quarta-feira, 29 de abril de 2009

IMAGINANDO

Já pensaste no quanto é difícil imaginar

A forma como se imagina?

É o que sinto: Turbilhões, avalanches de pensamentos,

Sem no entanto lhes conseguir dar o tom colorido da imaginação.

Mas sinto que possuo dentro de mim o segredo,

Que me porá nas mãos essa possibilidade.

É como o nevoeiro: cor cinza que ofusca os tons reais

Mas que no entanto, atravessado pela luz reflecte uma infinidade de cores...

...que apenas existem, porque ele existe.

E assim será com a imaginação:

Ela existe em mim porque eu dou por falta dela.

Sai correndo. Pára.

São nestes contrastes, que ela poderá estar escondida

Até imaginando que já ninguém a procura.

E com medo de deixar de ser, ela esconde-se da sua própria imaginação...

Imaginando, que mesmo deixando de ser ela, será sempre a imagem de si

Na própria imaginação.

(in: nas asas do vento encontrei orixá)

O BEIJO

óleo: dina V.

É uma forma de diálogo do mais caloroso ao mais gélido. Talvez o mais sincero e melhor seja o que é trocado mil vezes com os olhos antes de chegar à boca.


UM BEIJO COR DE ROSA PARA TODOS OS AMIGOS




MERGULHO EM MIM

Vou escrever para que todas as letras se escrevam.

É uma conversa rasgada,

Uma vontade louca de ser diferente,

Uma diferença louca de não ser capaz.

Esforços em vão para tirar o ardor

Deste interior que não conheço, conhecendo.

É como o mar que na sua imensidão

Por mais que se mergulhe nunca se encontra o fim.

E por maiores dúvidas que se tenham, ele existe!

Onde estará o fundo desse mar desconhecido?

Onde estará o fundo de nós mesmos?

Mergulho em mim.

Sinto-me perder na imensidão do Ser.

Sinto-me, sem sentir a responsabilidade desse mergulho.

É o afastar de um material real,

Caminhando para um real desejado do real material.

Mais uma vez digo que não são jogos de palavras,

Mas sim tentativas para encontrar

Neste complexo Mundo de mim,

O que todas as combinações de palavras significam

E para isso, para a possível descoberta, mergulho em mim!

(in: nas asa do vento encontrei)

CIÊNCIA DE SER

Apetece-me que me apeteça algo,

Nem que seja apenas apetecer que algo me aconteça.

Parecem frases loucas, de quem nada quer nem tem para dizer.

Mas não é o caso. Têm muito que se lhes diga.

E senão vejamos o que haverá que não se vê.

É como um campo vasto que se perde ao fundo,

Que nos transmite a liberdade da imensidão,

Mas nos faz sentir presos à sua própria dimensão.

Transmite-nos sem no entanto deixar que se usufrua.

Faz com que nos sintamos presos da nossa própria liberdade.

Há que tomar a liberdade, liberta de si

Sem no entanto deixar de ser.

Recorramos ao mundo. Deixemos a ciência.

Tem que chegue...

Apossa-se de mim o sexto sentido, a insignificância.

Recorro a ele para ver o que me rodeia.

Nada consigo ver para além da grandeza do que me envolve.

Estou farta destas palavras. Têm de existir outras...

Como definir tudo com o que possuo, se já estão gastas as definições.

Não quero definir. Não posso, não quero definições.

Vou deixar que as coisas se definam por si.

Mas sem mim como será que serão?

Posso questionar mas serei sempre eu.

Estou farta de mim, de questões de mim. Como poderei saber sem mim?

Tem de haver forma de eu saber.

Recorro à Ciência. Embalo na ânsia de saber. Recorro às fórmulas

Feitas por outros que não eu. Aplico-as em mim, porque não...

Eu saberei por mim como se não o fosse.

Há que refazer tudo de novo. Assim nos ordena a Ciência.

Como poderá ser que sendo eu sem ser e sendo ela o que é, o resultado se alterou.

Algo funcionou de forma deficiente. A experiência falhou.

Vamos começar de novo. E se eu alterar?

Não posso a ciência o ordenou.

Começo a ficar enervada, mas chega. Não tenho nervos.

Sou um, como tantos outros, igual.

Deixámos de ver. Cegueira colectiva. Estou farta da ciência material.

Vou novamente para a rua, quero ver a imensidão sem pormenor.

Perdida por perdida deixem-me sonhar.

Não vou ser mais um que a ciência vai sacrificar.

Que se danem as experiências para o bem comunal.

Não quero mais aparato. Quero viver sem edital,

Mesmo farta de não conseguir ver sem mim.

Mas quanto a isso nada posso fazer. É predestinação do Ser.

Nasci comigo, tem de ser. Tenho de me conformar.

Não vai ser possível encontrar sem mim, mas vou tentar.

Quando conseguir, afasto-me de mim e vou pensar.

Tenho de tentar. Experiência. Voltamos à ciência.

Mas desta vez é diferente, tentarei outro caminho:

Vou, sem que eu vá. Não quero a Lei de mim.

Quero apenas que me apeteça tentar, com e sem mim,

Apenas como Ciência de Ser.

(in: nas asas do vento encontrei)

terça-feira, 28 de abril de 2009

R E S P I R A R

Respiro.

Já alguém pensou, no que e como respira?

Pois se não, que o faça urgentemente.

Não faltando o que se chama de ar

Há possibilidade de pensar.

Penso.

Em que pensarei após respirar, perguntarão

Essas sábias cabeças, que por certo também o farão.

Como devem saber, penso que respirando posso pensar.

E vou fazê-lo. Quero muito ar. Quero imensidão.

Sinto:

Tão profundamente quão profundo é o meu pensamento.

Mas se ele só chega aos sítios mais longínquos dissolvido no ar,

Pensamento mais ar dão-me a sensibilidade.

Espaço.

Sinto-me flutuar. Já imaginaram quanto pensamento e ar?

Sinto-me livre, com vontade de pensar,

Porque tenho o elemento primordial.

Mundo.

Tudo gira. Tudo é de tudo sem pertencer a.

Apenas estamos ligados pelo que me faz viver.

Ar.

