quarta-feira, 17 de junho de 2009

OS QUATRO ELEMENTOS + UM

Dizem que alguma escrita denota uma alma inquieta, remexida e em busca.
É uma verdade.
No entanto, ela está sentada, quieta, serena, tranquila e apenas medita.
E medita através da escrita.
Evolui na contemplação do que imagina,
Nos caminhos que percorre, mesmo com os pés magoados.
Nada a faz parar. As asas? Queimou-as de tanto pensar.
Mas pairou! Nem delas precisa para Voar!
Flutua no mar, em terra, no ar e no fogo.
Ela é mais um elemento dos Elementos
E sendo o principal para que eles existam.
Sempre se esquecem de juntar o seu nome ao deles.
Porque será?
Porque não se vê e confundem-na com o ar?
Porque é essencial e a misturam na água?
Porque é terra e a colocam nas profundezas?
Ou porque é fogo e têm medo de se queimar?
Não, ela é tudo isso sim! Mas mais ainda…
Ela é os Quatro Elementos mais Um.
Dina Ventura – 17 de Junho de 2009

CONTACTO DO ESPÍRITO

É algo que não se vê, mas se torna palpável.

Não se consegue definir porque não tem definição.

É, simplesmente, uma sensação:

De calor que envolve de forma serena e amena o coração.

É uma mão invisível, sem forma e sem volume.

É transparente, mas quente e envolvente.

Trespassa o físico, o não físico e queda-se inerte!

Quando se ouve, transforma-se em melodia suave

Assumindo a transcendência do som, num tom ritmado.

Acelera na chegada, atenuasse na permanência e acentuasse quando parte.

Quando se vê, deixa de se ver e, apenas se pressente que está presente,

Vivo e que apesar de ser dimensão, se esforça para não magoar.

Porque a luz é tanta que pode cegar!

O seu cheiro, não tem cheiro, apenas anestesia o ar

Que ao ser respirado purifica, sendo depois arremessado.

Sabe a algo, que se imagina mas que não combina com os sabores existentes.

É a reunião de todos, transformando-se na essência.

O tacto apenas se consegue alcançar, se a alma o quiser tocar.

Dina Ventura – 17 de Junho de 2009

ENCANTAMENTO E POESIA


O encantamento é a acção que a filha do Sol exerce junto dos outros,

Para poder manter junto de si o que deseja.

Apesar do que Circe fez, que comove e faz pensar

Não tinha o direito, de por egoísmo, aos outros retirar.

Mas tudo é possível na poesia, tudo se pode alcançar.

Sem verso, sem rima, sem concreto ou abstracto, tudo se pode realizar.

Não existem barreiras, nem fronteiras, críticas ou bandeiras.

A nação é só uma!

Lá, ninguém pertence a nenhuma.

É o centro do universo, dento do Universo em centro.

Reflecte-se em si, fora de si, num encontro intimo que só a ela pertence!

Nem todos a entendem, mas todos se deleitam,

Tentam interpretar, copiar, redigir e reflectir.

Pensam que conseguem, mas o encantamento não deixa.

Existe nele a falsa dor, a dor do falso sentir, no sentir o que é a Dor.

E aí se perdem os poetas, os realistas, os pensadores e até doutores.

Ditam, reescrevem e fazem da poesia o que quiserem.

Mas ela é Ela, sem rodeios, anseios ou pretensões.

Está-se nas tintas, com as tintas do que pretende pintar.

Sim, porque poesia não é escrita, poesia não existe,

Ela apenas subsiste e persiste na imensidão do Ser.

Dina Ventura - 17 de Junho de 2009

DEIXEM SER

Como podem as pessoas pensar, apenas apoiadas no que vêm?
Dá-me angústia se um dia eu o fizer dessa forma.
Imagino fazê-lo e deixo de Ver.
Porque serei assim? Porque consigo enxergar para além do que vejo?
Sinto-me incapaz de ver.
Nem quero saber o porquê disso, nem o porquê do contrário.
Apenas quero que me deixem ser, o que um ser é capaz de Ser.
Todos deixam. Têm de deixar, porque não são eles que vêm por mim.
Eu vejo da forma como quero, penso e sinto.
É bom, é mau, é complicado? Será.
Mas é assim que eu fui, sou, serei e voltarei a Ser.
Nada me pode mudar até que alcance, o que está ao meu alcance
Estando para Além de mim.
Não é complicado é, simplesmente, muito simples quando descodificado.
Falam em personalidades duplas, triplas e até absurdas.
Mas que sabem de absurdos os que não Conhecem o que é?
Que afinidades sentirão com o que não conhecem nem são?
Deixem Ser e sejam apenas!
Dina Ventura – 17 de Junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

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AMOR - PARTILHA E DÁDIVA

by: dv

O que se sente quando se gosta? Todos perguntam! É prazer? É paz? É medo?

É um misto de angústia e bem-estar. Um medo de estar perto por depois já não estar?

Nada consegue controlar o Gostar profundo e oculto, que não se sabe a origem.

Tudo deixa de ter valor e tudo passa a ser valorizado.

São contradições em catadupa que acabam por colidir, eliminando-se umas às outras,

Restando apenas, a certeza de que se gosta e que não vale a pena analisar.

O Gostar, é o sofrimento no seu mais sublime elemento. É o contra-senso do que é verosímil.

É o não se querer, por se saber que quando se tiver se perde o que tanto se quer preservar.

Nada se explica. Apenas acontece. É a alma que não se conforma com o que sente,

Não quer deixar de sentir, mas rejeita para que não acabe.

O gostar só se alivia quando sublimado, na dádiva da partilha, sem nada pedir em troca.

Mas não conseguindo deixar de lutar ferozmente, para não querer.

Só os poetas conseguem definir o verdadeiro gostar?

Por ser sofredor e alimentar a chama da poesia?

Do prazer enaltecido pela perda e pelo abstracto do concreto?

É por essa razão que talvez as contradições sejam os ditames do Gostar.

São convulsões internas, que constroem e destroem ao mesmo tempo,

Não se conseguindo edificar nem destruir. Será que há explicação para tais sentimentos?

Não, não há. Há pedaços de explicações, de momentos e de fragmentos

De pequenas coisas, que nos podem amenizar a dor de gostar.

É uma ferida sempre aberta, com vontade de se curar, mas sentindo prazer no sangue que derrama.

