segunda-feira, 16 de agosto de 2010

AS FORÇAS DA NATUREZA - OS MITOS NA PINTURA


óleo - Iansã - O Fogo e a Paixão - Dina Ventura
É a divindade do fogo, dos raios e da guerra
É ela quem trás as tempestades e a ventania
Para varrer a maldade humana da terra
E domina os furacões e ciclones,
Está presente nos ventos fortes,
No deslocamento de objectos sem vida.
Senhora do barro vermelho e da sua lama.
Deusa da espada de fogo,
Dona das paixões.
Convivemos com esta Força da Natureza diariamente.
É o vento, a brisa que alivia o calor,
Mas também o calor, o tremer dos ramos,
Dos cabelos, a lava vulcânica,
O fogo, o incêndio, a devastação pelas chamas.
Sente-se no poder do raio,
Na electricidade,
Está presente no simples acto
De acendermos uma vela ou uma lâmpada,
É o choque eléctrico,
A energia que gera o funcionamento do rádio,
Televisão, computador,
É a energia viva, pulsante e vibrante.
Força da provocação e do ciúme,
Mas também da paixão violenta que corrói,
Criando sentimentos de loucura,
Desejo de possuir.
A sua cor é o laranja e a cor de fogo.
Ela é o desejo incontido,
Sentimento mais forte do que a razão.
A frase “estou apaixonado” tem a sua regência,
Energia que faz os nossos corações
Baterem com mais força
E cria na nossa mente
Os sentimentos mais profundos,
Ousados e desesperados.
É o ciúme doentio, a inveja suave,
O fascínio enlouquecido, em suma é a paixão.
É a disputa pelo ser amado,
O não medo das consequências
De um acto impensado
No campo amoroso.
Ela vai até à vontade de trair,
De amar livremente,
De deixar fluir.
Rege o amor forte e violento.
Conhecida por guerreira de fogo
Gosta de participar em tudo,
É vingativa com aqueles que não a respeitam,
Porém não mede esforços
Para agradar quem a reverencia.
Foi rainha
É protectora dos bombeiros
E de todas as mulheres guerreiras.
Iansã.

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

AS FORÇAS DA NATUREZA - OS MITOS E A PINTURA


óleo - OS CAMINHOS - Dina Ventura


OS CAMINHOS
Força da Natureza que está presente Nos momentos de impacto e fortes,
Sendo aí que o seu encantamento se faz sentir,
Bem como numa colisão
No ar, mar ou terra,
No estrondo provocado por algo pesado que cai,
Na explosão, no derramamento do ferro fundido.
No dia a dia encontramos esta energia nos estaleiros,
Oficinas, ferreiros, quartéis,
No disparo de uma arma,
No acto de se afiar uma lâmina,
Serrar, martelar um prego,
No despertar de um relógio,
No grito de raiva,
Na dor aguda da faca ou da bala que penetra a carne,
É nestes actos que o seu encantamento se faz sentir.
É assim a Energia do impacto,
Da detonação, da vida mantida acesa num ser,
Da defesa e da guerra,
Gosta de lutar e é imbatível,
Mas pode também evitar uma luta.
É também a viagem, a estadia longe,
Os veículos, a jornada, a empreitada, a luta do dia a dia.
É os caminhos-de-ferro, o som do comboio nos carris.
Considerada uma força impiedosa e cruel,
Podendo até passar essa imagem,
Mas sabe ser dócil e amável.
Foi considerado chefe
Porque foi ele que abriu caminho
Para que todas as divindades chegassem ao mundo.
É a franqueza, decisão, convicção, certeza,
O facto consumado.
É a própria energia, incontrolável, devastador,
É a vida na sua plenitude.
Está também presente nas construções,
No cimento, na muralha, é o obstáculo difícil de vencer.
Ele é aço donde são forjados os instrumentos
Como a espada, a faca, a lança
E ainda o carvão mineral docemente em estado bruto.
O acto de cortar também lhe pertence.
Assim são os caminhos e o desbravar!!