Tenho-o não o posso perder de novo, há que respirar.

É isso. É impossível perder o respirar, respirando.

Mas não. Eu sei que é possível, por isso vou ter cuidado.

Não posso parar e tal como ele tenho de girar.

É a força do pensamento que me faz movimentar.

Penso.

Vivo.

Agarro-me à vida.

Respiro.

(in: nas asas do vento encontrei Orixá)

PERCEPÇÃO

by dv

Em que penso?

Em nada, ou melhor, sinto o pensamento angustiado.

Numa angústia pesada

Tapado por estorvos turvos

Obstáculos de difícil transposição.

Paredes, portas, madeiras, metais, são terríveis!

É preciso transpô-los mas...

Acabo no nada, como defesa talvez e cansaço.

Mas na defesa está tu,

Que és um mar, uma praia,

Uma rocha, uma pedrinha, uma areia,

Uma ave e contigo vou saindo...

Agora é mais fácil, já cá estamos e sabes?

É muito bonito. É a liberdade.

É uma fuga, para não fugir à realidade.

É uma realidade da fuga,

Fuga que não está só.

Está tão repleta de realidade

Que nos faz não sonhar, a sonhar!

Agora tudo é mais bonito, bonito de esforço, claro!

Esforço para conseguir ver o que é feio e escuro,

Sem acabar no nada! Ver tudo, sem esse tudo,

Para conseguir arranjar da melhor maneira,

Coragem para enfrentar tudo!

(in: nas asas do vento encontrei)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

TRANSLÚCIDO

by dv


Levanta-se um véu.
Descobre-se então algo de maravilhoso
Que se julgava para sempre perdido.
Intacto, sem marcas de tempo, ressurge.
Ressonâncias ou apenas ecos longínquos.
Bloqueio. Mensagens apenas audíveis na imaginação...
Recursos não humanos num Mundo desconhecido.
Refracção de luz que provoca a cor onde não existe.
Leve sussurrar de águas, que apenas deslizam por deslizar,
Cansadas do seu leito em círculo, que une nascente e foz.
Castigo desumano à visão humana no limite de Ver.
Deturpação da realidade global através de análise minuciosa.
Desconhecimento do Todo por não se conhecer cada pormenor.
Impossibilidade pelo Tempo/Espaço/Ser, que nos leva à desistência.
Rebates de consciência de Almas fossilizadas lutando pela Liberdade.
Corpos inertes.
Arqueologia esperançosa no apuro da Verdade.
Réstia de esperança de quem se dedica à Procura.
Resvalar de uma pedra que desencadeia a avalanche.
Coragem de recomeço.
Golpeios incertos nesta floresta oculta.
Desbravar de terras através da Terra.
Reabastecimento das forças para a conquista do Mundo.
Perguntas lançadas para o que não se aceita.
Não resignação perante o ser-se minúsculo para abarcar o Mundo.
Volteios desesperados em busca da saída.
Regressos avessos do que se pretende duma chegada.
Fúrias descontidas num abrir de olhos fechados.
Sussurros, talvez murmúrios, dessa água em circulo,
Ou quem sabe, resumos do que a imaginação Ouve.
Há a fuga para o voo nas asas dum suspiro profundo,
Abrir da porta para o que à razão se esconde.
É ver fluir uma imensidão de acordes,
Que nos transportam para um ritual sôfrego de realização.
São chamamentos ressonantes,
Como trompetes, que tocando em uníssono nos despertam para...
(in: nas das do vento encontrei)

domingo, 26 de abril de 2009

A CRUZ DA VIDA .........................................FÉ


Foto by Dina V.

Como me sinto calma depois de uma tão grande guerra.
Agora espero o amanhã.
Mas sinto no fundo da alma uma voz que me diz,
Fazes falta na Terra!
Eu nasci para morrer, sim é essa a verdade.
Mas não. Agora quero viver.
Quero sentir a felicidade.
Porque não hei-de vencer se me sinto amparada?
Tudo se torna mais leve, preciso é viver!
Mesmo se estiver desamparada vou lutar com ardor
E a cruz é menos pesada.
Todos temos uma cruz na vida e sem ela não haveria vontade(...)


Ficou a saudade
Perdida!
Nua rua vazia
Árida
Das lágrimas evaporadas
Quente!
Do esforço da saída.
Paredes ruíram, tectos ficaram
Apoiados nas paredes de um tecto qualquer.
Há que galgar as janelas fingidas
Desse quarto alugado, numa rua deserta.
Construir portas nas paredes caídas,
Assentar tectos nas paredes sem força.
Há que, erguer dentro, os pontos de apoio,
Chamar Operários de força Suprema
Que entrem, bem dentro
E ergam de novo a casa afundada!
(in: nas asas do vento encontrei Orixá)


GAIVOTA





Foto by Dina V.

Pairando no ar desliza com o vento.
Observa o mundo do alto e vê,
A gente que passa alheia ao Mundo.
Olha triste e quer contactar.
Cansada sobrevoa sem nada alcançar.
Ergue-se num voo, descendo a seguir
Rasando as cabeças sem lhes tocar.
Olhos perdidos num encontro falhado.
Mar de gente, sem rumo nem rota.
Um dia viu que alguém a notou,
Mas teve medo do ser diferente e voou.
Houve um contacto de olhos nos olhos,
Houve o mútuo chorar, o mundo da gente.
Houve o pavor do encontro falhado.
Ficou a saudade de nunca mais encontrar,
A gaivota perdida no no fundo do olhar!

(in: nas asa do vento encontrei Orixá?

domingo, 19 de abril de 2009

M Ú S I C A


A música cria-nos um passado que ignorávamos e desperta em nós tristezas que tinham sido dissimuladas pelas nossas lágrimas. No entanto limpa a alma do pó da nossa vida diária. Depois do silêncio é a música que melhor exprime o inexprimível.





Óleo: Dina V.