A entrega não é o bastante, nem suficiente, nem o caminho para o saciar.

É o saborear da dor que faz com que cresça e se torne palpável, audível e visível.

Tudo é bom e mau ao mesmo tempo, analisando-se mutuamente, trazendo a paz que a alma anseia.

Sente-se o aperto interior, que leva a ponderar porque dói. Não é por se sentir ou não sentir

E sim, porque é algo vivo, que tem vontade própria e que apesar de ser nosso não nos pertence!

É como guardar um tesouro pelo qual somos responsáveis, mas que não é nosso

E talvez por isso o medo imenso de o perder.

Ou que, descoberto o seu esconderijo, não tenhamos meios para o defender,

Contra os males do mundo e dos seus habitantes! É, uma ânsia constante de sobrevivência.

Empenho para encontrar caminhos, que nos conduzam a fugas seguras e que mais ninguém conheça.

É um bosque sem caminho demarcado, mas que nos dá a certeza, que bem lá no meio existe,

A gruta ideal para guardarmos esse tesouro, que não é nosso e a que ninguém pode ter acesso.

Mesmo sem caminho certo, embrenhamo-nos nele.

Quanto mais o fazemos, menos possibilidades temos de encontrar o regresso.

Que mais fazer? Avançar, ir em frente, sem perder a esperança, que algures estará o refúgio

Que pensamos existir mas ninguém conhece.

Existem palavras que todos queremos encontrar para poder definir e sentir, o que representam.

O Amar ou Gostar é uma delas. Apesar de sentir que magoa, o Amor é a Vida,

É o encontro com ela, entender-se e saber porque se está nela.

Assim se apaziguam todas as dores sentidas, pois todos os prazeres serão estragos,

Se não se aceita a vida e o que se faz com ela. Amo. Porque sinto dor. Isso é amar.

Contraditório? Não. Apenas uma forma de amar sem pedir nada em troca.

É uma dor, mensagem de Amor, de Paz e de Dádiva.

Não estou a inventar nada, que alguém ainda não tenha inventado.

Apenas estou a viver, de forma intensa, o que talvez muita gente não se atreva a fazer.

Que provoca? Talvez alhear-me um pouco do que me rodeia,

Centrar-me um pouco mais em mim e a fixação de atravessar o bosque,

Para poder repousar um pouco naquela gruta que sinto existir.

O choque de sentires anula-se e é nesse espaço neutro que me centro,

Respiro e preparo o dia de amanhã.

Amo a Arte e quando ela me corresponde sinto-me preenchida, apesar de saber,

Que possivelmente não lhe correspondo como ela merecia.

Na escrita, ela não quer que eu a repita, mas como farei isso?

Eu que não a sendo e sendo eu, como poderei dizer sem me repetir,

Se eu própria me repito e cometo os mesmos actos, erros e atitudes,

A um ritmo cadenciado de vivências e hábitos.

A escrita insurge-se contra ou a favor, mas nem sempre se deixa alcançar como o interior desejaria. Há algo sempre intransponível, de acessibilidade tortuosa,

Que as palavras não podem, nem conseguem definir.

Os recantos da mente têm uma capacidade deturpadora das sensações flutuantes.

O que é agora, acabou, ao ser escrito quase é obsoleto.

É a revolta das letras e a vontade de rasgar o papel.

Faz bem escrever, mas dá raiva e vontade de destruir o que se fez,

Por não se acreditar no que se disse.

São tudo contradições, num estado de vida com muitas razões de ser

E sem se conseguir enunciar nenhuma.

Há a felicidade da solidão e a tristeza de estar só.

Há, a luz de amar, sentir-se amado e não sentir o Amor.

Há sempre um retorno, mas nem sempre nos encontramos no local onde vai desaguar.

Ou por atrasos, ou por desvios de percurso e aí estão os desencontros com os retornos.

Mas é por essa razão que devemos abandonar a dádiva? Não.

Eu sinto que não, não sei é porquê. Será uma obsessão querer evoluir?

Será um convencimento egoísta de querer chegar a um patamar, que o ser humano não pode chegar? Então isso quer dizer que sou pouco evoluída.

Sim, porque se nem o que sou eu sei, afinal o que serei?

Mas acho, pressinto em mim algo que não tem explicação.

Serão um conjunto de “mins”. Como entendo Fernando Pessoa.

Mas como conviver com toda esta gente que nem conheço

E que sentem e pensam de forma tão diferente? Que fazer com todos esses males e bens?

Escrevê-los? Falá-los? Ensiná-los? Ou pura e simplesmente silenciá-los?

Mas não posso fazer isso, pois ficaria sem capacidade de comunicar.

Mas há uma vontade em mim, muito profunda, de descobrir

Um outro Eu, que sei que está lá e que ainda não se apresentou.

Porque não o conhecerei ainda? É uma incapacidade de ir mais além,

Que me restringe ao espaço que ocupa, que é mais longínquo

Do que consigo alcançar! Será a loucura? Ou os tormentos da dor,

Que anestesiam as capacidades do intelecto inconsciente?

Há a capacidade de voar, mas a construção das asas é um enigma.

Ultrapassar o pensamento, o sonho, a escrita, a pintura e o transcendente.

Não sei o que será. Não sinto vazio ou ausência, sinto sim,

O peso da presença e a quase explosão para se libertar.

Tenho de procurar ou encontrar, não do que sinto a falta,

Mas sim da intensidade da sua dimensão, que me consome

Na árdua tarefa da descoberta do que existe.

São coisas que não podem ser ditas ou escritas porque não existem definições,

Apenas são audíveis no interior.

Sinto-me por vezes estranha, num mundo estranho, que não me assusta, nem me mete medo,

Mas deixa-me sem reacção e faz-me sentir impotente para essa Busca.

Estou um pouco desinteressada pelas pessoas, pelo desumano que há nelas.

Acho que é isso. Falta de verdade, de pureza e nobreza, estou cansada!

Mas no entanto também não é. Sinto distância, não a nível emocional, mas a nível real,

Pelo menos é assim que estou a sentir hoje. Sei que amanhã deverá ser diferente.

Tudo estará diferente amanhã, apesar de parecer tudo igual.

Gostava de saber descrever este estado de espírito. Mas não tem descrição.

É algo leve, afastado, interiorizado aceite e próximo de mim.

Não vou responder à questão se sei porque estou a escrever desta forma,

Porque, claro que sei, se não como o estaria a fazer?