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei

AS FORÇAS DA NATUREZA - OS MITOS E A PINTURA


óleo - O INICIO - Dina Ventura

Primeiro nascido da existência e como tal,
O símbolo do elemento procriado.
É o princípio de tudo,
A força da criação, o nascimento,
O equilíbrio negativo do universo,
O que no entanto não significa coisa ruim, mas sim o antídoto.
É a célula mãe da geração da vida,
O que gera o infinito infinitas vezes.
Força natural viva que fomenta o crescimento,
É o primeiro passo em tudo,
O gerador do que existe, existiu e existirá.
Está presente mais que em tudo e todos,
Na concepção global da existência.
Ele mantém o equilíbrio das trocas,
Provoca o conflito para procurar a síntese,
Tudo o que se une, se multiplica, separa e se transforma
É princípio da transformação.
Estando assim associado ao nascimento e ao futuro.

Dina Ventura - im: nas asas do vento encontrei

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A CHEGADA - III - HÁ MAIS


Pormenor da tela do pintor Bernardino Costa (B.C.)

Só pode haver.
Algo ou algos dentro de mim,
Que fazendo parte de um Todo,
São Todos também.
Tenho de os ver assim.
O tempo que demora a desbravar
É directamente proporcional
Ao que sinto desbravar em mim.
Não sei se será egoísmo,
Mas não,
Penso que é necessidade de crescer.
Como uma fonte.
Se a comparação for vaidade
Ou pretensiosismo, assumo.
A Fonte apoiada na sua nascente
Deixa que água brote, com que finalidade?
Não acredito que seja apenas por...
Há uma interligação entre essa fonte
E tudo o que ela poderá abranger,
Sendo tanto maior
Quanto maior o alimento na nascente,
Tornando-se depois numa necessidade,
Utilidade cíclica.
No final de tantas voltas
Chego à conclusão
Que tudo era muito mais simples
Do que sempre imaginei
E que só somos de Verdade quando:
Chegamos a nós e aos outros;
Que não estamos sós;
Que temos a energia suficiente e necessária
Para chegarmos à Luz.
Parece realmente fácil,
Mas para isso é sempre necessário
Percorrer um caminho.
Quem tiver a Sabedoria para o encontrar
Sem sofrimento,
Tanto melhor, se é que é possível,
Porque questionarmo-nos profundamente,
Olharmo-nos no fundo da alma
Por vezes é difícil,
Mas sem o fazermos não conseguimos chegar.
Não basta socorrermo-nos
De quem julgamos ter poderes sobrenaturais
E pós mágicos,
Pedindo-lhes que façam por nós
O trabalho doloroso
Ou nos cedam a fórmula milagrosa
Que nos permita transformar a nossa vida
Apenas com um pedido ou pagamento,
Sem que tenhamos a consciência plena
De que os obreiros edificadores somos nós
E que nem os deuses o farão,
Apenas nos poderão ajudar a ter forças
Para levar a bom termo a tarefa,
Caso vejam que o sentimento que nos impele é nobre.
Eles podem ajudar,
Mas apenas dentro de nós encontramos a poção certa,
Difícil é chegar até ela pelo caminho certo.
Mesmo às apalpadelas,
O que conta é a Vontade de Encontrar,
Tomando consciência
Que nem sempre o caminho que escolhemos é o melhor.
Chegando a essa primeira verdade,
Retomamos e chegaremos.
É a aprendizagem.

Dina Ventura in: nas asas do vento encontrei

A CHEGADA - II - OPTO


Pormenor - Tela do pintor Bernardino Costa (B.C.)