Gosto de música.
Gosto de ter o gosto pelo gosto. De ter o gosto pelo riso.
Gosto de gostar.
Gosto de ser simplesmente o que sou. Gosto de procurar e de saber onde estou.
Gosto de encontrar. Gosto de ter o que tenho, que é o gosto pela procura do para além.
Gosto de existir. Gosto de pôr à prova a questão se existo.
Se serei como sou, se saberei mesmo o que penso e porque penso no que sou.
Gosto de pensar. Gosto de me cansar a pensar.
Gosto do jogo da mente, gosto de enrolar o pensamento e de gastar as palavras.
Gosto de girar.
Gosto de repetir o que sinto, de sentir por dentro e por fora.
Gosto que uma ferida doa. Gosto do prazer da cura.
Gosto de dar liberdade, deixar fluir as palavras.
Correr pelas estradas, subir aos montes, gosto de cantar.
Cantar canções de palavras. Palavras cantadas sem voz.
Gosto de canetas. Gosto de tudo o que é louco, perguntar o que louco quer dizer.
Sinto prazer quando sei e não se consegue explicar.
Gosto do fácil que é perceber e que exista claridade, para que se possa entender.
Gosto dos olhos. Gosto de quem não tem olhos e Vê.
Gosto de gostar de gostar, porque simplesmente gosto, no simples acto de dar!
(in: nas asas do vento encontrei de Dina V.)

sábado, 18 de abril de 2009

P A Z


Óleo e aplicações: Dina V.


Nunca poderemos ter verdadeira alegria se não tivermos paz. O que é a Paz? É a consequência da vitória que exige de nós uma luta contínua.

MUNDOS III

Amor no mundo

Depois de olhar para trás, enquanto espero o Sol
Respondo a mim mesma indo noutra direcção.
É cedo ou tarde: luto Ele me dará a mão, é meu Pai.
Amar será tudo ou então nada se terá.
Mas deixem as coisas rolarem enquanto as faces aquecem,
Amando depressa faz-se tarde e cansa,
Mas Amar criando faz Viver, ainda que a noite se aproxime.
Ri e Vive, sê franco e puro. Procura-te!
Tu tens dentro do peito o que procuras, algo em troca, quem sabe o amor.
É por tudo o que acontece, onde quer que se procure,
Feliz do que anoitece, impotente mas com Luz.
Mas por outro lado há a dor dos que morrem, sem terem visto
O que de bom e a favor morre ao seu lado sem aviso.
Uns com tanto outros sem nada, dói por dentro é uma facada onde não acaba nem começa,
Mas é o mundo.
(in: nas asas do vento encontrei orixá)

MUNDOS II

No Mundo do Faz de Conta

Que teremos mais para além disto, senão uma vontade louca de não ter nada do que se tem.
É uma luta constante de desarmamento perante a luta.
Armas sem munições que nos levam a uma esperança.
Uma esperança secreta de vencer, vencer sem massacre.
Vencer com armas descarregadas, que só amedrontam, mas que dão uma certa segurança,
No Mundo do Faz de Conta.
Mundo no qual nem essas armas deviam ter cabimento, pois seria bom que pelo menos,
Pelo menos no faz de conta tudo fosse diferente.
Mas até isso já está corrompido. Levaram para esse mundo os vírus das epidemias,
Que destroem continuamente o mundo que deu origem, devido às insatisfações,
Ao Mundo do Faz de Conta.
E agora é preciso começar outro, mas de preferência, a sério e feito não só de faz de conta!
(in: nas asas do vento encontrei orixá)

MUNDOS I

Choro o mundo

Choram as pedras pelas coisas que não fora..
Choram os caminhos pelo tempo que não andam.
Choram as árvores pelo vento que não sentem.
Choram os rios pelos peixes que morreram.
Choram as aves pelo ar que lhes tiram.
Choro eu.
Por não saber o Tudo que existe.
Por não conseguir saber porque choro.
Por não chorar.
Choro sem lágrimas visíveis.
Choro doloridamente o que perdi.
Choro o que se ausentou de mim.
Choro sem saber se choro o que devo.
(in: nas asas do vento encontrei orixá)

OUTROS MUNDOS




Óleo: Dina V.

O pensamento humano, mais subtil e veloz que a luz, sobe e eleva-se para além das nuvens, e no seu voo assombroso transcende as barreiras do Universo visível, contempla e expande-se na imensidão.

EM CÍRCULO

Vou contar uma hoistória sem ter a preocupação das frases curtas, nem tão pouco de me cingir a um tema.
Vou entrar em confronto com a capacidade de através de palavras desnudar a mente.
Vou deixar....que tal como a naturalidade de um rio as palavras deslizem
Pelo leito secreto do meu pensamento...e se depositem na foz de um simples papel.
Tenho dificuldade em libertar a imaginação. Tenho raiva de não conseguir escrever quando quero.
As palavras ficam presas, grosseiras até, perante a incapacidade de tradução.
Mas deixemos o que não consigo. Vou passar às afirmações.
Existem coisas lindas, que nem quem as possuiu as conhece.
O Homem é um ser severo. Traços e mais traços por cima do que escrevo e não É.
Não estou hoje com a coragem que normalmente tenho para me decifrar.
Hoje as palavras estão grudadas às paredes da cela.
Gostava de dizer de uma forma bonita o que me vai na alma, mas até o pensamento tem direito a não pensar.
Mas pensa. Solta-se:
Cânticos. Florestas. Prados. Flores.
Análise:
Cânticos significando ar e liberdade, em espaço aberto.
Florestas de frescura aconchegante amenizando o calor árduo.
Prados que soltam o pensamento iluminando-o de reflexos.
Flores de colorido estonteante de movimento e Vida.
Natureza próxima, tão chegada a mim que me confunde. Sinto-me.
Redução:
Infinitamente pequena perante o que Existe.
(in: nas asa do vento encontrei de Dina V.)