Agora posso responder é que, não gosto da forma como a caneta

Ás vezes pára, a aguardar que o pensamento a trespasse.

Isso irrita-me, assusta-me. O instrumento que eu sou

E que não está devidamente afinado para entoar,

Com transparência e clareza a melodia da Alma!

Por isso a dor nos sentimentos é a luta da alma tentando afinar este corpo,

Instrumento incapaz de entoar os cânticos,

Das vibrações emanadas pelo espírito.

Sinto-me imprestável para algo tão belo e com muita dificuldade

Em percepcionar os seus Sinais. O Universo envia-nos signos,

Todos dizem isso, mas estão sempre à espera que lhes traga resoluções.

Mas não é isso, o que ele pretende, é que nos descodifiquemos.

Que tal como Ele, o nosso, é uma imensidão de estrelas, planetas, sóis,

Buracos negros e explosões constantes.

Sempre em constante movimento e transformação.

Tenho de acompanhar esse movimento galáctico em mim.

Mas por vezes é tão rápido, que pareço não sair do mesmo lugar.

Tendo escrito sem quase a noção do que escrevi, levantei-me e parei.

Pensei nas partilhas. Porquê? Ao certo também não sei.

Talvez por ter movimentado o corpo, a mente parou.

Trouxe-me à realidade e fui puxada para a Terra.

Afinal o que procuramos todos nós com a partilha?

Que queremos afinal? É connosco, é com os outros?

Que os outros nos ajudem a tirar de dentro de nós, o que não está bem?

Ou que nos dêem pistas para chegarmos até lá, ou até eles?

Para não estarmos sós? Para podermos concretizar a ideia,

Que outros também andam em busca das mesmas coisas?

E sabemos quais?

Neste momento nada mais me apetece dizer, apenas ecoa na minha mente a música que estou a ouvir “the magical sound of the címbalo” e que é realmente um dom e um diálogo universal das almas. Bem hajam então, a todos aqueles que podem, querem e sabem partilhar com outros o seu amor por algo…o seu Amor em forma de dádiva.

Dina Ventura – 2008.12.17

MOMENTOS DE MIM

by:dv

Como são? Não têm explicação.

Hoje ao despertar não era eu.

Não me vi, não senti nada, por isso busquei em mim.

Sabia que era eu, que estava ali, mas quase não me reconheci.

Vi uma imensidão branca e senti apenas emoção.

Olhei, vi e senti, um mar imenso de palavras, palavras não, letras

Que ao saltarem, transmitiam cada uma das cores que o branco contém.

É um mar turbulento sem turbulência e macio, puro algodão.

E no meio daquilo que fazer para me encontrar?

Andar sobre ele e deixar-me flutuar!

Deixo-me embalar pelo momento e sinto,

Cada letra de um alfabeto Maior, que não consigo descodificar…

Sinto-me a pairar, sem forma, peso ou lugar.

Não sou nada, nem ninguém. Mergulhada nele, não sou ele mas estou.

E deixo-me embalar.

Para buscar em mim, não me sinto nada, Sou.

Apenas me desperta a letra que me tocou.

B – disse – não queres acordar? Que fazes aqui? Porque vieste?

Não sei – respondi – acho que me esqueci e estou apenas em busca de mim.

Que vês, posso saber? – Disse o B sem se dar conta do que estava a fazer!

Não sei explicar! Só sei que pertenço a esta imensidão, mas não sou daqui.

Que posso ver-vos sem os olhos da razão e sentir-vos com o coração.

Que quando acordo não me encontro e só me encontro aqui.

Num mar branco de letras de todas as cores

Que não me deixam parar, enquanto não as escrever.

Saltitam nas ondas deste mar diferente, sem gente, sem princípio nem fim.

Disfarçam-se de muitas, para tirar de mim.

Misturam-se em mil cores que embatem na alma transformando-se numa só!

Não há papel, nem caneta, sem sentidos para as descrever…

Embalo nas letras, busco em mim e por momentos esqueço quem sou,

Para que estou e para aonde vou. Apenas me deixo ir nesta torrente

Que não o sendo, é e me transporta velocidade da luz,

Para um lugar de Luz, que por vezes não é meu nem de ninguém.

Percebo - disse o B - pensas que estás a sonhar, mas não, essa és tu!

Fiquei a pensar! Será que o B teria razão? Aquela que digo não ser é que sou?

Deixo-me levar novamente. Flutuo no mar das letras que não tem explicação.

É algo que me arrasta, me embala, me entende, deforma e dá forma.

Transforma o que sou, apenas em Ser, que nem entendo.

Algo me tocou novamente. É um C e disse: Convence-te tu És!

Não me apeteceu responder-lhe, olhei-o simplesmente e sorri.

Vi que cor tinha mas esqueci. Deixei que me embalasse,

Que me falasse e tirasse tudo de mim.

Entreguei-me ao C de caneta, de coração,

De capacidade, de concentração e de comunhão.

E novamente me deixar flutuar em busca de mim!

Encontrei-me dentro e fora, sem conseguir sair do lugar onde estou!

Ou seja apenas em momentos de mim!

Dina Ventura - 15 de Junho de 2009




domingo, 14 de junho de 2009

INJUSTIÇA

by: dv

A injustiça cansou-se.

Decidiu então saber porque o era.

Olhou-se no espelho e reflectiu-se.

Olhou-se, remirou-se, encarou-se e amaldiçoou a sua gémea.

A outra cujo nome herdou, mas que ao aumentarem-no, tudo se transformou.

Só porque lhe colocaram um prefixo tudo nela mudou.

E afinal, qual das duas nasceu primeiro?

E com que direitos não a deixaram escolher? Era injusto! E chorou.

Que lhe vale esse “in” afinal, se apenas lhe trouxe peso, dor e condenação?

Deu-lhe estatuto, mas o oposto ao da irmã gémea.

A quem todos apelam, idolatram, veneram mas não respeitam.

A ela desprezam-na, odeiam-na, maldizem-na

Mas é com ela que mais se identificam, que usam e abusam

Acusam e maltratam, desculpando-se com ela.

Isso é muito injusto...pensou a injustiça. Que mundo este!

A justiça deixa o “in” e coloca-o na irmã gémea,

Lava as mãos como Pilatos e diz:

Tu! Tu és a culpada!