A temperatura é amena,
Permitindo que uma aragem bem fresca me toque.
A sensação é agradável.
Olho em redor
E vejo-me acompanhada da beleza,
Da frescura daquele lugar
E do envolvimento com a Natureza.
Volto a olhar para o cartão que me tinha levado até ali.
Palavras amarradas a um papel com o intuito de ferir.
Tento reler
Mas apenas vejo um cartão em branco
E apenas me sai:
Neve ou luz.
Sem grandes focagens
Apenas tento seguir em frente,
Em qualquer direcção.
Opto.
Sem optar,
Apenas impulsos,
Sigo sem rasto
O que o meu poder de orientação me indica.
Algo lá ao longe se começa a desenhar.
Não uma miragem
Mas a possibilidade de ser algo.
Caminho apenas embalada
Pela vontade de chegar.
Reúno em mim a construção
Do que estará lá,
Questionando-me se o será mesmo.
Nada melhor do que a curiosidade
Para o confrontar.
E se não for?
Algo será.
Só me resta saber.
Tremo.
Não na emoção da procura
Mas sim na emoção do encontro.
É algo superior a mim,
Incontrolável,
É um vibrar interior,
Que suplanta todas as emoções,
Porque as contém.
À medida que os contornos se vão tornando
Cada vez mais nítidos,
Facilmente me apercebo do que é.
Após uma análise superficial,
Sinto que posso continuar.
Há mais.

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei

A CHEGADA - I - ENTRO


Tela (pormenor) do pintor Bernardino Costa

Prostrada perante mim,
Embalada pelo calor que se faz sentir,
Olho sem conseguir enxergar nitidamente ao longe,
Mas semicerrando os olhos
Os contornos tornam-se mais nítidos.
Vou aproximar-me mais,
Apesar de saber que o caminho poderá ser longo,
Inútil e quem sabe, sem fim.
Compenso o calor desagradável
Com pensamentos frescos,
Ando sem parar,
Deixando que o fresco interior
Me apazigúe a caminhada.
Todo o percurso é árido, ressequido,
Apenas quebrado por uma solitária verdura
Que teima em sobreviver,
Um pouco fora do sítio.
Olhando mais atentamente para o seu verde,
Recobro as forças para avançar
Em direcção ao que me parece estar ao longe,
No fim da caminhada.
Esperança muito real,
Pois será onde descansarei após tal percurso.
Chego.
Paro e vejo que aparentemente valeu a pena.
Não sei se o interior será melhor ou pior,
Só sei que a entrada é frondosa
E dum verde inimaginável.
Folhas balançam de mansinho
Como que para afastar o calor,
Protegendo aquela entrada, gruta talvez,
Refrescada por uma pequena cascata
Com ar de velha habitante,
Que mais parece querer preservá-la.
Tudo me é familiar.
Com facilidade contorno um pequeno lago natural,
Equilibrando-me sobre as pedras
Que parecem postas ali ao acaso
Mas propositadamente alinhadas.
Chego à entrada
Um pouco dissimulada por plantas altas,
Canas que se vergam em sinal de vénia respeitosa
À luz que deixam entar.
Entro.

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei

sexta-feira, 16 de julho de 2010

DESRESPEITOS - INCONSCIÊNCIAS

O que leva as pessoas a enganarem o "outro".
Será que é o outro?
Ou será a si mesmo?
Por desrespeito do Ser? Ou apenas por querer ter?
Insatisfação? Solidão? Ou apenas não Amor?
Nem próprio, nem por ninguém?
Será que nunca ninguém traiu?
E o que sentiu?
Colocou-se no lugar do Outro?
Conseguiu?
Ao fim de doze (?) vou de forma extensa
Quem sabe até cansativa para o tema
Tentar Entender, sem atacar ou defender
Apenas Olhar a Verdade do Ser.