M Ú S I C A

óleo: Dina Ventura



quinta-feira, 16 de abril de 2009

EXPOSIÇÃO DE PINTURA EM VISEU DIA 1 DE JUNHO 2009

"Ana Gonçalves, Ana Paula Lebreiro, César Amorim (mutes) e Dina Ventura, são os 4 artistas plásticos que dão corpo a este colectivo de pintura formado em 2009. Graças às novas tecnologias, foi possível juntar estes 4 amigos sem nunca se terem encontrado até á um dia atrás...
- Não escolhemos o assunto, o segredo das obras está aí, na concordância do assunto e do temperamento do autor. Na nossa arte, procurar nada significa, o que importa é encontra-la, no seu lugar de liberdade entre o pintor e a tela, sua confidente... A arte não teria lugar na história se os limites do mundo conhecido não tivessem recuado, e os meios de o conhecer, alargado á medida das suas transformações e das suas necessidades, numa tentativa de reconciliar a existência do sentimento de cada pintor, com a sua visão dos seus medos, alegrias, tristezas, loucuras e diversos estados de espírito. Esta é a arte de Ana Gonçalves, Ana Lebreiro, César Amorim (mutes) e Dina Ventura, numa tentativa de racionalizar um conflito de emoções dentro de cada um dos artistas, mas o mais importante do que a obra propriamente dita, é o que ela vai gerar dentro de cada um de vocês espectadores. As artes não são concebidas como acções historicamente invariáveis do género humano, nem como arsenal de “bens culturais” que vivem uma existência sem tempo, mas como um processo que avança sem cessar, como um (work in progress) do qual toda a obra participa, porque pintar é fácil quando não se sabe, porque quando souberdes deixa de o ser..." MUTES

Agradeço ao "mestre" mutes pintor toda a dedicação a este evento. Bem hajas.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

MUNDO ALADO


óleo: Dina Ventura

O Mundo não deve ter fronteiras e sim horizontes. Achar que o mundo não tem um Criador é o mesmo que dizer que uma enciclopédia é o resultado de uma explosão numa tipografia.


Astros que voam sobre as nossas cabeças, mundos que gemem sob os nossos pés.
Corpos alados num Universo perdido. Encontros de almas sofrendo.
Corridas loucas no tempo parado, procuras abertas em lugares fechados.
Visões momentâneas de um Mundo que existe, através de olhos fechados para o mundo.
Olhos abertos para o que não se vê, procurando sempre o QUÊ de existir,
Neste mundo de mortos agarrados à vida.
Procura incessante por caminhos fechados, com muros fechados de preconceitos e medos.
Voos rasantes numa terra perdida, esperança de voos numa terra encontrada.
Procura de asas poderosas e belas que nos levem a sonhar com o Segredo da Vida.
(Eu sou ínfima - in: nas asas do vento encontrei orixá)

domingo, 12 de abril de 2009

NASCIMENTO





óleo de Dina Ventura
Dádiva da Natureza em que a principal tarefa da vida do ser humano é a de dar nascimento a si próprio.




Nascer e crescer...

Parto 1

Onde estou eu? Que lugar é este onde me puseram sem carta de apresentação?
E foi assim que vim, que entrei aqui sem conhecer ninguém. Mas logo me vi rodeada.
Que querem? É para me verem? Que tenho de estranho?
Eles é que são. São enormes e chamam-se gente.
Donde vieram? Donde eu vim? Mas donde vim eu?
Sei que não os conheci e agora também não. Parecem-me agradáveis.
Não é isso, eles dizem-se bons, que gostam de mim, enfim são familiares, é isso.
Dizem que são família e tratam-se como tal, pelos nomes ques lhes ensinaram.
São bastante confusos, é melhor eu não falar.
Que graça mesmo não falando eles percebem-me, será?
Bem, pelo menos no campo material, porque nos outros campos...
Não devem saber, coitados. Pelo menos não os sinto.
Mas resolvi, não vou falar porque não quero explicar-lhes o que sinto, não vão perceber.
Que teimosos, só querem que os imite:
Querem que fale, que ande, que quererão afinal?
Sérá que não me percebem? Vou gritar, talvez assim me percebam. Grito! Grito! Grito!

Parto 2

Sabem uma coisa, cansei-me de gritar.
Vou ceder, vou falar como eles, pelo menos parecem satisfeitos.
Falo, ando e eles são felizes porque eu pareço feliz. São mesmo superficiais!
E sabem? Já me mandam, mandam não, exigem! Exigem que conte, números imaginem!
E pronto, uma vez mais cedi. Dei por mim a fazer rabiscos.
Ou melhor, como eles dizem, a escrever, a ler, a contar...e a chorar de já ser gente como eles!
E que fizeram eles quando chorei?
Que sou uma tola, porque choro, que sou ingrata, chorar por ter tudo.
Mas afinal que tenho eu?
Tenho um mundo que não conheço, que querem que eu veja como eles o vêem.
E vi. Vi que o mundo é um martírio de gente, não há Mundo, nem Vida, só há gente!

Parto 3

Já aprendi tudo o que queriam, pensava eu, claro, porque querem cada vez mais.
Mas só querem isso.
Eu é que me vou escapando e vou aprendendo outras coisas.
Que afinal eles não são tão família, nem tão bons como parecia,
Que me querem bem mas duma maneira cruel.
Tão cruel que me encarcera dentro de outras vidas,
Tapando o pouco de alimento que poderia existir, para alimentar a minha!
Mas vou cedendo ao longo do caminho e começo a tentar desculpar.
Porque como dizem, sou carne da carne deles e portanto têm de gostar de mim,
Só querem o meu bem. Mas coitados, não saben oferecer e por isso eu vou desculpando,
Pois puseram-me cá, precisamente para serem compreendidos,
Entendidos e amparados quando precisarem!
É isso...mas que pena só eles precisarem!

Parto 4

Mas que apredizagem! É um mundo de contradições.
Imaginem que cheguei à conclusão que me é benéfico o que me exigiam.
Agora falo, escrevo, conto e como me é útil. Se não tivéssse aprendido era chamada de inadapata,
Mas, sinto-me inadapatada por ter aprendido. Mas vamos crescer por outro caminho.
Ao chegar ao termo das desculpas, acabo por as reforçar porque encontrei a chave do problema.
Ser adulto.
Os adultos, como se intitulam, têm outro mundo.
Um mundo escuro, mentiroso, mas acabam por ser sinceros,
Pois foi esse mundo que me mostraram! Estou-lhes grata, pois aceitei-o para o rejeitar!