Foi um prefixo que tudo mudou…e novamente a injustiça chorou.

Por ter sempre consigo o “in!” que não a deixa viver em paz.

Para a justiça se mascarar e se proteger

A injustiça teve de nascer!

Dina Ventura 14 de Junho de 2009



CRIATURAS PRIVADAS DO POSSÍVEL

by:dv

Olhando de relance para a frase nada me diz, apesar de tudo conter.

Quando olhamos para algo e não se consegue decifrar que fazer?

Desistir? Ou simplesmente desmontar?

Ver peça a peça ao mais ínfimo pormenor para poder continuar?

Pois é o que vou fazer e ao pegar nas criaturas, transformo-as numa.

E passa a significar cada um dos seres Criados.

Homem, ser, pessoa que no sentido figurado

Muito deve a outrem e lhe é inteiramente dedicado.

Tenho orgulho em ser criatura e privar.

Pois privada também significa coisa íntima, privativa, só sua.

Assim privar com, ou seja relacionar-se com o possível,

Que simboliza o que pode ser, que é praticável

O que pode acontecer.

Pode ser com empenho, esforço, diligência, esmero e inteligência.

“Deus criou o melhor dos mundos possíveis”

Esta máxima do filósofo Leibniz, exprime tudo o que ela contem.

Que cada um, à imagem do criador promove o melhor mundo,

Dentro do que o seu entendimento concebe como possível.

E aí está: só possível quando se trata de uma criatura.

Pois quando passa a plural, tudo se torna mais difícil

Pois cada uma delas, realiza o melhor no seu mundo possível!

Mas como a cada um cabe o seu, nem sempre o possível o é.

Tornam-se, quem sabe, personagens, actores da realidade,

Onde desempenham o papel que lhes cabe.

E de verdade, na irrealidade, assim desconectados

Privam-se do possível e navegam no inconformismo existencial,

Das criaturas privadas do possível!

Dina Ventura 14 de Junho de 2009




sábado, 13 de junho de 2009

ANONIMATO

by: dv


Tema de difícil acesso, que não me permitia escrever sobre ele. Porquê? Nem eu sei talvez por nunca ter pensado nele, ou melhor por nunca o ter sentido. E que sentido tem escrever sobre o que não se sente? Faz, nem que seja por desafio. Portanto vou falar sobre ele. Mas é tão complicado para mim, que só pode sair coisa complicada. Quando isso acontece é porque algo não está esclarecido então vamos ver o que consigo saber!

De origem grega “sem nome” este senhor é uma qualidade ou condição do que é anónimo e sem assinatura. Da sua origem provém obras muitas antigas às quais não se podem atribuir os autores mas que valem pelo que são. Será que foi isso mesmo que eles entenderam à altura e apenas faziam pelo simples facto de o quererem fazer? Mas por outro lado também pode ser parcial, pois no meio de tantos outros o que representa mais um afinal?

Quem sabe se o anonimato não carrega também a cobardia?

Mas com a evolução tecnológica, também se tornou doutor, passou a acto opcional de permitir manter a identidade escondida de terceiros.

Sem deixar de ser substantivo e portanto o que designa uma substância ou um ser, que designa qualquer coisa, animal, pessoa ou planta, acaba por se contradizer e não definir coisa alguma.

Pois, representa um estado sim, mas do que é anónimo e, nesse caso, um sem nome. Mas é também um sistema de escrever, pintar ou algo fazer sem assinar. Mas um autor desconhecido que não passa desse estado, deixa de ser? É muita ingratidão. Mas também é um palavrão que se chama desinviduação.

Não é tão simples estar no anonimato por tudo o que pode ou não conter. Melhor seria sair dele e não se contagiar com o que dele advém:

Com estimulação sensorial em excesso, concentra os recursos cognitivos na integração e interpretação de todos os estímulos. Sobrando muito pouca disponibilidade para reflectir sobre as suas acções, contribuindo assim para esse estado de palavrão imenso, quase não tendo consciência disso mesmo.

A auto consciência reduzida, pode conduzir à diminuição do medo de avaliações negativas. Resumindo e “descomplicando”, se não sabem quem sou posso fazer o que me der na real gana, para bom português correcto e palavroso.

Mas continuando na forma ritmada do estudo científico, apercebo-me que com os recursos cognitivos concentrados na interpretação de toda a estimulação sensorial que recebo, perco a disponibilidade para manter o circuito de feedback responsável pela auto avaliação e consciência das acções activas. Assim, posso tornar-me menos consciente de mim e do que faço, aumentando o palavrão. Desindividuação.

Esta diminuição é potenciada pelo embrenhar-me na multidão, aí perco a minha individualidade pessoal, se é que a perco, para adoptar uma identidade de massa. Na “alma colectiva” a mente individual funde-se, podendo converter-me num ser sem vontade própria e disso me esquecer. Posso concluir que o anonimato liberta a consciência, pois não corro o risco de ser descoberta, apontada ou criticada. Não darei aos demais a possibilidade de me criticarem, de me avaliarem pela minha ausência substantivada.

Induz-se o anonimato “despindo” o indivíduo das suas características individuais ou seja, daquilo que faz dele o ser único, ou melhor ainda, impossibilita os outros de o reconhecerem individualmente, faz-me até acreditar que não serei reconhecida.

Grito que quero sair do anonimato e grito porque ao sair, sou apontada e é-me incutida uma certa difusão de responsabilidade ainda maior, donde advém a sobrecarga de dados sensoriais.

Mas que carga de trabalhos!!!!

É muito controverso o anonimato. Quando assim se sente, será que não me torna mais permeável aos interesses da multidão? Não, não é verdade pois tornar-me-ia irracional!

Mas tenho de ter muito cuidado porque anónima no seio de um grupo pode potenciar em mim comportamentos de cariz anti-social e sem normas. Mas que digo?

Que ma pessoa ao considerar-se no anonimato, se sente um elemento estranho no meio de um grupo e que provavelmente exibe normalmente um comportamento inibido? O não ser conhecido diminui a importância que se dá às coisas ou às acções, ou às obras e por consequência da auto consciência e auto avaliação das mesmas, pela desmotivação? E isso que trará? Raiva? Impulsividade desmedida, tornar-se anti-social e anti regras, agindo sem primeiro premeditar as consequências das acções? E lá vem o palavrão. Ou será o contrário? Quando se sai do anonimato vê-se e sente-se a identidade individual reduzida, deixa de se identificar consigo mesmo e com as suas normas, adquire-se uma identidade social e nos comportamos de acordo com aquilo que o grupo vê normal? Ou será o contrário? Não se irá pensar nas acções enquanto indivíduo e reagir refugiando-se na inibição, encontrando-se finalmente no meio da multidão com um nome, que todos vêm, mas que ninguém conhece não deixando de estar no anonimato?