Vou escrever porque estou a levar as coisas a sério.
Significa a partir do momento em que se pensam,
Não podendo deixar de ter em conta
As inúmeras vertentes que vou descrever,
Não eliminando a do não sério,
Pois ficará uma exposição mais completa.
Hipótese 1 – Não sério
.Falar por falar;
.Dizer que se sente, sem sentir;
.Ter muito tempo disponível e ter de se encontrar formas de o preencher;
.Aposta, não se podendo desistir para não denegrir a imagem;
.Fornecimento de dados para apenas preencher o curriculum vitae.
Concluo que nenhum de nós consegue ser tão pobre
Ao ponto de se limitar a tão pouco,
Portanto hipótese 1 excluída.
Hipótese 2 – Sério
Existem milhares de sérios
E alguns não o sendo,
Não deixam de o ser também.
.Não capacidade de encontrar equilíbrio;
.Posse de bens com ambição de alcançar sempre mais, tirando disso proveito próprio;
.Insatisfação perante o tudo que se tem, não o descurando, mas tentando compensações;
.Necessidade de correr em campos alheios para activar os músculos um pouco perros;
.Necessidade de dar vazão ao espírito aventureiro que cada um de nós possui;
.Necessidade de reviver os gritos da adolescência nos impulsos naturais;
.Gosto pelo proibido e necessidade de o sentir, também fisicamente;
.Procura incessante do novo, como reabastecimento do velho já cansado;
.Carências, um pouco apagadas, que sem autorização resolvem emergir;
.Procura de emoções novas e fortes, como lufada de ar fresco na existência;
.Atracções, simplesmente, que não encontram estabilidade;
.Gosto pelo jogo, não se gostando de perder;
.Regras quebradas pelo facto de o serem;
.Almas sonhadoras em busca de lugares secretos;
.Encontros apenas pela necessidade de se darem;
.Correria um pouco louca em busca do ar que nos falta;
.Desejo de não pensar pelo tanto que se pensa;
.Confusão, sabendo-se sempre o que é;
.Ansiedade, sem sequer se ser dono da ânsia de querer;
.Causas não explicáveis à priori para efeitos super rápidos;
.Acontecimentos ao longo do tempo acontecendo, acabando por ser apenas uma narração;
.Super valorização de algo que apenas existe simplesmente;
.Necessidade de dar, por vezes não acontecendo no lugar e tempo certos;
.Necessidade de receber, o que por vezes não se aceita de quem nos quer oferecer;
.Contradições naturais no que dentro de nós existe;
.Necessidade de nunca se perder o espírito de conquista;
.Necessidade e vontade de estar onde não se pode ou com quem não se deve;
.Apenas vontades;
.Necessidade de algo ou de alguém que faz com que os dias se tornem muito difíceis;
.Gostar apenas.
Todas estas hipóteses são sérias
A partir do momento em que existem,
Mas será assim tão simples?
É, porque se não o fosse
Tudo se processaria de forma diferente.
Portanto há que analisar cada uma destas hipóteses
Até se conseguir encontrar uma resposta.
Para quê encontrá-la?
Mais que não seja
Para conhecermos melhor a nós próprios
E sabermos porque somos,
O que somos,
Para que somos.
Tudo é sério.
Assim sendo,
Tudo terá de ser tomado em consideração
E após dissecação de todos os pontos
A que conclusão se chega?
Tudo poderá funcionar em perfeito equilíbrio?
Temos capacidade para tal?
Ou seremos como os sapatos?
É preferível termos vários pares
Pois a sua duração será muito mais longa.
Coitado do par único,
Como conseguirá combinar com tudo e tudo palmilhar?
Não!
Têm de existir vários pares,
Para quem tiver capacidade para tal!
Temos?
Então sejamos sapatos!
Estou furiosa porque não quero ser sapatos.
Mas não o seremos realmente?
É preciso respeitar os outros,
A vida dos outros,
A família dos outros,
O mundo dos outros
O mundo!
Porque não o fazendo,
É a nossa própria alma que não é respeitada!
A data deste escrito?
Não interessa a localização no tempo,
Pois não deixo de acreditar
Que sempre existirá quem pense!
Que vale a pena não magoar os outros
E para isso basta apenas:
Assumir-se na Verdade de Ser.

Dina Ventura

quinta-feira, 15 de julho de 2010

IMAGEM


Desdenhosamente ri-me para ela,
Crente ou talvez não,
Na capacidade visual da absorção.
Resposta imediata de retribuição
Conduzindo à fuga,
Para não ser absorvida.
É um reflexo apenas do que existe
E que procura justificação.
Relatos, apenas relatos de uma existência.
Repouso eterno nas imagens paradas,
Regresso ao passado apenas por captação.
Angústia.
Sentimentos frustrados
Por não conseguir ultrapassar.
Imagens paradas
Que nos apelam ao movimento.
Saídas para tempos diferentes,
Em que as épocas não têm lugar.
Restos do que se pretende,
Apenas uma ínfima parte.
Vazios.
Espaço uniformizado mostrando,
Na ampliação,
Mudez defeituosa.
Enganadora visão que apenas faz recordar.
Esboço irreal,
Que anseia a perfeição...
Fotografia...