Parto 5

Mundo tão desleal, rejeitei-o e vou à procura doutro.
Vou à procura do meu Mundo!
Quero que não haja mentira, nem sofrimento, nem dor.
Mas logo que penso nisso começo a sofrer!
Porque esse mundo não existe, ou melhor,
Poderá exisitir em mim, mas vou dá-lo e partilhá-lo com quem?
Ninguém o quer. Começo a sofrer.
Acontece por vezes surgir-me, uma pequena luz...lá longe,
Mas logo depois é abafada, pela escuridão das desfeitas e começo a pensar numa nova luta.
E penso...quantas pessoas andarão como eu, isoladas a lutar, procurando um mundo melhor?
Porque não as procurar e partir com elas para uma mesma luta!
Mas não sei, não as vejo e, quando me parece tê-las encontrado, não querem e desistem
E eu começo a perder a vontade de lutar...
Para descansar vou à procura de um papel e caneta, para mostrar aos adultos que tinham razão.
É preciso saber escrever! Pena é que eles não entendam,
Porque é que saber escrever é importante para mim!

Parto 6

Sou adulta, consideram-me, é da lei! Mas ando na ilegalidade.
Procuro no máximo tempo possível, ser criança!
Mas é muito dificil, é uma luta constante entre a verdade e a mentira.
Por vezes sinto-me a cair numa rede de malhas muito pequenas.
Mas sempre consigo sair. Mesmo a sangrar vou para o meu Mundo.
São tantas as dores que se curam mutuamente.
Depois, curada estou e eis-me novamente no meio dessa luta sangrenta pela sobrevivência,
No mundo dos adultos.
Já não há mais mundo sequer. Para sobreviverem já o começaram a destruir e
Sentem-se felizes de tanta infelicidade.
Que virá a seguir? Que nome terá? Será morte ou final de uma missão.
Missão de destruição final e em mim a esperança de começar de novo para um Mundo diferente!
(in: nas asas do vento encontrei orixá) Dina Ventura

Então ainda bem que nasci, porque todos nós temos uma missão, uma tarefa, para connosco, para com os outros, para com o mundo e em especial para com a Vida. Lutem para acreditar e conseguirão ser felizes.









sábado, 11 de abril de 2009

MUNDO DOURADO





Existiu na mitologia uma Era Dourada, conhecida como uma época de paz,
prosperidade, harmonia e estabilidade. Na literatura geralmente termina com um
acontecimento devastador, chamado de “A queda do Homem”. Mito ou
realidade por onde andamos nós. Em busca dele ou a destruí-lo?



Mundo dourado
Óleo - Dina Ventura


Arrefecimento colectivo

Porque se deixam as pessoas arrefecer pelo mundo!
Porque são levados por ele, na sua marcha sem rumo!
Porque não ficam consigo próprias, deixando de querer o que não lhes pertence.
Porque deixam de ser elas para alcançarem coisas sem sentido?
Porque escolhem o caminho que as vai deixar perdidas?
Será que não conseguem fazer a distinção?
Ou será que lhes é mais fácil seguir por um caminho já trilhado?
Quando ele não existe, para o terem, têm de o começar.
Seria mais difícil sem dúvida, mas de certeza muito mais perfeito, pois seria o caminho à medida.
O caminho pensado, imaginado e que com maior ou menor dificuldade, ia sendo desbravado.
Por mais rústico que fosse, era o caminho pisado pelo próprio, pelo dono que o admirava, pois tinha sido construído com o suor da alma!
(in: nas asas do vento encontrei, de Dina Ventura)

LIBERDADE - TRISTE

Sábado véspera de Páscoa. Aguardo. Enquanto o faço penso nos sentimentos e emoções de quem está privado da liberdade.
Entre quatro paredes de uma cela ou dentro do seu próprio corpo. Tento e não consigo imaginar o que vai na cabeça de quem está nessa situação. Pensará na família? No Domingo de Páscoa? Sentirá que está ali injustamente ou simplesmente, antes ali do que num local pior ainda? Questionará o porquê de estar? O que teria feito de diferente para que isso não ocorresse, ou nem pensará em tal?
Ao ter estes pensamentos sinto-me aprisionada em mim. Que fazer para me libertar? Deixar de pensar no assunto ou tentar entender os porquês? Mas fazendo-o não será tentar aliviar o mau estar que causa? É uma situação para alguns por demais vivida e para outros algo que de tão novo, desconhecido e distante mais parece irreal. Há medida que vamos vivendo as situações, apesar de serem as mesmas, tornam-se mais compreensíveis, mesmo que não aceites. Mas que fazer? Há que aguardar, fazer o que se sente ser possível e simplesmente estar aqui, a aguardar a hora da visita e repensar o que é a liberdade, com tristeza!

TRISTEZA O QUE É?
Cavalo morto em liberdade.
Floresta virgem queimada pelas chamas.
Abraços bem fortes na despedida.
Olhos que vEêm o que vai no mundo. Olhos cegos para o que existe!
Crianças sorrindo à esmola dada. Velhos chorando os dias passados.
Mãe limpando as lágrimas pelo que perdeu.
Campos abertos cercados de arame. Cidades abertas fechadas para o Mundo.
Casas brilhando sob o fogo das armas.
Riqueza pobre de um rico qualquer.Trabalho esforçado dum preso à vida.
Morte natural sem esperança de Vida. Vida morta duma forma natural.
Tristeza triste de não saber o que é Tristeza. (in nas asas do vento encontrei Orixá)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

MEMÓRIAS da ilha azul

Há alguns anos escrevi um poema,ou pseudo, que nunca imaginei fosse publicado. Mas foi. Vou transcrever um pouco:
"Ilha azul
Sabem o que significa escrever para mim?
É a forma mais bonita que tenho de transmitir o que sinto.
É uma paz suave envolta numa luz clara e límpida.
É um lago de água muito transparente e azul deixando aparecer um fundo lindo, cheio de plantas de um verde divino, salpicado de flores de um vermelho fogo.
Gotas de orvalho nesse mundo irreal. Vida, muita vida.
Correm velozes todos os animais marinhos, a meu lado.
Castelos de uma fragilidade sólida, pintados de fresco, com tabuletas de felicidade.
Que tinta é esta? Não é tinta porque neste mundo tudo já é cor, que se reflecte na terra.(...)
Há também muita muita luz, é um mundo diferente que também não tem gente.
Mas tem árvores, aves, animais, flores e muita cor.
Como se chama? (...) talvez fique para Além. Para além, que quer dizer, bem perto de nós. Dentro de nós e chama-se Ilha Azul. Vamos continuar. Dina Ventura "nas asas do vento encontrei Orixá.