Muito difícil e no final fiquei na mesma! Afinal ser ou não é a questão! Bem depois de tudo isto não sei que fazer, que assine por baixo ou simplesmente deixe em branco! Mas algo interior me diz, assina porque não? Mesmo que não te conheçam talvez reconheçam que te preocupaste com o tema sem sair dele!

Dina Ventura 13 de Junho de 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

EM BUSCA DA PAZ

by: dv



Desejo intensamente que algo de bom me desperte.

Quero deixar esta solidão constante,

Este não querer nada.

Sinto uma insatisfação dentro de mim.

Tudo o que me rodeia me é ingrato e sem sabor.

Estou cansada de olhar sem Ver.

Apenas esta luz interna me vai amornando a existência.

Mas até essa sinto desfalecer.

A caneta já se me torna pesada,

Mas ainda é ela que me faz pensar e sentir

Que nem tudo acabou.

O pensamento existe e é a esse que me vou agarrar.

Pode não ser o que desejo,

Mas é...e faz com que eu exista.

Tenho de me esforçar para não o perder.

Porque se isso acontecer, deixo de ser.

E que será de mim, só e sem a única ligação com a vida.

Ligação que faz com que lute e que tente ultrapassar barreiras,

Para chegar ao lugar onde pertenço.

Não sei qual, só sei que existe e se chama Paz!

(in: nas asas do vento encontrei orixá) - Dina Ventura





quinta-feira, 11 de junho de 2009

À LUZ DO QUE SE NASCE - E TU COMO TE CHAMAS?

Começo por vos falar de um episódio muito recente que considero especial devido à paz fora do comum que me transmitiu.

Estava sentada num banco de pedra, num jardim junto a um lago natural. As cores que me rodeavam eram muito intensas ou então os meus sentidos é que mo proporcionavam; o azul forte, quase petróleo do lago, emoldurado por um verde-escuro aberto, salpicado de várias tonalidades, a relva, os juncos bastante altos ondulantes com a brisa suave e o tecto dum azul claro intenso. Debruçando-me um pouco chegava à água que de tão parada me devolveu em reflexo. Sem susto reparei numas rugas e num rosto a que já me habituei encaixando-o no tempo. Mas ao lado do meu vi o de uma menina, era um rosto muito bonito, de olhos expressivos e sorriso nervoso. Olhei-o um pouco mais e voltando-me encarei uma criança de seis ou sete anos, magra e vestida de claro. O vestido era cor de grão com uma gola branca redonda, aberta à frente, donde saía uma tímida fita de veludo preta formando um laço um pouco desfeito. Franzido na cintura, deixava ver umas pernas magras de joelhos proeminentes e acima deles a continuação da magreza. O conjunto era rematado com um casaco de algodão da mesma cor, umas meias brancas pelo meio da perna, descaindo um pouco para cima dos sapatos pretos de verniz, que se seguravam nos pés frágeis, apenas com uma tirinha do mesmo material, presa por uma fivela.

- Olá!

- Olá que estás aqui a fazer? - Respondi.

- A olhar para ti! – Respondeu com a verdade e segurança duma criança, como a criticar levemente a pergunta para uma resposta tão óbvia.

Sorri, fazendo-lhe crer que tinha percebido a mensagem, ao que me respondeu:

- Posso ficar aqui contigo e contar-te uma história?

Acenei afirmativamente para que não me saísse nada do género: onde está a tua mãe, como te chamas, porque estás assim vestida. Sentou-se ao meu lado sem esforço, apesar de ficar a balouçar os pés, pois não conseguia que chegassem ao chão e começou:

“Era uma vez uma menina que quando nasceu foi viver com os pais para uma casa muito grande, que era dos avós. Enquanto não sabia andar, conseguia percorrer todos os sítios e ouvir todas as conversas. Ouvia a avó a discutir com o avô, não percebendo sobre o quê, mas às vezes parecia-lhe ser por causa da sua mãe e do pai. A discussão girava à volta da idade da mãe, que era muito nova e que não devia ter tido a menina, que ainda por cima o pai não prestava porque não gostava de trabalhar e que nunca tinha dinheiro, nem para comer, quanto mais para dar de comer às duas. A menina ficou muito intrigada, mas então se não a queriam porque a foram buscar e donde teria ela vindo?

Não conseguia equilibrar-se nas pernas, estava sempre deitada. Perturbava-a muito o facto de sair dali, sem sair. Era estranho porque ficava sempre no mesmo lugar, mas conseguia ver o que se passava nos outros espaços onde as pessoas falavam. A avó não fazia assim porque quando vinha ter com ela a menina ouvia sempre o som dos seus passos e via-a quando chegava, mas a ela ninguém via. Por isso é que a deixavam sempre sozinha, achavam que estava sempre no mesmo lugar, sabiam o que estava a fazer e não precisavam de estar ao pé dela...quando a entendessem iria perguntar, porque seria ela assim? Também gostava de poder andar e correr com as pernas. Mais uma pergunta era registada no bloco mental.