Dina Ventura

quarta-feira, 14 de julho de 2010

REGATOS DA CONCENTRAÇÃO


Simples cantatas que se embrenham no ar térreo.
Imagem quadro duma solidão não só.
Esvoaçar sem esforço dentro de si próprio.
Transporte.
Passeio calmo na margem enevoada
Dum cinzento claro impregnado de luz,
Envolvendo cada passo, aveludando o caminho.
Não vontade de pensar na vontade de criar.
Deixar que o tempo viva sem no entanto o notar.
Beber do ar diferente sem ser preciso respirar.
Abandono.
Fluir de ideias loucas sem as querer prender,
Como regato rebelde, sem leito a percorrer.
Encanto das mil noites, enquanto nelas viver,
Inspirar total, sentindo o corpo renascer.
Instantâneos.
Anestesia natural percorrendo as veias,
Estado de embriaguez profundo
Com o cheiro a Natureza.
Osmose plenamente sentida,
Confundindo-me com a paisagem.
Entorpecimento total surgindo-me a dúvida se...
...serei realmente o que era
Ou será que me tornei no Natural...
Sem morrer, morrendo para o que de mim me afasta.
Com um suspiro chego à parte mais elevada,
O regato confunde-se com a terra húmida
E faz-me não esquecer.
Reparo com espanto que já não está cinzento claro.
Em pleno, o Sol brilha e o regato reaparece,
Pequeno fio transparente, que espreita antes de se lançar...
...ao encontro dum espaço leito que o leve a algures,
Não apenas para ir, mas sim por querer!

Dina Ventura

segunda-feira, 12 de julho de 2010

AO SABOR DO VENTO


Esconderijos de refinado odor a Natureza.
Grutas de paredes bordadas a gotas cintilantes.
Ar tão puro e fresco que magoa quando respirado.
Transparência opaca num sabor a terra.
Horizontes distantes, mas claros e nítidos,
Que nos aproximam.
Imagem fantástica e irreal
No que de real me rodeia.
Visão empolgante, do que é meu,
Sobre a Terra.
Eu confrontada com ela sem nos magoarmos.
Tudo o que de Natural existe se naturalizando em mim.
Viagem do pensamento.
Não terei obrigatoriamente
De permanecer sempre dentro de mim.
Assim, coloco-me nos meus olhos e saio
Como um pássaro que se lança em voo aberto.
Há um limiar do qual me atiro sem medo,
Imaginação.
Sobrevoando assim oceanos e montanhas,
Liberto o meu físico da cola invisível
Que me agarra ao solo.
Liberdade, voo picado, em direcção à Luz.
Ressuscitar da Alma já incolor por falta de Sol.
Voo.
Sem asas,
Apenas pairando ao sabor do vento.
Nada me poderá deter porque,
Mesmo que pare, já voei.
Mas como posso pensar em parar
Com toda esta visão
Que me é permitido desfrutar.
Há que continuar...
Voar.
Subo.
Não há plágio de gaivota
Há sim necessidade de conhecimento
Da Beleza,
Da urgência do encontro entre mim
E o que sou.
É aí que encontro.
É neste voo em que me lanço
Que poderei encontrar,
Libertando-me.
Voo até parada,
Mas ninguém me poderá alcançar.
Sei que na porta da gruta existe
O limiar em que me apoio.
Olhando vejo-o lá em baixo
E sinto-me segura
Aquele canto é meu,
Bem como os ares em que me esvoaço.
Sou eu que vou
E não alguém que vai por mim.
Há a junção de mim comigo,
Plenamente.
Não há confusão no espírito,
Nem espírito confuso
Há sim, liberdade de Ser,
Dizendo.
Existe também cansaço de voo
E consequentes paragens
Em nuvens suaves de abandono e reflexão.
Depósitos aéreos de energia sólida
Transformada em aragem,
Pela simples passagem.
Mutações constantes nos diferentes estados.
Apreensão sonora do evoluir no espaço.
Reparo em mim.
Sou eu.
Que estou onde quero sem no entanto chegar,
Ao ponto que sei existir,
Para que eu exista.
É algo que se apresenta sem ocupar um espaço.
Propaga-se de um ponto.
Nasce, sem jamais ter deixado de Existir.
Fonte inesgotável, precisando de alimento.
Paro,
Mantendo-me no espaço ao sabor do vento.
Leveza natural
Protegida da longínqua gravidade.
Olhando para baixo,
Sinto a responsabilidade do que tenho.
Tenho à minha frente uma dura batalha.
Vou lutar com todas as forças
Para manter o que tenho.
Dom Natural
Que possuindo-o me faz Viver.
Capacidade de Voar...