Este voltar atrás fez-me recordar a solidão feliz da época, a fuga através da fantasia para não encarar a realidade e por ainda não ter conseguido encontrar o meu "eu", ou melhor não estar preparada para acreditar nele e achar que era um sonho que só poderia existir num mundo onde as pessoas não tinham lugar. Como estava enganada. Foram as pessoas que me ajudaram a descobrir que esse mundo realmente existe, está em mim, é real e verdadeiramente vivido. Às que me ajudaram a vê-lo de uma forma por vezes dolorosa só tenho a dar o agradecimento maior, pois foram elas que me prepararam para o presente. Fortaleceram-me para não permitir que as maiores avalanches não destruam, nem tirem a transparência a esse mundo ou ilha. Muito grata a todos para que eu o encontrasse de Verdade e não sonhasse apenas com ele. Procurem-no porque ele está aí bem perto bem dentro de cada um. São donos de uma ilha! A cor cabe a cada um escolher a que mais gostar. Não percam tempo, apesar de eu saber que só o tempo fará com que a encontrem. Mas procurem. Começo de uma bela Sexta-Feira Santa.

RECOMEÇO

Tudo tem começo e meio. O fim só existe para quem não se apercebe do recomeço.

A vitalidade revela-se não só na capacidade de persistir, mas também na de começar tudo de novo.


Recomeço.

Nada é tão doloroso, como a espera por algo que não chega.

Quando não se consegue compensar o que não se tem.

É um desejo crescente, doloroso.

Um desejo sem objectivos que leva à desistência.

Não se deve desejar o que não se sabe existir. Mas em mim é uma doença, algo me atrai ao nada e vou-me ferindo, martirizando. É como se conseguisse chegar ao que não existe.

É assim que se vive. Esquecemos de fazer a pergunta: Para que sou? Será que sou só por ser?

Não posso aceitar! Tudo o que me mostram é ilusão. Há que encontrar o outro lado. Esse é que existe porque doutra forma qual o valor da existência? Recomeço.

SACRIFÍCIO

A lágrima é a irmã triste do sorriso. Só conseguirá compreender o que é um sentimento, quem lhe tiver sacrificado uma parte de si próprio, quem tiver lutado para o salvar e sofrido para lhe dar beleza e vida.

Movimentos da alma

Movimentos da Alma.

Provocam uma dor, que não o sendo, desperta o interior dolorosamente. Tenta sair, exteriorizar-se e embate na parte interior do corpo de forma violenta, como uma pedra envolta em veludo.
Todo o ser se movimenta e agita numa avalanche incontrolável. São as emoções fortes que nos tornam frágeis, mas são elas que nos fazem vibrar com e para a vida.
É algo que começa de mansinho, ganha volume e velocidade, dando a sensação de vertigem ou, que se não se conseguir estancar esse movimento, nos afundamos nessa onda que se apresenta imensamente poderosa e que nos poderá derrubar e destruir.
Há que ganhar fôlego, inspirar o mais profundo mesmo em dor, encher os pulmões de oxigénio na maior quantidade possível, para ao mergulharmos nos protegermos do embate e não morrermos de falta de ar. É algo imenso, intenso que só pode ser explicado através da alma e dos seus movimentos. Sempre que ela se movimenta dói de forma apaziguadora. Entra na mente e desfaz e transforma os significados de todas as palavras criadas pelo Homem. Ela transcende todos os símbolos e destrói todas as composições elaboradas e estruturadas no tempo. Provoca revoluções interiores que nos deixam atónitos, sem entendimento ou razão. Olhar a alma significa olharmo-nos sem medo, mas receosos dos nossos sentidos. Há o pôr em causa comportamentos, atitudes e questionando a própria vida das partidas ou provas a que nos submete. É o sentirmo-nos envolvidos por uma força misteriosa que nos supera e faz com que sangremos para a conseguirmos controlar.
Sempre se sabe o que é, costumam dizer os especialistas, mas e quando na realidade nos questionamos e não encontramos respostas? Porque envolvemos outros nas nossas dúvidas, medos e inseguranças e porque lhes atribuímos a origem dos nossos tormentos? O ser humano reage a si mesmo nem sempre duma forma verdadeira e corajosa. Esconde-se atrás de si mesmo, provocando um desdobramento desumano que o desprotege ainda mais. De quê? De nada em especial, porque o não se sentir protegido é por não ter os apoios internos necessários, ou pelo facto dos alicerces estarem pouco profundos e não conseguirem aguentar a estrutura se a tiverem construído e erguido em desacordo proporcional às bases.
A sustentação do ser é tão leve, permeável e frágil, que ao menor descuido pode desabar. A isso se chama viver, crescer e sentir, sentindo-se. Isto é um testemunho.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A gratidão


A gratidão é a memória do coração e o tesouro dos humildes.

Quem é agradecido aos que lhe fazem bem, mostra que também o será a Deus, que tanto bem lhe fez e lhe devolverá essa gratidão se for verdadeira.

A gratidão para muitos seres humanos não passa de um desejo secreto de receber mais favores.

Aos incapazes de gratidão nunca faltam pretextos para não a ter.