Assim os dias foram passando até que acordou sem conseguir respirar. O que estava a acontecer? De repente a avó entrou e o ar chegou até ela. Estavam aos gritos e a avó a dizer que o pai a estava a sufocar. Seria verdade? Não a quereriam ao ponto de lhe tirar o ar? Não podia ficar mais tempo sem utilizar as pernas. Foi treinando e sem a ajuda de ninguém, com apenas oito meses, apostou que seria capaz de descer aquela escadaria enorme de madeira e ir ter com a avó. E foi. Lutando contra algo que a puxava para o chão, decidiu com esforço virar-se de costas e descer ao contrário podendo assim segurar-se e lá foi. Quando a avó a viu começou a gritar como se ela tivesse feito algo de mal, mas depois começou a dar-lhe beijos. Foram todos ver que já andava. A menina apercebeu-se que pareciam contentes por ela ter feito tanto esforço para chegar ali pelo chão. A sensação é que quanto mais conseguia andar, menos conseguia desclocar-se pelo ar. Para ela a casa era enorme, era antiga de paredes muito grossas e muito altas. Brincava no pátio, recinto que ladeava toda a zona fronteiriça e tinha no centro uma pedra enorme. Descia por uma escadas de pedra para uma zona ainda maior onde estavam umas casas pequenas, de um lado e do outro, já sem telhados e que a avó dizia serem casas de pombos, “antigamente haviam pombos, agora não há nada...” e sem terminar a explicação avisava-a que não podia ir para lá “porque lá estavam bichos”. Esse pátio terminava ao fundo por um portão enorme de ferro, muito alto, que a separava dum mundo que nem sabia existir, mas que por vezes ela ultrapassava sem necessidade de o abrir, esgueirando-se por entre os ferros grossos. O que mais prendia o olhar da menina naquele portão, não era o cadeado que substituía a velha fechadura, nem os salpicos de ferrugem que o tempo lá tinha colocado, mas sim, lá bem no alto um boneco ou melhor, dois cavalinhos apoiados nas patas traseiras que lhe davam um pouco de vida. Que seria aquilo?

- Vó...eu queria aqueles bonecos...” dizia, mas a resposta era sempre a mesma:

- “Não te atrevas a subir o portão, aquilo que lá está é um brasão e ninguém o pode tirar!”.

Intrigada, naquele momento só desejava saber o que seria um brasão e ia puxando o avental da avó insistindo. Apesar da pouca paciência e num tom áspero que lhe era peculiar, não por não gostar da neta mas sim mostrando a sua raiva contida contra os dissabores da vida, respondia-lhe deitando um cesto de erva, talvez serralhas, para dentro da capoeira dos coelhos:

- “ Quer dizer que esta quinta já foi de reis, viveram aqui, mas que não tinham de trabalhar como eu, não faziam nenhum e...”

Assim continuava a ladainha que aos ouvidos da menina soava a música que ia embalando os seus sonhos de criança. Olhando o velho brasão enferrujado sentia-se uma princesa e orgulhava-se de viver ali, só não entendia porque era a avó tão amarga e porque trabalhava tanto que nem tinha tempo para brincar com ela.

Mais uma vez a voz da avó a embalava enquanto atravessava o pátio e se ia refugiar junto de uma zona muito verde. O chão forrado de trevos, que para sua triste sorte eram de três folhas, sentava-se de pernas cruzadas olhando para o infinito e imaginava como seriam as coisas fora dali. Sabia que era pequena demais para entender, como sempre a avó dizia, mas sentia que alguma coisa se passava de errado. Um dia tinha de saber.

A avó um dia comentou que um homem tinha sido morto quando tentava subir aquele portão. Quem seria? Um dia ainda descobriria. Morto? Não entendia o que era morto, possivelmente seria ir embora para longe, para além daqueles montes e serras que rodeavam a quinta. Podia ser, mas ali ela estava protegida. Às vezes transpunha o portão para ir brincar com uns meninos guardadores de rebanhos. Gostava de brincar com eles. Eram três irmãos: um rapaz que coxeava muito e duas meninas. Brincavam às casinhas, às escondidas, à apanhada, ao jogo da cabra cega e muitos mais, que a menina só conhecia porque eles lhos tinham ensinado. Quando a brincadeira estava na melhor parte, a avó aparecia sempre a gritar por ela e lá terminava a felicidade da menina, voltava para casa de lágrimas nos olhos, pois durante mais uns dias não teria ninguém com quem brincar.

Ia para casa e por vezes sentia medo, principalmente quando se lembrava das coisas que a avó lhe contava sobre espíritos que falavam e faziam barulhos. Não sabia ao certo o que eram espíritos mas dizia-lhe que eram os mortos que voltavam para atormentar os vivos. Mas que tinha ela com isso? Seria o que morreu no portão? O seu pequeno coração disparava.

Assim os dias foram passando e depois já ninguém ligava porque a menina andava, nem deixavam, porque estavam sempre a chamá-la para ver onde estava e queriam que ela estivesse sempre no mesmo sítio. Então para que servia andar? Mas ela não ligava, fugia e ia subir às árvores, comia os frutos e gostava muito.

Certo dia estava a brincar junto das escadas grandes e viu duas pessoas que nunca tinha visto lá em casa, já eram velhos. Seriam amigos da avó? Mas eles conheciam-na e começaram a conversar com ela. Já estava assim, há um bom bocado, quando a avó chegou e lhe perguntou com quem estava a falar. A menina disse-lhe com quem era, apontando para o casal de velhos e ficou sem entender quando a avó lhe respondeu que não estava ali ninguém e o que estava a ouvir eram as pessoas a passar atrás da casa. Ela perguntou se não os estava a ver ao que a avó respondeu que não, estava era a ouvi-la falar sozinha. A menina ficou sem reacção e não entendia porque é que a avó lhe estava a fazer aquilo e apenas disse que os senhores lhe estavam a dizer que um dia a avó ainda iria acreditar nela. E assim foi, passado um tempo eles voltaram, a menina foi a correr chamar a avó e então falando com eles pediu-lhes que dissessem à avó porque estavam ali. Estavam, segundo eles, para lhe fazerem companhia e tomar conta dela. A avó não queria acreditar mas não havia dúvida ouviu o que disseram, mas se não havia ninguém...e olhando para onde a menina apontava, não via, apenas sentiu um arrepio e o ar gélido.”

- Queres ouvir mais? – Perguntou a menina tocando-me de leve no braço.

- Queres contar? – Reagi apanhada de surpresa e mais uma vez de forma não correcta ao que respondeu.

- Não foi isso que perguntei, porque para que eu possa contar tu tens de querer ouvir.

- Desculpa, quero sim, quero muito.

Lançou-me um sorriso condescendente, como a dar-me mais uma hipótese e continuou balançando apenas o pé direito:

“A menina nessa altura sentia-se muito só porque o pai já não morava ali. A mãe morava mas quando perguntava onde ela estava, a avó se estava bem disposta respondia-lhe que tinha ido trabalhar, se estava mal que não estava porque não queria saber dela para nada e que a tinha deixado com ela só para lhe dar mais trabalho. Tudo era muito estranho para a menina. Nunca respondiam ao queria saber e quando falava sobre alguma coisa, ninguém acreditava ou lhe dava atenção, era tudo muito estranho.