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei - Editora Caleidoscópio

quarta-feira, 30 de junho de 2010

TOMADA DE CONSCIÊNCIA



Vou ficar aqui.
Vou esperar por ti.
Vou publicar,
O que não escrevi.
Vou mostrar ao falso,
Todo o seu poder.
Vou dizer ao mundo,
O que sei fazer.
Quero acompanhar
O não evoluir,
Deste mundo falso,
Onde vim cair.
Acabo por descrer
Naquilo que acreditei,
É a luta constante
Do não viver por viver.
E agora a passos largos
Estou a chegar ao fim,
Duma luta sem luta
Dum descrer de mim.
Sem sonhos nem ilusões
Vou ter que lutar
Penso que tenho a vida,
Vida que vou conquistar!

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei - Ed. Caleidoscópio

sexta-feira, 25 de junho de 2010

NÃO MORRENDO PARA A VIDA...MORRE-SE EM PAZ


Há sempre a esperança
De uma felicidade próxima.
É tão dolorosa a espera que por vezes
Transforma cada momento num inferno!
É preciso acreditar.
Mas é preferível não viver esperando,
Porque isso torna a vida
Angustiada e não completa.
É preciso ter algo para viver.
Não se pode fazê-lo
Sem pelo menos ter a vida
E isso, claro, tem-se
Porque se está vivo.
Consegue-se ignorar a morte
Pois se não o fizéssemos
Viveríamos obcecados
E sem capacidade de pensar.
Porque não usar as mesmas armas
Para com as dificuldades
Que se nos apresentam!
Seria até mais fácil.
Porquê menosprezar o nosso Eu
Se conseguimos ultrapassar
O que está fora do nosso alcance!
Porque não ultrapassar
O que nós próprios construímos.
Será que o nosso poder
É superior à morte?
Não, sei que não é.
Ela é inatingível e só se atinge
Quando se acabou por esquecer.
Só aí ela aparece porque é livre!

Dina ventura - in: nas asas do vento encontrei - Editora Caleidoscópio

quinta-feira, 24 de junho de 2010

AMOR NO MUNDO


Depois de olhar para trás,
Enquanto espero o Sol,
Respondo a mim mesma
Indo noutra direcção.
É cedo ou tarde: luto, Ele me dará a mão.
Amar será tudo ou então nada se terá.
Mas deixem as coisas rolarem
Enquanto as faces aquecem.
Amando depressa,
Se faz tarde e cansa,
Mas Amar criando, faz Viver,
Ainda que a noite se aproxime.
Ri e Vive, sê franco e puro.
Procura-te!
Tu tens dentro do peito o que procuras,
Algo em troca, quem sabe o amor.
É por tudo o que acontece
Onde quer que se procure
Feliz do que anoitece,
Impotente mas com Luz.
Mas por outro lado há a dor
Dos que morrem,
Sem terem visto
O que de bom e a favor
Morre ao seu lado sem aviso.
Uns com tanto outros sem nada,
Dói por dentro, é uma facada
Onde nada acaba nem começa,
A água mantém-se estagnada.
Mas é o mundo.