óleo

Dina Ventura




terça-feira, 7 de abril de 2009

As cores


Foram elas que deram aso a este tema bastante longo, sobre Arte e espiritualidade. Não ao tema propriamente, mas ao estar direccionada para a escrita neste espaço. Como defini no perfil estou a recuperar, de atitudes que considero menos correctas e que me chocaram apesar de no fundo ser eu a culpada. Pois só nos fazem o que permitimos que nos façam, apesar de eu sempre o repetir a mim mesma e aos outros, mas às vezes não nos ouvimos e hoje foi reavivado duma forma muito interessante por uma pessoa que gosto bastante. Obrigada a si que sabe quem é.
Mas são os caminhos da aprendizagem, umas vezes mais tortuosos mas onde se aprende muito. Vamos então colorir a conversa.
Qualquer tela, tecido ou prato ornamentado e colorido chama mais a atenção a uns do que a outros. Verdade? Já diz o ditado que se todos gostassem do amarelo o que seria do azul e de todas as outras cores. Pois é, mas até uma tela em branco tem cor. Na forma de nos expressarmos ou gostarmos mais daquela cor e a utilizarmos, é por ter algo que nos desperta para ela. Isso é muito importante, bem mais do que por vezes possamos imaginar. As cores, apesar de aparentemente serem poucas, as chamadas primárias, nas suas combinações são milhares. Pois tal e qual os seres humanos, mesmo sendo parecidos têm sempre algo, a sua essência ou individualidade, que os distingue uns dos outros e faz de cada um, ser único. Por isso cada autor mesmo que se debruce sobre o mesmo tema espelha a sua personalidade, a sua alma no trabalho que faz. Quem o vê reflecte exactamente as suas emoções, mostrando as suas tendências. Não podemos considerar algo estático pois tem a ver com muitas coisas e em especial com o seu estado de espírito. Mais sereno e tranquilo pode apresentar-se com tonalidades mais suaves mas o oposto também é verdadeiro. O estado de espírito influência tanto o fazedor como o observador.
Vou "roubar" a mim mesma o que escrevi sobre as cores, não para estas conversas mas para artigos publicados numa revista, que deram origem a um livro, anunciado para breve, mas devido a equívocos, entre ideias, autores e co-autores, ficou adiada a publicação. Mas como a obra é minha, posso usá-la da forma como entender, sem receios de dar ideias a alguém para escrever se entender, até sobre o tema, pois considero que cada um é livre de escrever sobre ideias já existentes, mas de forma criativa sem roubar ou plagiar, isso sim pode ser crime. Serei punida por copiar o que é meu? Não sei mas vou partilhar um pouco convosco.
Começo com uma afirmação de Joahann Wolfgang Von Goethe "As cores são acções e paixões de luz. Na verdade luz e cor relacionam-se perfeitamente, embora devamos pensá-las como pertencentes à Natureza como um todo: ela é inteira e revela-se ao sentido da visão". Depois de um sábio definir as cores que mais dizer? Que mudar de cor é empalidecer? Fazer-se de mil cores é mostrar grande pertrubação, empalidecendo e corando sucessivamente? Ou ainda que pode ser apenas aparência, pois a hipócrisia tem a cor da virtude. Mas são tantas as questões que não se podem contabilizar, tal como o número de cores existentes.
Não tomando a via da explicação cientifica da cor, se é primária ou secundária, por não ser esse o objectivo desta conversa, apenas importa saber que a cor é um fenómeno de luz e energia que estimula a nossa vida e está presente em tudo. Em cada desejo a cor da alma manifesta-se e em cada pensamento, as cores das nossas ideias e intenções. Cor é vibração e influencia os seres, física, mental e espiritualmente. Contribui de forma incisiva na psique humana, provocando estados de ânimo específicos e facilita a interpretação e descodificação da realidade. A cor é uma sensação interna. Não deixando de ser um conceito biológico, baseado na resposta mental do olho à luz e a forma como cada ser vê a cor, o mais importante é a forma como cada um a sente. Ela está no nosso quotidiano, mexe com a nossa sensibilidade porque possui vida e sempre actuou no ser humano de todas as épocas, influenciando tendências por determinadas harmonias de acordo com a cultura, evolução do gosto e fundamentalmente devido a influências e orientações da arte e moda.
Portanto o que quero dizer com isto é que temos de aprender a interpretar tudo o que fazemos e em especial porque fazemos. Essa é a base para o nosso conhecimento interior. Saber interpretar a realidade ou o abstracto fará de nós uns mestres de nós mesmos e em consequência a melhor sabermos lidar com os outros, respeitando as opções e gostos de cada um, porque o que achamos ou consideramos mais bonito para nós poderá não o ser para quem está ao nosso lado.
"Para pintar os sentimentos temos os poetas, para definir e trabalhar as cores os pintores, mas na verdade os peritos somos nós, pois só cada um sabe qual é a cor da sua solidão e do seu amor..."
A cor da alma é a cor do sonho e evolução espiritual, dependendo do que brilha em nós. Foi um pedaço de mim que deixei aqui, quem sabe o poderão ler na totalidade um dia destes. Fiquem em paz e coloridos.

Arte e espiritualidade - continuação

Quarta parte
Este tema serviu de mote para conversas tidas, durante uma exposição de pintura intitulada "De mãos dadas" que me sinto muito honrada em ter participado com duas amigas a Ana, http://anagpintora.blogspot.com e a Sónia: http://sabordomar.blog.com. Para quem as desejar visitar pode e deve, pois vale a pena.
Ora essa exposição serviu para nos libertarmos, descomprimirmos, dialogarmos e de mãos dados nos sentirmos bem e foi isso que aconteceu. Muito grata a elas e a quem nos deu essa oportunidade.