Uma noite acordou ao som de vozes alteradas, mas teve a sensação de não ser com ela. Apurou o ouvido e muito quieta apercebeu-se do que era. Ouviu o avô dizer para a avó:

- Você é que tem a culpa...é um inferno, essa miúda é um diabo, será que vai ser assim a vida inteira?

Num tom abaixo, mas fazendo-se ouvir claramente, a avó dizia-a:

- Mas será que não tens coração? Que culpa tem o anjinho se o pai e a mãe são assim?

Que queriam dizer com aquilo? A menina não entendia, para um era um diabo, para outro um anjinho e os pais são assim como?

Os dias e anos foram passando entre o temor e a liberdade. Já não era bebé e a avó disse-lhe que tinha de ir para a escola. Não fazia ideia o que era, apenas sabia que tinha outros meninos para brincar e que viviam com os pais e não com os avós como ela. Sentava-se isolada e pensava nos pais, não perguntava nada à avó pois já sabia que a resposta não era boa e seria igual à das vezes que se atreveu a perguntar:

- A tua mãe é uma desnaturada e o teu pai outro que tal, não querem saber de nada e eu que aguente isto... – dizia a avó como que acusando a menina de tudo aquilo.

Pelo que conseguia entender era chamada de nada e de isto. A um canto questionava-se porque não a queriam os pais. A avó dizia que eles não estavam juntos, que não sabia do pai dela e que a mãe dizia que andava a trabalhar mas que queria era passear, que não lhe ligava nenhuma, até se esquecia que tinha uma filha e se não fosse ela não sabia o que seria...e por aí fora, até a cabeça da menina já não aguentar mais. Mas como a mãe se esquecia dela? Seria por estar cansada? Talvez, porque nem tudo o que a avó dizia estava certo, a mãe trabalhava e até já a tinha levado lá.

Era um lugar muito bonito e as pessoas eram muito diferentes, importantes, dizia-lhe a mãe. Tinha medo deles porque era sempre avisada para se portar bem, não incomodar, não ir para lado nenhum, não sair dali. Sentia-se triste porque descobriu que existiam lá coisas muito bonitas. Havia um salão muito grande que entre tantas coisas novas tinha um piano preto que reluzia como que a chamá-la. Mas a menina não lhe podia tocar, nem sabia, mas pelos menos podia sentir aquela boca com dentes pretos e brancos a rirem-se para ela. Perguntava-se porque não tinha nascido a poder fazer coisas e a tê-las. Esquecia rapidamente essas questões enquanto atravessava, às escondidas, aqueles salões e ia ver os peixes que se encontravam num lago que estava dentro de casa. Achava-o lindo e ficava ali horas a imaginar, da mesma forma que o fazia junto ao lago das avencas na quinta onde a avó morava. Não via grande diferença, apenas o facto de estar dentro de casa.

Mas uma coisa muito mais importante a prendia àquele lugar. Era a tia, irmã mais nova da mãe. Ela tinha casado muito nova como dizia a avó e tinha ido viver para aquele sítio porque o marido trabalhava lá, com os cavalos. Por isso arranjaram trabalho à mãe da menina, que se deliciava no picadeiro a olhar aqueles animais, que como o tio lhe dissera eram de competição. Gostava muito da tia e por isso às vezes não gostava de ir lá a casa, porque os ouvia discutir muitas vezes. Só o facto de gostar muito daqueles animais fazia com que na altura tudo fosse ultrapassado. Aquele lugar tinha coisas diferentes, desde a comida aos cheiros, tudo que fazia a menina sonhar. Mas as visitas lá eram muito poucas e depressa acabavam, depois tinha de voltar para os avós e apesar de gostar muito deles, em especial da avó, sentia-se muito só.

Mantendo-se ainda imobilizada naquele canto onde se refugiava tantas vezes e com o pensamento quase tão dormente como o corpo, continuava com perguntas que lhe fervilhavam na pequena cabeça, sem no entanto encontrar as respostas. Sentia-se rejeitada, diferente dos outros meninos e às vezes fazia de conta que tudo estava bem. Tinha os pais junto de si, que todos gostavam dela, que não se sentia só...e adormecia embalada por todos aqueles pensamentos.

Era uma criança solitária. Refugiava-se no seu mundo, habituando-se aos poucos a viver nele e a sentir-se confortável, pois tinha vergonha e medo do mundo real. Era um mundo para ela muito feio, cheio de proibições, rejeições, mentiras e gritos. Não entendia o que eram essas coisas. Iria crescer? Se isso acontecesse como seria?

Um dia a mãe da menina, que pouco estava com ela, disse-lhe para se preparar porque iriam à praia. Nem queria acreditar, praia! Não sabia bem o que era, mas podia brincar e tomar banho na água com sal e saltava de tanta alegria com tão pouco. Mas para a menina era tudo: ir à praia com a mãe. Ainda não tinha acabado e então disse-lhe que para ir com ela tinha de se portar bem e que não podia chamá-la de mãe.

- Ouviste, não podes chamar-me de mãe, trata-me por tia, lá eu sou tua tia!

A menina abrindo a boca e os seus grandes olhos, acenava com a cabeça afirmativamente, sem conseguir falar ou entender. Porque seria que a mãe lhe diria que não o era na praia? Mais uma vez não percebia e sentiu um grande aperto no peito.”

- Gostaste?

- Ai que susto! Acabou a história? – Balbuciei.

- Porque nunca respondes ao que te pergunto?

Olhei discretamente para a posição do sol e notei que já se tinha passado algum tempo, depois perguntei-lhe, enquanto me levantava:

- Como se chama a menina?

- Tem todos os nomes! – Respondeu – Mas gostaste?

De costas para ela e enquanto olhava a água azul respondi:

- Gostei muito, senti muito... – pensava como uma criança tão pequena podia ter contado uma história assim! Reagindo, perguntei voltando-me para ela:

- E tu como te chamas?

Fiquei sem resposta e constatei que já não estava ali. Fiquei sozinha com os meus pensamentos, perguntando-me como teria desaparecido tão rápido, mas fiquei com a certeza que aquela menina era uma Luz e que se continuasse a contar histórias daquelas, poderia aquecer muitos corações.