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei

quarta-feira, 23 de junho de 2010

CHORO O MUNDO


Choram as pedras
Pelas coisas que não foram.
Choram os caminhos
Pelo tempo que não andam.
Choram as árvores
Pelo vento que não sentem.
Choram os rios
Pelos peixes que morreram.
Choram as aves
Pelo ar que lhes tiram.
Choram os inocentes
Pelas dores que não merecem
Choro eu,
Por não saber o Tudo que existe,
Por não conseguir saber
Porque choro,
Por não conseguir chorar.
Choro sem lágrimas visíveis.
Choro doloridamente o que perdi.
Choro o que se ausentou de mim.
Choro o que não consegui
Choro por não entender o Mundo
Choro por quem não sabe chorar
Choro por quem não sabe reclamar
Choro
Sem saber se choro o que devo.

Dina Ventura - in nas asas do vento encontrei

terça-feira, 22 de junho de 2010

DONO DE NADA


Se queres ferir,
Despreza o que te derem
E nem sequer te apercebas
Desse desprezo.
Age como se fosses
O dono do mundo,
Que não tens.
Fala como se ninguém ouvisse.
Olha como se não visses
Que te ouvem!
Faz isso e fere.
Fere sem dares por isso.
Se quiseres saber o que é ferir faz,
Sem saberes, com que te firam
E nessa altura vais-te aperceber.
Aí terás o mundo,
Mas não és o dono
Ouvirás, verás,
Sem seres ouvido
Nessa altura sentes
Que és ferido
E apercebes-te,
O quanto é doloroso ser ferido,
Para tão fácil ferir!

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei

RODOPIAR DA ESSÊNCIA


É preciso parar.
Parar em pleno,
Dominado pelo cansaço,
Prostrar-se perante ele
E esperar que novas forças nasçam.
Enquanto esperas,
Deixa-te levar...
Deixa-te envolver por todas as brisas
Talvez alguma te traga algo de bom.
Não lutes quando já não tens forças,
Porque tudo te escapa por entre os dedos
Desfeito em pedaços, em tiras
E serão tantas,
Que jamais conseguirás juntá-las.
Por vezes é necessário deixar tudo
Para começar tudo de novo.
Será um interregno, maior ou menor
Mas que dará coragem
Para depois de deixar tudo
Começar tudo de novo!

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei

domingo, 20 de junho de 2010

CONTRADIÇÃO


Sinto que não sinto,
O que devia sentir.
É um sentimento estranho de sentir.
Penso, perco-me, sinto-me vazia
Incapaz de qualquer sentimento de sentir!
Mas sinto que penso
Muitos pensamentos sentidos.
E para além disto, que sinto?
Vontade de sentir?
Não, não quero sentir o que sinto.
Quero apenas que saibam
Que sou, o quê não sei, mas sou.
Que sou, que penso, que sinto,
Sem saber que fazer
Para não sentir
O que sinto.

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei - Editora Caleidoscópio

segunda-feira, 14 de junho de 2010

IMAGEM...REFLEXO


Desdenhosamente ri-me para ela,
Crente ou talvez não, na capacidade visual da absorção.
Resposta imediata de retribuição
Conduzindo à fuga, para não ser absorvida.
É um reflexo apenas do que existe e que procura justificação.
Relatos, apenas relatos de uma existência.
Repouso eterno nas imagens paradas,
Regresso ao passado apenas por captação.
Angústia.
Sentimentos frustrados por não conseguir ultrapassar.
Imagens paradas que nos apelam ao movimento.
Saídas para tempos diferentes, em que as épocas não têm lugar.
Restos do que se pretende, apenas uma ínfima parte.
Vazios.
Espaço uniformizado mostrando, na ampliação, mudez defeituosa.
Enganadora visão que apenas faz recordar.
Esboço irreal, que anseia a perfeição...
Fotografia...