A arte alimenta-se de ingenuidade, de imaginação que ultrapassa os limites do conhecimento e é aí que encontra o seu reino, a essência ou centelha divina, chamem-lhe o que quiserem, que cada um de nós possui e desenvolve mais ou menos.
O dizer tem o dom, acredito, mas creio que os grandes mestres e artistas se esforçaram e esforçam para conseguir alcançar o que para eles seria o seu melhor, porque o que para nós está perfeito para eles não estaria. E é esta essência que cada um guarda bem dentro de si, a que a ciência não tem acesso e não sei se algum dia terá, julgo e espero que não, que nos liga directamente à arte e ao desenvolvimento espiritual, ou seja a uma evolução no sentido positivo como seres pensantes.
Todos os passos são importantes para que avancemos em direcção ao nosso "eu", sem nos afastarmos dos outros, antes pelo contrário, pois considero que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que ao esquivar-se do sofrimento ou sacrifício para lutar, perde ou deixa escapar a felicidade.
O olhar uma tela, mesmo que não a entendamos, activa em cada um de nós, os mais profundos sentimentos por vezes adormecidos por alguma razão ou devido até à falta de tempo para Olhar. Se olha apenas e diz que "coisa" tão simples parece de criança, mas que arte é esta? Será que não está a conseguir enxergar porque perdeu a sua criança algures ou terá medo de a enfrentar?
Arte seja ela qual for é sempre um caminho essencial para a busca da transcendência que nos inunda a alma e que por vezes é tão subtil que nem nos damos conta.
Para Willian Blake, Sir, (1757-1827), poeta místico inglês, a noção de espiritualidade era tão intima quanto a arte. Por vezes era incomprendido e até apelidade de louco, por usar com todas as forças da alma, a criatividade contra a parte científica. Poeta, artista plástico e acima de tudo e o mais importante um observador do mundo. Para ele por mais brilhantes que as descobertas cientificas fossem, não seriam suficientes para explicar os processos da Natureza e a alma humana, muito mais complexos do que por vezes os cientistas concebem. Melhor do que ninguém ele sabia que somente a arte, com a sua maior liberdade de expressão, é capaz de tornar possível a manifestação das tendências do espirito. Palavras suas "Ver o mundo num grão de areia e o paraíso numa flor silvestre, segurar o infinito na palma da mão e a eternidade numa hora". É isso o que um artista consegue fazer, estimulando a sua criatividade e dando asas ao seu espirito para que possa voar para além fronteiras.
Grata por terem chegado até aqui.

Arte e espiritualidade - continuação

Terceira parte
Tomos somos artistas. Agora gostava de falar sobre, "subtilmente e baixinho", os grandes mestres da Arte. Falar deles posso, comparar-me com eles é que seria uma afronta. Mas cada um é cada um, não deixando de Ser e se dá de alma e coração não tem de sentir medo ou de se inferiorizar perante quem acha "grande" e sim trabalhar para chegar o mais próximo possível. Este é o ensinamento que podemos e devemos recolher de quem admiramos. Não sentirmos inveja ou acanhamento por não podermos ser iguais, tão perfeitos, ou famosos, isso não nos enalteceria antes pelo contrário, falar deles e aprender com eles é uma honra e não uma comparação tenebrosa. Se eles se mostraram e mostram ao mundo, algum objectivo tinham e têm, quem sabe não será que alguém Olhe para o seu trabalho, alimente a sua alma de beleza, dê cor à sua vida e ao que o rodeia. O que os grandes mestres nos podem fazer é, incentivar a que dentro das nossas possibilidades cheguemos bem fundo dentro de nós, explorando e trabalhando as nossas capacidades artísticas. É isso que fará com que a nossa mente se abra e o nosso espírito se expanda e necessite cada vez mais dessa abertura expansiva para evoluir. Possivelmente é essa a razão porque estamos aqui, ou porque está a ler o que escrevi, quer discorde ou concorde. Apesar de cada um se apresentar como um ser individual, existem muitos pontos em comum, principalmente no que concerne à parte espiritual e à evolução como ser humano, independente dos caminhos que cada um percorre para o fazer, quer seja através da pintura, da escrita, da leitura, do desporto, do pensamento, qualquer tipo de trabalho que sirva de embolo para que a alma se movimente e expanda. Pode ser uma conversa simples, sobre coisas simples, mas eu gosto de coisas simples, pois muitas vezes são essas coisas que se tornam o refúgio de um espirito complexo.

Arte e espiritualidade - continuação

Segunda parte
Contar uma história é uma arte, cantar, dançar, pintar, ou fazer outra qualquer manifestação com a alma, é Arte. Tudo isso nos pode conduzir a reflexões profundas e a descobrir muita coisas para as quais ainda não tínhamos sido alertados. A Arte deve abalar, mexer com o intimo, provocar sensações nunca antes ocorridas e em especial que façam sentido e sentir. Diz-se que a arte acompanha a vida e vive-versa. Pois então a cada passo que dermos há que colar-lhe arte para que melhor nos possamos descobrir. Isso representa um passo para o conhecimento de si mesmo, ou seja o encontro com a sua espiritualidade. Nada mais simples e a que todos temos acesso, desde que queiramos e não apenas uns poucos privilegiados, como muitas vezes acreditamos, de uma forma errada. Ou por nos colocarmos à distância ou por nos distanciarmos de nós mesmos. Acreditem que todos têm dentro de si uma centelha de artista à espera de ser iluminada ou acesa, para que possa produzir cor. Não é algo complicado ou transcendente, é apenas olharmos para as coisas de uma forma mais atenta e ver através delas e de nós próprios, sem nos importarmos com: e se os outros não gostarem? Haverá sempre quem não goste do que se faz, ou porque na realidade não está bonito ou bem feito e aí poderemos tentar melhorar, ou simplesmente porque o outro tem uma forma de sentir muito diferente e aí é apenas uma questão de opinião e gosto diferentes. Nada o deve obrigar a gostar, nem a quem faz ou fez desistir por isso, desde que não colida ou interfira de forma impositiva na vida do outro. Apenas devemos respeitar a liberdade de expressão e a liberdade de opinião.
O autor da Vida criou a vida. A vida formou a arte. A Arte voltou-se para o homem e o homem tende a voltar-se para algo que o transcende. Então é neste ciclo que todos nos encontramos. Ora se a espiritualidade é a busca do significado e sentido da vida, e se esta formou a arte, então a espiritualidade também está inserida nela. A Arte será pois a tradução do espirito através da matéria ou doutro meio de comunicar.
Os espelhos reflectem a imagem do rosto e a arte em geral reflecte a imagem da alma. A chamada obra de arte seja ela de que tipo for, é uma personalidade. O seu autor, desde o artista plástico, escritor, contador de histórias, cozinheiro, ou feitor do trabalho mais singelo, desde que elaborado com a alma, vive na sua obra de arte depois dela ter vivido mais ou menos tempo dentro dele. Mas para que isso aconteça e que a sua mensagem possa ajudar a colorir vidas e até o Mundo, deve-se começar em primeiro ligar pelo aperfeiçoamento pessoal e realizar inovações no nosso interior. Isso tira as inseguranças e receios de nos mostrarmos aos outros através do que fazemos, do que somos com o objectivo de não só ajudarmos como sermos ajudados. É a troca. Todos temos algo para partilhar e todos somos artistas.