(in: nas asas do vento encontrei orixá) Dina Ventura


A CHAMA DA MINHA VIDA

O meu refúgio, sou eu, aberto ao Mundo.
Não tenho nada de meu, a não ser o eu que sou.
Não quero nada do que não tenho, do que tenho, ou do que sobrou.
Quero apenas Ser, existir sem existir, para conseguir Ver e Viver.
Não me interessam filosofias, descrições, mandamentos ou padrões.
Mas é com tudo isso que aprendo, me corrijo e repreendo.
É o caos. O absurdo do viver em estado de sítio.
Nada compensa porque nada é para ser compensado.
Mas tudo é para ser feito, para equilíbrio de compensação.
Ninguém se interessa pelo que não quer,
Mas passa a vida a lutar com isso. Perde o tempo nas lutas do não querer
Deixando o que quer na agonizante espera.
Estou farta de ser assim, farta do meu corpo físico, incapaz e incompetente.
A minha alma não merecia isso.
Merecia alguém que a conseguisse entender,
Explicar, descodificar e não fazê-la rodopiar.
Não chego para ela, eu sei, mas que posso fazer?
Tenho tentado de tudo, mas sinto a incapacidade do meu ser.
Não sei se é ela que me quer vencer,
Se sou eu que por teimosia não quero perder.
É uma luta inglória, que apesar de tudo
É a chama da minha Vida!
Dina Ventura – 11 de Junho de 2009

O DESPERTAR DA RAZÃO




Tenho os sentimentos magoados. Não, não é isso, é…sentidos.

Porquê? Porque quiseram juntar-se todos numa só ocasião

E realmente deu uma grande confusão.

O espaço era pequeno para tantos. Acabaram por se acotovelar,

Querendo passar à frente de outro e mais outro, para verem

Aquele que cada um deles achava o mais importante. Mas como são tantos,

Quantos tantos importantes existirão? Até o que foi para ver o seu

Se tornou importante e primeiro para outro. Mas nada disso entenderam.

Apenas pensavam e não sentiam e todos queriam falar e ter razão.

Não se entendia, como sentimentos, apesar de diferentes,

Não pensassem no que são.

Como pode ser, querer ser o que não é e sim o que um outro será?

Não pode. Primeiro terá de ser, para depois conseguir perceber

E até poder vir a ser, o que outro sentimento seria.

Não o mesmo, porque esse é outro, mas o seu, pois nenhum cabe no que não é.

A razão não é sentimento, mas é. E misturou-se, sentou-se e reacendeu a discussão.

Seriamente convencida que tinha a solução.

Mas não, não tinha porque cada sentimento da razão não chegava

Para explicar a razão de cada sentimento.

Assim sentimentos e razões não se entendem, enquanto não entenderem

Que talvez a luta que travam entre si, não deixam de ser sentimentos!

Os sentimentos despertam

As razões alertam

Os sentimentos iludem

As razões desiludem

Os sentimentos sonham, as razões acordam, mas esquecem-se

Que os sentimentos despertam a própria Razão!

Dina Ventura – 11 de Junho de 2009

QUERO PARAR - CONECTADA NA DESCONEXÃO - A ESSÊNCIA DO CHORO

by: dv

Hoje a alma chamou-me à razão!

Fez-me sentir de forma pesada o trato que lhe dou.

Senti-me humilhada perante ela, quando me fez sentir de forma profunda

Que sou única. A única que não quero ser!

Sinto-me desamparada, desprotegida e questiono o que afinal

Querem de mim!

Se sou e não pareço ser, que posso fazer? Não sei!

Sou confrontada comigo e choro porquê?

De tristeza? Não. De medo? Não. De estar perdia? Não.

Então porque choro? Não consigo explicar.

Raiva não sinto… tenho apenas ânsia de saber…

Vontade de me conhecer para Conhecer.

Sinto que tenho algo em mim que não me pertence…

Talvez seja isso que me faz chorar…ter em mim algo que não é meu.

Não estou a escrever para ser poesia, prosa poética ou coisa nenhuma,

Ou o que lhe possam chamar!

Estou apenas a chamar até mim, o que me está sempre a escapar!

Só me foge porque não sei o que é, mas sei, só não sei explicar!

Que faço aqui? Para que estou? Sempre fiz esta pergunta e

Ainda não sei ou não me convenci!

É um desprendimento total, algo dentro de mim me puxa para lá

Tirando-me daqui.

O escrever faz-me contactar comigo, faz-me entender

Faz-me não enlouquecer!

Não sei se sinto, se existem os sentires,

Não sei o que sou e sei, mas acho que nunca saberei.

Pois quando parece que sou, deixo de ser! Não consigo entender!

Mas sei que sou verdade, sinto-a dentro de mim.

Só não sei como a usar e se tem algum fim…

Já chorei de raiva, de amor, de tristeza, de alegria,

De dor e de pura cortesia.

E agora porque choro se não sei porque o faço?

Será que a essência do choro é isso mesmo e apenas?

Fazê-lo sem sentir ou permitir e deixá-la fluir?

Sinto-me embalada nele provoca-me sono, cansaço exterior…

Preciso repousar. Parar o meu físico para a alma se libertar.

Vou dormir e sem horas para despertar.

Talvez quando regressar ela me traga as repostas que estou a precisar.

Não a consigo entender, o ver apenas, apaga-me a Visão, a compreensão.

Quero ver doutra forma, com outro tipo de visão.

Quem sabe se aí, tirarei a conclusão.

Não sei se me lêem, mas isto não são palavras.

São emoções, são sentires profundos

De uma alma andando pela imensidão

E deixa o corpo que habita numa grande confusão.

Sem rumo, sem utilidade e sem opinião. Afinal que Querem de mim?

Não estou a percepcionar, preciso doutra Visão.

É dura esta luta…entre mim, eu e a Razão da razão.

Despedaçam-me. Em fracção de segundos, fazem com que percorra mundos.

Como posso captar? Concluir, definir, entender e aceitar?

Não me sinto eu, sou outra ou outras, mas que sei serem a mesma!

Porque se partem? Porque se dividem sem me respeitarem,

Ou pelo menos pensarem no que provocam. Acho que pensam e sabem

E por isso o fazem, para que eu aprenda a lição que me querem ensinar.

Mas hoje não queria aprender, queria apenas ser

E por isso vou dormir. Não são horas para isso!

E que tenho eu com isso?

Não quero saber, não quero ouvir, não quero ler, nem pensar.

Quero parar!

Dina Ventura – 11 de Junho de 2009