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei - Editora Caleidoscópio

sábado, 12 de junho de 2010

AO SABOR DO VENTO


Esconderijos de refinado odor a Natureza.
Grutas de paredes bordadas a gotas cintilantes.
Ar tão puro e fresco que magoa quando respirado.
Transparência opaca num sabor a terra.
Horizontes distantes, mas claros e nítidos, que nos aproximam.
Imagem fantástica e irreal, no que de real me rodeia.
Visão empolgante, do que é meu, sobre a Terra.
Eu confrontada com ela sem nos magoarmos.
Tudo o que de Natural existe se naturalizando em mim.
Viagem do pensamento.
Não terei obrigatoriamente de permanecer sempre dentro de mim.
Assim, coloco-me nos meus olhos e saio
Como um pássaro que se lança em voo aberto.
Há um limiar do qual me atiro sem medo,
Imaginação.
Sobrevoando assim oceanos e montanhas,
Liberto o meu físico da cola invisível que me agarra ao solo.
Liberdade, voo picado, em direcção à Luz.
Ressuscitar da Alma já incolor por falta de Sol.
Voo.
Sem asas, apenas pairando ao sabor do vento.
Nada me poderá deter porque, mesmo que pare, já voei.
Mas como posso pensar em parar com toda esta visão
Que me é permitido desfrutar.
Há que continuar... voar.
Subo.
Não há plágio de gaivota
Há sim necessidade de conhecimento da Beleza,
Da urgência do encontro entre mim e o que sou.
É aí que encontro.
É neste voo em que me lanço
Que poderei encontrar, libertando-me.
Voo até parada, mas ninguém me poderá alcançar.
Sei que na porta da gruta existe o limiar em que me apoio.
Olhando vejo-o lá em baixo e sinto-me segura
Aquele canto é meu, bem como os ares em que me esvoaço.
Sou eu que vou e não alguém que vai por mim.
Há a junção de mim comigo, plenamente.
Não há confusão no espírito, nem espírito confuso
Há sim, liberdade de Ser, dizendo.
Existe também cansaço de voo e consequentes paragens
Em nuvens suaves de abandono e reflexão.
Depósitos aéreos de energia sólida
Transformada em aragem, pela simples passagem.
Mutações constantes nos diferentes estados.
Apreensão sonora do evoluir no espaço.
Reparo em mim.
Sou eu.
Que estou onde quero sem no entanto chegar
Ao ponto que sei existir, para que eu exista.
É algo que se apresenta sem ocupar um espaço.
Propaga-se de um ponto.
Nasce, sem jamais ter deixado de Existir.
Fonte inesgotável, precisando de alimento.
Paro, mantendo-me no espaço ao sabor do vento.
Leveza natural protegida da longínqua gravidade.
Olhando para baixo, sinto a responsabilidade do que tenho.
Tenho à minha frente uma dura batalha.
Vou lutar com todas as forças para manter o que tenho.
Dom Natural que possuindo-o me faz Viver.
Capacidade de Voar...

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei - Editora Caleidoscópio

sexta-feira, 11 de junho de 2010

GOSTAR



Gosto.
De ter o gosto pelo gosto
De ter o gosto pelo riso
Gosto de gostar.
Gosto de ser simplesmente o que sou.
Gosto de procurar e de saber onde estou.
Gosto de encontrar.
Gosto de ter o que tenho
Que é o gosto pela procura do para Além.
Gosto de existir.
Gosto de pôr a questão se existo
Se serei como sou
Se saberei mesmo o que penso
E porque penso no que sou.
Gosto de pensar.
Gosto de me cansar a pensar.
Gosto do jogo da mente
Gosto de enrolar o pensamento
Gosto de gastar as palavras
Gosto de girar.
Gosto de repetir o que sinto
De sentir por dentro e por fora.
Gosto que uma ferida doa.
Gosto do prazer da cura.
Gosto de dar liberdade
Deixar fluir as palavras.
Correr pelas estradas, subir aos montes
Gosto de cantar.
Cantar canções de palavras
Palavras cantadas sem voz.
Gosto de canetas.
Gosto de tudo o que é louco
Perguntar o que louco quer dizer.
Sinto prazer quando sei e não se consegue explicar.
Gosto do fácil que é perceber
E que exista claridade
Para que se possa entender.
Gosto dos olhos.
Gosto de quem não tem olhos mas Vê.
Gosto de gostar de gostar
Porque simplesmente gosto
No simples acto de dar...

Dina Ventura - in: nas asas do vento encontrei - Editora Caleidoscópio