tudo o que é agora já o não seria depois

E assim deixaria de ser eu e seria uma outra pessoa,

Com o mesmo problema de já não querer pensar!



Sem sentido

Medo, angústia,

São coisas que sinto

Talvez com a sensação

Que poderei perder o que de bom ainda possuo.

Será pessimismo? Talvez, mas a vida não passa disso.

E que me vale pensar nisso? Nada talvez, mas eu não posso sair,

Do lugar onde estou

Porque esse lugar é a vida, A minha vida, feita de pequenos nadas!

Nadas tão grandes que me dão e tiram tudo!

Para mim tudo é nada, tudo são vidas

São nadas!




domingo, 7 de junho de 2009

CHAMAR A razão À RAZÃO


Sentei-me com a razão e questionei-a:

Preciso que me respondas às perguntas que não fiz.

E a razão, sem razão aparente não ouviu, apenas se levantou e saiu.

Ou mentiu?

E agora que faço sem ela? Recorro a quê, à razão de não a ter?

Ou ao ter, sem ter razão?

Mesmo que não saiba o que ela diz, posso-me aperceber,

Sentir se a razão está feliz e se é o que diz ser.

Nem sempre se percebe o que diz

Subentende-se o que ignora.

Se o sabe, não o nega, se o quer não desdiz.

Apenas recorre à fuga para não ser infeliz.

É o que a razão quer. Lutar com o que pode e não quer.

Retirar poder ao que não tem.

Deixar para os outros o que sobra sem ter de provar a ninguém.

Ignora simplesmente sem razão, o que a razão lhe mostra.

Julga que no fundo tem a semente, da árvore que já está morta.

E na sede de não perder, acaba por não alcançar.

Recorre ao que a razão não quer mas vai se deixando arrastar.

Dina Ventura - 6 Junho 2009

sábado, 30 de maio de 2009

PINTURA

sexta-feira, 29 de maio de 2009

EXPOSIÇÃO DE PINTURA 1 A 30 DE JUNHO FOYER DA AULA MAGNA DO POLITÉCNICO DE VISE


Acrílico - 2009: Totem
Dina Ventura

TOTEM - Há a divisão do religioso e do profano. Mas até que ponto existe essa divisão?.Não passa de uma tela, pintura ou desenho que corresponde aos emblemas heráldicos, brasões da minha alma em aperfeiçoamento, simbolizando a prova da minha identidade como pessoa. A pintura é o meu "dodaim", etimologia da palavra Totem, ou seja o lugar onde moro dentro de mim.

domingo, 24 de maio de 2009

INCAPACIDADE

by: dv

Os três estados dificultam o dizer.

Por serem três fazem com que me perca.

Há sempre o perder algo até chegar.

Vejo lá dentro, sinto e escrevo, perdendo grande parte do que era.

Fica muito pouco.

Mal consigo conter a raiva perante a incapacidade.

Então volto-me para ela, porque não?

Se ela existe é por alguma razão e é a ela que terei de pedir ajuda.

Essa incapacidade sente-se perseguida e atraiçoa-me,

Com pensamentos duplos, triplos,

Até que finge compreender-me para que eu não a veja.

Desculpa-se com os estados, com o pensamento descodificado,

Com a surdez interior.

Chama-me de inferior.

Ela vive dentro de mim, eu sou a sua casa.

Então é ela que me conhece, é ela que ordena.

Há a revolta. Ri-se de mim.

Ela é que me abandona quando quiser,

Quando esta casa já não lhe servir, sai.

Há tantos lugares por aí.

Mas sinto-me satisfeita porque me apercebi dela.

Tornou-se um fardo, um peso que não me faz vergar.

Mas faz-me pensar, agir e tentar

Encontrar a melhor forma de a transportar...

... Incapacidade.

(In: nas asas do vento encontrei orixá) - Dina Ventura